A crítica literária Eliane Robert Moraes (Renato Parada/Divulgação)

Crítica Literária,

‘Toda boa literatura é erótica’

Em nova coletânea, Eliane Robert Moraes reúne textos sobre pensamento e sexo, campos que se encontram na palavra

26out2026

Em um singelo conto de Machado de Assis, “O cônego ou metafísica do estilo”, o narrador conduz os leitores ao mundo íntimo das palavras que habitam a cabeça do cônego Matias, às voltas com a escrita de um sermão. Lá, nos revela certo segredo sobre a dinâmica das relações entre as palavras. Diz que elas têm sexo: “Amam-se umas às outras. E casam-se”. A mais recente coletânea de textos organizada pela crítica literária Eliane Robert Moraes confirma essa afirmação. Da cópula de duas palavras nasceu Erótica teórica: escritos sobre as fronteiras do sexo. O par é harmônico, pois forma um anagrama perfeito. Mas a comunhão não soa muito natural. Enquanto “erótica” remete ao corpo, “teórica” leva ao campo do pensamento.

“Tudo parece reforçar a incompatibilidade entre os dois substantivos, a segregar cada qual em seu mundo, como se fossem estranhos um ao outro”, escreve a organizadora na abertura. Mas, como anuncia o conto machadiano, a mente pode ser uma alcova muito excitante para que a conjunção de palavras faça a fusão dos dois universos supostamente tão diferentes e dê origem a um corpo especial: um corpo de texto que chamamos literatura. “Erotismo é criação. A literatura é um trabalho de criação altamente libidinoso e, portanto, erótico. Toda boa literatura é erótica”, diz Moraes em entrevista à Quatro Cinco Um, parafraseando Italo Calvino, um dos nomes que figuram no livro.

Estudiosa do tema e pornógrafa, Moraes se dedica a investigar a relação entre sexo e letra

Maior estudiosa do tema no Brasil e também “uma pornógrafa”, como faz questão de frisar, há pelo menos quatro décadas Moraes se dedica a investigar a relação entre sexo e letra. Além dos inúmeros ensaios, artigos e traduções — entre elas a do célebre História do olho (Companhia das Letras, 2018), de Georges Bataille —, desde 2015 vem publicando coletâneas. A primeira, Antologia da poesia erótica brasileira (Ateliê Editorial), está esgotada e chega a custar mais de quatrocentos reais em sebos virtuais. Em seguida, vieram duas reuniões de contos brasileiros divididos por época (de 1852 a 1922 e de 1922 a 2022) e a Seleta erótica de Mário de Andrade (Ubu, 2022).

Espelho

A coletânea que chega às livrarias tem algo particular. Não se trata de um recorte feito a partir de um gênero, tempo, movimento literário ou qualquer crivo convencional, como nas anteriores. Erótica teórica é uma “autobibliografia”, “uma seleção um tanto pessoal” produzida por alguém que se dedica à literatura erótica com “grande interesse e intensa paixão”.

“São aqueles livros da minha estante que, vira e mexe, estão abertos na mesa de trabalho. São reflexões sobre o erotismo com as quais dialogo, sem a preocupação de seguir uma linha teórica ou determinado movimento filosófico. O que chama a atenção é que esses pensamentos são, na maior parte, formulados por escritoras e escritores. Conforme fui organizando o livro, percebi que minha forma de pensar o erotismo se alimenta sempre da literatura”, explica Moraes.

A seleta é, assim, uma “espécie de espelho”, onde a própria autora diz se enxergar. É nessa imagem reflexa que ela oferece uma parte de si para nós. Trata-se de um convite que se aceita com volúpia, uma oportunidade de penetrar e vasculhar a mente de uma pornógrafa. Como consequência, uma resenha da obra, como esta que você lê, acaba ganhando contornos de outro gênero: o perfil.

