Obra da artista palestina Malak Mattar

Literatura,

A vida dupla

Ser tradutora palestina é carregar vozes e histórias pelo abismo do silêncio e do esquecimento

22set2025 • Atualizado em: 24set2025 | Edição #98

I. Testemunha

Ser um tradutor palestino é tornar-se intermediário entre um mundo que se esvai e outro que frequentemente se nega a reconhecer esse desaparecimento. É carregar vozes através do abismo do silêncio, contrabandear sentido entre as barricadas da distorção linguística e política, recusar a obliteração da própria história, garantindo que as palavras dela não morram com seu povo. O tradutor não apenas transcreve palavras: ele arquiva perdas, documenta apagamentos e assegura que até o mais frágil sussurro de testemunho alcance o mundo além do cerco.

Especialmente na Gaza de hoje, a tradução não é só um exercício intelectual. É um meio de sobrevivência e uma arma contra a amnésia. Traduzir a partir de Gaza é narrar não apenas o genocídio, mas também os momentos mundanos da vida que a guerra busca apagar: o perfume do florescer da laranjeira antes do bombardeio, o chamado à oração pairando em uma cidade que talvez não exista na manhã seguinte, a voz de uma criança recitando poesia em uma sala de aula que logo pode estar destruída. Esses detalhes resistem à desumanização, recusando-se a permitir que Gaza exista somente como abstração do sofrimento.

No ensaio “A tarefa do tradutor” (1923), Walter Benjamin escreveu que a verdadeira tradução dá ao texto uma sobrevida, não apenas carregando sentido, mas assegurando a sobrevivência do original. Mas o que significa uma sobrevida quando o original foi sepultado sob os escombros? Quando o poeta foi assassinado, quando o lar foi destruído, quando quem escreveu o texto talvez já não esteja vivo para ver suas palavras cruzarem a fronteira de outra língua? Para o tradutor palestino, essa questão não é teórica. É urgente e implacável. As histórias que traduzo não vêm dos arquivos. São desenterradas dos destroços das casas, escritas nos intervalos entre bombardeios e levadas adiante na respiração daqueles que talvez não vivam para contá-las de novo.

O mundo sempre exigiu que os palestinos fossem traduzidos antes mesmo que pudessem ser ouvidos. Nunca foi suficiente que uma mãe gritasse o nome do filho após um bombardeio; sua dor precisava primeiro ser suavizada, mediada e transformada em algo digerível para um mundo que preferiria que as tragédias fossem enquadradas em relatórios humanitários e manchetes na voz passiva. Mas eu sei o que acontece quando as histórias são deixadas em sua forma original e rejeitam a acomodação que a tradução por vezes exige. Elas são ignoradas, vistas como cruas demais, urgentes demais, incômodas demais. O mundo sempre escolherá narrativas familiares, que preservem seu senso de estabilidade, em vez das que o perturbam com a força da ruptura. E assim a tradução passa a ser não apenas uma necessidade, mas uma batalha ética: encontrar uma linguagem que resista tanto ao desaparecimento quanto à domesticação, permitindo que a dor permaneça sem filtros, enquanto assegura que ela cruze os checkpoints linguísticos que decidem qual sofrimento será admitido e qual será descartado.

O mundo sempre exigiu que os palestinos fossem traduzidos antes mesmo que pudessem ser ouvidos

Vivi essa tensão em cada história que traduzi. Como parte de um projeto colaborativo de livro para a ArabLit, verti para o inglês “Seagulls Awaiting a Shore That Never Comes” [Gaivotas à espera de uma orla que nunca chega], de Muhammad Taysir, sobre um homem deslocado que assiste a uma garotinha recostada contra a mãe no banco da frente de um caminhão de transporte de gado, os cabelos enfeitados com flores minúsculas. No original em árabe, o vestido azul da menina “quase florescia” — um verbo delicado, que denota a beleza captada num instante e esmagada pela fumaça sufocante do motor a diesel do caminhão. Ao traduzir, hesitei. Em inglês, a frase poderia perder seu peso. Em árabe, tudo era claro: o vestido, a criança, o futuro. A todos eles o momento de florescer fora negado. Mas, em inglês, será que o leitor sentiria isso? Ou só daria uma passada de olhos, como as pessoas fazem com todas as tragédias que não são suas?

