Fichamento,

Miriam Alves

A escritora paulistana, que lança ‘Poemas reunidos’, fala sobre a importância da criação literária para mudar o imaginário em torno das pessoas negras

01mar2022 - 04h00 | Edição #55

Miriam Alves tem sua produção poética de quatro décadas compilada pela primeira vez em Poemas reunidos (Fósforo/Luna Parque). Ela fala sobre escrita, racismo, militância e como as placas tectônicas da literatura negra mexem com o mercado editorial.

Você escreve que um livro é o que ele contém e o que ele representa. O que Poemas reunidos representa?
Comecei a publicar quando tinha uns trinta anos. Parece que dormi, abri os olhos, olhei no espelho e pensei: “Envelheci, mas não é que fiz um monte de coisa?”. Ao receber a proposta para esse livro, fiquei reticente, mas os editores souberam me convencer direitinho. Dei carta branca a eles e fizeram um trabalho lindo. Quando vi o livro, chorei para caramba. Espero que isso de chorar pare um pouco — eu sou a durona, a briguenta, a bocuda e estou acabando com minha fama de má.

O livro representa uma coisa importantíssima para mim: acreditar. Mesmo que digam, como já disseram, que não é literatura o que faço, não desanimo. Não é meritocracia, é acreditar em você e saber que somos muitas escritoras negras e muitos escritores negros. Quanto mais acreditamos em nossa possibilidade de criar e se comunicar, mais mudamos o imaginário desta nação que nos olha e só vê pessoas potencialmente perigosas. Não, nós somos potencialmente Nós.

Algo mudou nesse imaginário desde que seus poemas começaram a ser publicados, na década de 80?
As coisas mudam com muitas ações de vários lados. E estamos vivendo de forma muito aguda a truculência de um dos lados. O projeto de nação é o mesmo até hoje, baseado no que a gente chamava de “senhores e escravos”. Atualmente são outros termos: “Eu posso, tenho privilégios e, se vocês morrerem, tudo bem, vocês procriam feito formigas, a gente substitui”. Desculpa, já estou fazendo discurso…

Trazer essas questões para a sua escrita ajuda nessa mudança?
Com certeza. Faz parte da estratégia de sobrevivência dos negros falar do que há do outro lado da ponte para furar o bloqueio dessa cultura que se diz hegemônica. Com meu texto, minha fala, meus cacos de vidro, eu vou quebrando esse bloqueio. Eu poderia escrever um textão na internet, mas escrevo um poema, um romance.

Há hoje mais espaço no mercado editorial para os autores ditos não hegemônicos?
O mercado foi cutucado. Já havia movimentos literários de negros, da periferia, o slam. A gente reivindicou espaço — não com “coitadismo”, como dizem, mas porque estamos aqui, somos nação, queremos que saibam que existimos. Somos as placas tectônicas que começaram a se mexer. Alguma coisa saiu do controle e o mercado editorial percebeu que teria de fazer algo.

A poesia é uma forma de militância?
Evidentemente. Quando descrevem minha literatura como militante, pergunto: e a de Maiakóvski não era? E a dos abolicionistas? E a de Monteiro Lobato? Toda literatura é militante e ideológica.

Escrevo por ímpetos, muita coisa: poema, conto, romance. A poesia é o impossível de não rolar, aquele tesão. Como estar num bar e olhar para alguém, piscar, ir ali mesmo no banheiro do bar, pronto, rola, e cada um vai para seu lado. No conto, tem a piscadinha do bar, uma xavecada, dois dias de conversa no WhatsApp, um drinque, até rolar. O romance começa do mesmo jeito: vai dando certo, um convite para jantar, noites de sexo quente, daí começa a dormir de meia, e um belo dia a paixão vai embora. Pronto, acabou o romance.

No momento escrevo romances, diminuí um pouco minha impulsividade porque preciso ficar elaborando, fazendo aquela cara de besta, olhando o mar. Mas, nos momentos de intervalo, continuo escrevendo poemas.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #55 em outubro de 2021.