Assumindo tal papel, deve-se dizer que uma das características mais evidentes da personalidade da intelectual Eliane Robert Moraes se revela no formato de publicação em coletânea, como é o caso da série acidental dos títulos que ela vem colocando no mundo. É como se a convocação de vozes terceiras fosse a forma como ela se expressa. Certos autores e autoras iluminam ou embasam seu pensamento. Com outros, a conexão apenas flui. “Eu não aplico Bataille. Ele é um pensador com quem converso, que me ajuda no processo de interpretação”, diz. Assim, é possível afirmar que uma coletânea feita pela crítica literária não é mera curadoria, mas trabalho de autoria que revela um traço muito claro. A autoexpressão em parceria também escapa em outros gestos da autora. Às vésperas da entrevista que resultou neste texto, ela não apenas preparou o que diria, mas também separou trechos dos autores presentes no livro.

Flertes

É natural que a carreira da acadêmica tenha sido conduzida por escritores e escritoras em carne e osso ou materializados em suas obras. Marquês de Sade (1740-1814), por exemplo, foi o responsável por sua iniciação para valer no universo erótico-literário, um flerte que surgiu durante as pesquisas para O que é pornografia? (1984), escrito com Sandra M. Lapeiz. Depois, foi a vez de Hilda Hilst abrir as portas da literatura brasileira para ela — uma anedota digna de nota. Moraes conta que, em 1990, recebeu um telefonema de Humberto Werneck. O então editor do Jornal do Brasil e atual editor sênior da Quatro Cinco Um queria que ela resenhasse O caderno rosa de Lori Lamby, a escandalosa estreia da escritora no universo das “adoráveis bandalheiras”. A primeira resposta foi negativa. Até ali, Moraes só se dedicava a obras e autores europeus. Mas mudou de ideia rapidamente quando ouviu do outro lado da linha: “É pornografia e ninguém está querendo fazer”.

A paixão estava instalada, sem sinais de que arrefeceria. A partir de então, Moraes leu toda a obra e se tornou grande especialista nesta que é considerada a escritora das pornografias mais eruditas da literatura brasileira. Não é mero detalhe, portanto, que as personagens pornográficas hilstianas sejam todas forjadas na cópula entre erotismo e teoria. “É metafísica ou putaria das grossas?”, reflete um personagem de Hilst em Contos d’escárnio: textos grotescos (1990). Em um artigo publicado em 2003, Moraes já deixava clara sua sensibilidade para o tema que está no cerne de Erótica teórica. Escreve que a obra de Hilst “propõe um contato inesperado entre opostos, associando o exercício do conhecimento à atividade sexual”.

Mas quem a levou para o universo orgiástico das coletâneas eróticas foi, de certa forma, o poeta e ensaísta José Paulo Paes, seu “pai intelectual”. “Ele tinha organizado a Poesia erótica em tradução nos anos 90 e me cutucava dizendo que eu deveria explorar o universo da literatura brasileira”, conta. A sugestão, somada à reclamação de Mário de Andrade, que certa vez disse não haver uma “pornografia organizada” no Brasil, acabou resultando na primeira seleta, a Antologia da poesia erótica brasileira, abrindo as portas para as que viriam.

Caleidoscópio

A nova coletânea, para a autora, funciona como um “caleidoscópio”, seja pela variedade de gêneros e de períodos em que foram publicados os textos, seja pela nacionalidade e pelo perfil dos autores. Sob 21 assinaturas diferentes (além de citações de Marguerite Yourcenar e Sade, que abrem e encerram o livro), encontram-se “desde artigos tradicionalmente considerados teóricos até pequenas notas retiradas de escritos pessoais, passando por crônicas, depoimentos, excertos de diário, manifestos, resenhas e outros gêneros que, inclusive, resistem à classificação”.