Como expressar o pesar em uma língua treinada para neutralizá-lo? Como carregar a verdade de um lar obliterado ao vocabulário de um mundo que há muito normalizou sua destruição? Toda língua tem limites, mas o inglês — especialmente o inglês da grande mídia, das declarações diplomáticas e das narrativas “imparciais” — foi cuidadosamente construído para despir o sofrimento palestino de seu poder de ação, reduzindo massacres a “crises” e cercos a “medidas de segurança”. Traduzir Gaza para essa língua é lutar contra as estruturas projetadas para ofuscar sua realidade. Este é o exílio do tradutor palestino: existir entre dois mundos que não lhe pertencem totalmente.

Enquanto traduzo, sei que a língua é em si um exílio. Estou presa entre o árabe — a língua da dor, da intimidade e de uma imediaticidade intraduzível — e o inglês — a língua da diplomacia, da distância e de uma violência organizadamente categorizada. No árabe, o peso da perda é claro. Uma mãe não “perde” um filho; está enlutada, devastada, arruinada. Mas em inglês a perda soa passiva, clínica — algo que simplesmente acontece. A bomba “mira”, a casa “desaba”, a criança “é morta”, como se ninguém fosse responsável. Traduzir é lutar contra essas estruturas: recusar a gramática da ocupação e devolver o poder de ação às sentenças projetadas para apagá-la.

II. Traidor

A tradução sempre foi um ato de traição. A expressão italiana “traduttore, traditore” — “tradutor, traidor” — sugere que algo sempre se perde e que o sentido é distorcido na transferência de uma língua a outra. De forma semelhante, em “A tarefa do tradutor”, Benjamin fala da tradução como um processo que necessariamente transforma o original e em que o significado nunca é simplesmente transferido, mas recriado, reconfigurado e reinterpretado. Para o tradutor palestino, porém, o risco de traição é muito maior: a tradução é um campo de batalha pelo sentido, uma negociação tensa em que cada palavra implica um dilema ético e cada frase, um confronto com o poder. A traição inerente à tradução não é mais uma questão de estética ou fidelidade, mas de sobrevivência.

Traduzir Gaza é buscar não só as palavras certas, mas também os ouvidos dispostos a recebê-las. O tradutor palestino ocupa um espaço de tensão incômodo — entre a urgência crua da verdade não mediada e os rígidos limites de um discurso global condicionado a se esquivar. Não basta ser exata; a dor deve ser moldada para tomar uma forma que consiga atravessar um mundo treinado a não olhar. Não é questão de conversão linguística. É um ato de perseverança, uma obra de rebeldia. A tarefa não é simplesmente encontrar uma linguagem, mas manter a destruição sem amenizá-la — sem permitir que a violência que estilhaça um lar se torne metáfora ou que a morte de uma criança vire estatística. A tradução, aqui, passa a ser uma forma de resistência: uma maneira de carregar a memória para um mundo ávido por esquecer, de insistir que, mesmo que o original seja intraduzível em sua dor, ainda assim deve ser ouvido.

Poucos compreenderam esse fardo tão intimamente quanto Refaat Alareer, poeta, professor e editor cuja vida e obra encarnaram a urgência de recusar o silêncio. Uma das principais vozes da literatura de Gaza, Alareer era não só um escritor de extraordinária clareza, mas também um curador de vozes frequentemente abafadas pela névoa da guerra e pelos filtros da mídia. Em sua revolucionária antologia Gaza Writes Back [Gaza replica], ele trouxe contos com o intuito não de suavizar a imagem de Gaza ou retocá-la para conquistar simpatia internacional, mas de oferecer algo muito mais arriscado: uma proximidade direta e destemida. Os escritores que ele reuniu não foram traduzidos para o conforto alheio: eles reivindicavam um espaço narrativo que havia muito lhes era negado. As histórias deles rejeitavam o vocabulário do humanitarismo, com sua voz passiva e segurança. Falavam não por meio de abstrações, mas pela cortante linguagem do imediato — das casas bombardeadas enquanto crianças dormiam, dos casais separados por checkpoints, de sonhos interrompidos pelo fogo lançado por drones.

