Onde Queremos Viver,
Uma visão verde
No acordeão do trânsito, atinge-me uma imagem bela: três moças negras verdemente vestidas
09set2025 • Atualizado em: 10set2025 | Edição #98Na estrada do cemitério, entre estações de serviço e lavagens automáticas e armazéns de saldos convertidos em mega-bufetes chineses e em garagens de pneus; à berma do contínuo parque de estacionamento onde havia um grande pinhal a que deitaram fogo há uns anos; de relance, ao volante, no acordeão do trânsito; no meio do triste e do horrível, do nada — atinge-me uma visão bela. Três moças negras verdemente vestidas. Lindas.
Cada uma vestia saia e casaco um pouco antiquados para a idade e diferentes entre si, salvo na cor. Separadas, passariam por jovens secretárias à espera do próximo autocarro vestidas com a roupa das mães. Juntas, a indumentária sugeria um trio, um trabalho de equipa. As roupas rimavam com o verde-escuro de um mostruário móvel que, numa gaveta destacada, guardava panfletos pentecostais iguais aos que seguravam nas mãos, os quais era sua óbvia missão difundir. Estavam, portanto, vestidas para ir a uma igreja verde ao domingo, embora fosse quarta-feira antes do meio-dia. Também a verde, a letra grande, numa placa colada ao mostruário, uma pergunta triste que me fez sorrir. “Sucesso na vida?”
Foi quando uma das amigas (com olhar mais expressivo que as outras) reparou que eu as observava. Sorriu, desviou os olhos e daí a instantes mudou de expressão, como se acabasse de perceber uma coisa séria. O trânsito parara e ficámos assim por uns momentos. Ver-se observada fê-la sentir-se perdida; introspectiva, quase envergonhada de ali estar, descobria ou admitia agora a si mesma, quem sabe pela primeira vez, este facto: o de não pertencer ali.
Numa placa, a letra grande, uma pergunta triste que me fez sorrir: ‘Sucesso na vida?’
Fiz tenção de as fotografar; o trânsito arrancou e eu estava atrasado; fiquei a olhá-las pelo retrovisor. A terceira moça virara o rosto para lá e, enquanto as perdia de vista, fiquei com a imagem da sua introspecção gravada numa película mental. Fotografá-las-ia no caminho de regresso.
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A estrada a que me refiro segue, como disse, para o cemitério da cidade, exactamente defronte e a curta distância de cujo crematório se construiu (não é ficção) um ciclópico armazém de artigos desportivos. Como o cemitério, encontro-o quase sempre vazio. Separados por uma rotunda, a sua monumentalidade diante da casa dos mortos nunca deixa de me divertir. De um lado, a necrópole; do outro, a Decathlon.
Na esperança de voltar a encontrar as Apóstolas, não me demorei. Passei pelo mesmo sítio. Mas já lá não estavam. Sobrava a paisagem escatológica, sem promessa de êxito ou redenção. Nalgum ônibus, seguiriam risonhas as três, em direcção a nenhures: um pensamento verde projectando uma verde sombra sobre o mudo apocalipse, sobre as bombas de gasolina, os armazéns. Uma delas, menos risonha que as outras, agora temendo pertencer. E, olhando na direcção dos ciprestes, deu consigo mesma a perguntar-se “sucesso na vida?” e a cogitar se existe vida antes da morte; e se se chega lá de ônibus, Senhor Deus.
E então a moça teve um pânico que a apertou de aflição: o pânico de ser apóstata sem o saber. E já não se lembrava de mim, mas a culpa, a culpa era toda minha.
Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025.
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