É, porém, uma suruba organizada. A coletânea está dividida em três partes. Na primeira, “Pensamento”, há textos mais alinhados “à ideia de raciocínio conceitual”, assinados por Italo Calvino, Susan Sontag, Georges Bataille (e sua incontornável introdução a O erotismo), D.H. Lawrence, Robert Musil, Agustina Bessa-Luís, Roberto Piva e Carlos Drummond de Andrade. Está lá, por exemplo, o ensaio sobre a imaginação pornográfica em que Sontag afirma:

A pornografia é apenas um item dentre as muitas mercadorias perigosas que circulam nesta sociedade e, por mais sem atrativos que seja, uma das menos letais, a menos custosa para a comunidade em termos de sofrimento humano.

Já em “Corpo”, “o que predomina é a própria fisicalidade erótica”. Ali, é impossível não vibrar com a escolha acertada do ensaio de Anne Carson, laureada com o Nobel de Literatura poucos dias antes do lançamento do livro. Fazem parte desta seção ainda Yara Frateschi Vieira, Katherine Mansfield, Glauco Mattoso, Otavio Frias Filho e Cristina Peri Rossi. Por fim, em “Palavra”, estão “escritos sobre escritos”. São todos textos em que escritores e escritoras escrevem sobre literatura. Tem Sérgio Sant’Anna, Otto Maria Carpeaux, Bataille, José Paulo Paes, Reinaldo Moraes, Néstor Perlongher, Annie Le Brun e Amara Moira, cujo texto é o único inédito, produzido especialmente para a coletânea.

‘A literatura é um trabalho de criação altamente libidinoso e, portanto, erótico’

Apesar de a organização propor um roteiro de leitura, nada impede que ela seja feita de maneira anárquica. Também é interessante se deixar levar por certa fusão e confusão entre os textos. Por que não notar a relação sinuosa e natural que se estabelece quando Anne Carson e Yara Frateschi Vieira, cada uma com suas palavras, discorrem sobre como a metáfora da sujeira é usada, de várias formas, para tratar da mulher? Ou ainda espiar, uma por vez, as investidas de escritores e escritoras sobre outros: Bataille sobre Charlotte Brontë, Moira sobre James Joyce, Carpeaux sobre Henry Miller…

Autoficção

Moraes nos orienta a ler Erótica teórica como uma autobibliografia, mas talvez não seja exagero dizer que se trata de uma espécie de autoficção. É com excertos de obras literárias, com a voz de duas personagens inventadas, que ela abre e encerra a coletânea. E, como já sabemos ser próprio das coisas que produz, a autora não faz isso de maneira convencional. Não há epígrafe ou conclusão de fato. As citações são apresentadas com leve cunho criativo: “a título de epígrafe” e “a título de conclusão”. É como se ela nos convidasse a imaginar que aqueles trechos podem ocupar o lugar de mote e síntese da obra, sem que, no entanto, formalmente exerçam a função. “Eles foram tirados de textos que adoro e considero fundamentais. Então, inventei aquelas duas entradas, uma como epígrafe e outra como conclusão, que funcionam como molduras do livro”, conta.

No primeiro, o protagonista de Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, começa dizendo: “Por vezes sonhei elaborar um sistema de conhecimento humano baseado no erotismo. Uma teoria de contacto…”. No segundo, Juliette, a personagem de Sade mais amada por Moraes, conta como tem ideias libertinas: “Ela está sozinha e entregue ao pensamento, deixando a mente seguir seu curso  livre para refletir sobre a origem das ideias libertinas”. Para alguém que se expressa em comunhão com a voz de outros e outras, este soa como um gesto típico em que, por meio da “boa literatura”, a autora revela suas próprias verdades. Altamente erótico.

Quem escreveu esse texto

Giuliana Bergamo

É jornalista e mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP

Para ler este texto, é preciso assinar a Quatro Cinco Um

Chegou a hora de
fazer a sua assinatura

Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.

Ecobag Exclusiva

Há nove anos nutrindo leitores onívoros!

Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil

Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.

Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.

Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.