A visão editorial de Alareer não estetizava a dor de Gaza nem buscava universalizá-la com metáforas. Pelo contrário, ele insistia no direito de falar sem rodeios, de documentar sem distorcer e de recusar a expectativa de que a dor palestina fosse retocada para ser compreendida. Sua convicção era clara: os escritores palestinos não precisam traduzir sua realidade para algo mais aceitável, precisam apenas ser ouvidos em seus próprios termos. Essas narrativas palestinas não eram matéria-prima para argumentação política ou piedade humanitária — eram uma literatura urgente e impossível de ignorar.

A obra de Alareer era indispensável não por tornar Gaza mais legível ao mundo, mas por impossibilitar sua evasão. As narrativas não pediam para ser compreendidas em termos alheios — exigiam ser encontradas nos seus próprios. Talvez por isso ele tenha se tornado alvo. Seu assassinato não representou somente a morte de um escritor e professor querido. Foi um ataque direcionado à própria língua, uma tentativa de extinguir a voz de um povo que se recusa a ser silenciado. Mas a obra de Alareer resiste. Cada linha traduzida, cada página levada além do cerco é um ato de recusa — não apenas ao esquecimento, mas às condições sob as quais a Palestina há muito é compelida a falar.

Nós, palestinos, traduzimos porque precisamos, porque o silêncio é o estágio final do apagamento

A dimensão da tradução vai além de Gaza e da Palestina, estendendo-se às lutas mais amplas dos colonizados e dos exilados, nas quais a linguagem sempre foi um terreno de conflito. Em Reflexões sobre o exílio, Edward Said escreveu que o exílio não é simplesmente uma condição de deslocamento, mas uma “consciência contrapontística”: um estado no qual se deve transitar entre múltiplos mundos, mantendo em tensão as saudades da pátria perdida e a necessidade de articular essa perda em uma língua que não é a sua. O tradutor palestino ocupa esse mesmo espaço de ruptura, com os pés à beira do precipício.

Entretanto, a tradução não é só um registro de perda, mas um ato de reivindicação, uma recusa a permitir que a linguagem seja ditada pelo ocupante. O trabalho da tradução — sobretudo do árabe para o inglês — é intrinsecamente político, ao romper com as hierarquias linguísticas que determinam quais vozes são ouvidas e quais são silenciadas. A poesia de Mahmud Darwich, quando traduzida, não só leva o sofrimento palestino ao reino da literatura mundial; também desafia as estruturas que tentam empurrar para as margens a identidade palestina. “Para onde devemos ir depois da última fronteira?”, ele pergunta em “A Terra nos é estreita” — questão que assombra todos os povos deslocados e todo exilado cuja existência é definida por fronteiras que eles não escolheram. Ao transportar essas palavras de uma língua a outra, o tradutor garante que a pergunta siga sem resposta e reverbere, exigindo reação de um mundo que prefere ignorá-la.

Poderia a língua do opressor conter plenamente a verdade do oprimido?

Mas há uma espécie de embate implícito nessa tentativa. O próprio ato de traduzir narrativas palestinas para o inglês — a língua dos antigos colonizadores e dos meios de comunicação que enquadram a ocupação israelense como “conflito”, e língua que é, há muito, ferramenta do império — levanta questões incômodas. Poderia algum dia a língua do opressor conter plenamente a verdade do oprimido? É verdade que o inglês aplaina a profundidade da dor palestina, tolhe sua urgência ou a torna demasiado abstrata? Em Decolonising the Mind [Descolonizando a mente], o professor Ngũgĩ wa Thiong’o argumenta que a língua não é neutra e que, por isso, escrever no idioma do colonizador é lutar dentro de uma estrutura concebida para distorcer e suprimir. O tradutor palestino deve, portanto, travar uma batalha constante: subverter, remodelar e contrabandear o sentido pelas fissuras de uma língua imperial que não foi feita para carregá-lo.

III. Ouvinte

A pergunta mais dolorosa que me faço não é se devo traduzir, mas se alguém me ouve. Penso em Porta do sol (1998), de Elias Khoury, em que o narrador fala a um homem em coma, contando-­-lhe a história da Palestina como se as palavras pudessem ressuscitá-lo. Às vezes a tradução se parece com isto: falar no vazio, narrar a perda a um mundo que permanece impassível. Sendo uma tradutora palestina, estou sempre atenta a como minhas palavras serão recebidas, equilibrando entre dizer a verdade e garantir que a verdade seja ouvida.

Nós, palestinos, traduzimos porque precisamos, porque o silêncio é o estágio final do apagamento. Mas a tradução não é um ato neutro — é carregada da violência do poder. O tradutor palestino não só enfrenta desafios linguísticos, também luta contra as estruturas que determinam se suas palavras serão ouvidas, distorcidas ou ignoradas. Já vi manchetes em inglês reduzirem o bombardeio de um campo de refugiados a “um ataque aéreo que matou civis” — frase que apaga o poder de ação e a responsabilidade. E sei que, quando me sento para traduzir um depoimento ou um conto do árabe para o inglês, não estou traduzindo para um espaço vazio, mas para um discurso já moldado pelo eufemismo e pela evasão. O dilema ético é real: para ser fiel ao original em árabe, tenho que confrontar a todo tempo as normas de um inglês “neutro”, que prefere a passividade à clareza e a vitimização à resistência. Se eu traduzir a voz como ela é — raivosa, acusatória, precisa —, corro o risco de ter a tradução descartada, tachada de excessivamente política ou tendenciosa. Porém, se eu suavizar essa voz, me arrisco a reproduzir as estruturas que nos silenciam. Caminho em uma corda bamba entre o apagamento e a acusação, tentando preservar a verdade em uma língua que nem sempre está preparada para recebê-la.

Assim, existo no que W. E. B. Du Bois descreveu como um estado de “dupla consciência” — com a percepção de como uma pessoa é vista aos olhos do mundo, junto com a de um “eu interno” que o mundo se nega a reconhecer. O tradutor palestino habita dois mundos, mas não é plenamente aceito em nenhum: está demasiado imerso na imediaticidade da guerra para adotar a neutralidade desinteressada que se espera dele e, ao mesmo tempo, distanciado demais pelas demandas da tradução para viver plenamente a crueza daquele sofrimento. Ao traduzir Gaza, é preciso traduzir a própria dor enquanto se realiza a impossível tarefa de torná-la legível àqueles que jamais a compreenderão por completo.

A questão persiste: quem está ouvindo? Será que as palavras carregadas através das fronteiras linguísticas e culturais pousam em algum lugar além das quatro paredes daqueles que já sabem e lamentam? Ou são consumidas como espetáculo, como tragédia — só mais um registro no arquivo do sofrimento palestino que o mundo observa com pena, mas sem agir? O tradutor palestino se agarra à crença de que, enquanto as palavras permanecerem, os nomes forem ditos e os poemas, recitados, Gaza não terá sido apagada. Ainda assim, o medo persiste: o mundo está disposto a ouvir ou estamos apenas falando dentro de uma câmara de eco da dor?

Durante a guerra em Gaza, traduzi vozes que teriam se perdido — palavras que, se permanecessem apenas em árabe, talvez nunca tivessem alcançado nada além dos escombros de onde emergiram. Na coletânea em que o vestido de uma menina quase florescia antes de ser imobilizado pela fumaça, outra criança sonhava em ser lavada junto com as roupas da família. O conto “I Have No Wish to Dream Anymore” [Já não tenho vontade de sonhar], de Fatima Hassouna, se desenrola de outra forma — oscila entre o surrealismo e a realidade, a familiaridade doméstica e o temor existencial. A protagonista, presa entre o sonho e a vigília, cogita se também poderia ser jogada na máquina de lavar que sua mãe enche de roupas. Ela anseia por ser limpa da guerra, torcida como uma camisa encharcada. A inocência pueril em acreditar que a máquina de lavar poderia purificá-­la das manchas da guerra se choca com a arrasadora verdade de que nenhuma máquina ou mão materna pode desfazer o que foi feito. Ao trabalhar nesse texto, me debati com as últimas linhas: “O mundo, antes tão pequeno em minhas mãos, escorregou por entre meus dedos. E em algum sonho — não sei qual — perdi a vida que um dia conheci”. O problema não estava só em encontrar as palavras certas, mas em transmitir o peso daquilo que a frase se recusava a dizer. Perguntei a mim mesma: o inglês conseguiria carregar a pura fisicalidade do árabe, o modo como ele exige materialização? O peso da metáfora continuaria intacto ou viria a se dissolver em algo demasiado abstrato e distante?

Essas histórias, além de documentarem a guerra, levantam questões que não têm respostas e doem na alma de cada palestino deslocado. O protagonista errante de Taysir, por exemplo, pergunta: “Será que Gaza já foi tão bonita? Ou os deslocados sempre romantizam o que perderam?”. Assim, ele captura o cruel paradoxo do exílio: perder um espaço é vê-lo com uma clareza que jamais seria possível enquanto ainda se vivia nele. Da mesma forma, a sonhadora de Hassouna — que acorda e se depara em outro deslocamento — personifica o interminável ciclo de fuga e retorno, o anseio por uma casa sempre além do alcance. Ao traduzir essas histórias, eu não me limitava a trocar o texto árabe por um em inglês, mas lutava contra as barreiras estruturais que ditam o que é considerado um sofrimento palestino “aceitável”. Uma tradução que seja visceral demais, humanizadora demais, direta demais corre o risco de ser descartada como retórica política, enquanto uma tradução amenizada demais poderia contribuir para o próprio apagamento que busca evitar. Este é o paradoxo impossível do tradutor palestino: traduzir fielmente é arriscar-se à invisibilidade; traduzir estrategicamente é arriscar-se à distorção.

Então volto ao início. Não para onde este ensaio começou, mas onde todo ato de tradução palestina se inicia: para a insuportável consciência de que o mundo talvez nunca escute verdadeiramente e a insuportável recusa de deixar que esse silêncio tenha a última palavra. Traduzir a partir de Gaza é atravessar uma ponte construída com uma sintaxe dilacerada e vidas dilaceradas, carregando histórias pesadas demais para serem suportadas e sagradas demais para serem abandonadas. É falar a um vento que raramente responde, sussurrar nomes que ecoam apenas àquele que ousou dizê-los. Ainda assim, digo. Traduzo não por acreditar que o mundo mudará, mas porque não traduzir seria uma rendição: seria declarar que nunca existiu a menina cujo vestido quase floresceu, que a mãe que aninhava o filho num caminhão de gado nunca foi real, que Fatima Hassouna nunca expressou o desejo desesperado de ser purificada da guerra. Não posso deixar que isso aconteça. Não posso deixar que as palavras deles se dissolvam nos escombros.

Traduzir a partir de Gaza é atravessar uma ponte construída com sintaxe e vidas dilaceradas

Como escreveu Dostoiévski em Os irmãos Karamázov: “Em milhares de agonias — eu existo”. Também eu existo nessas agonias — não apenas como testemunha, mas como receptáculo. Uma voz. E, se as histórias que carrego não forem bem-vindas — se forem recebidas com indiferença ou rejeição —, ainda assim as carregarei, porque o simples ato de contá-las é uma resistência. Porque nomear os
mortos é resistir ao seu desaparecimento. Porque escrever uma frase sobre Gaza em inglês é desafiar a arquitetura da indiferença global. E porque, como diz uma das heroínas oprimidas de Shakespeare em A megera domada, sei que “minha língua contará a ira do meu coração. Ou então meu coração, escondendo-a, vai se partir”.

Não sei se o mundo algum dia ouvirá realmente. Não sei se estas palavras pousarão em algum lugar além das câmaras de eco daqueles que já se afligem. Mas de uma coisa eu sei: se as histórias de Gaza esperam ser carregadas através do abismo, eu as carregarei. Se as gaivotas ainda esperam por uma orla, continuarei escrevendo para lhes dar vida.

Tradução de Marina Darmaros

Nota da redação

Este texto foi publicado originalmente em inglês na revista digital Adi.

Quem escreveu esse texto

Alaa Alqaisi

É tradutora e escritora palestina. Publica textos na revista ArabLit.

Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “A vida dupla”

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