
Onde Queremos Viver,
Piquenique
Os vídeos mostram que a minha infância foi uma única tarde em que tive sempre a mesma idade
01abr2025 | Edição #92Foi, por exemplo, no verão, num piquenique, num baldio em Carcavelos. Escondíamo-nos por trás da vegetação rasteira e surpreendíamos a câmara com um pulo, à pergunta “Quem és tu?”. “Eu sou um carcará sanguinolento.” Os vídeos mostram que a minha infância foi uma única tarde em que tive sempre a mesma idade.
Sou por vezes surpreendida pela memória que outras pessoas têm da minha infância, o que me traz a noção esquisita de eu ser anterior à minha memória. É forçoso reconhecer que ando nos bolsos dos outros. Aqueles que se lembram de mim também andam nos meus bolsos. Não posso dizer com propriedade que componho a minha família, pois não sei inteiramente por que bolsos ando. Que absurdo imaginar que o interior está circunscrito ao que podemos perceber. A arbitrariedade que nos liga às pessoas que se lembram de nós prolonga-se na arbitrariedade da nossa ocupação pelo mundo, a que é indiferente à nossa vontade. Uma pessoa pode desejar ver as suas cinzas espalhadas por certos sítios, mas há um sentido em que as nossas cinzas estão espalhadas por certos sítios independentemente do que desejamos.
Cada pessoa tem de mim a ideia por que me trata, uma certa composição de tardes e expressões que leva aonde vai e dissemina. Também sou para eles uma única tarde e sempre a mesma idade. Viajo quando viajam. Visito quando visitam. O que é interior a mim tem a mobilidade da sua existência. Dizem-me que um dia destes se lembraram do que fazíamos quando éramos pequenos. Relembram-nos em conversa. Os sítios por onde andamos estão na mesma opacidade que o rumo dos outros. Somos o que nos lembramos que eram.
A imortalidade é um estado provisório e capturável, mostrado por recordações caseiras
A imortalidade é um estado provisório e capturável, mostrado por vídeos e recordações caseiras. Ela manifesta-se na absorção filmada, na entrega à brincadeira, e depois na desorientação com que meio tontos nos rendíamos às merendas. O medo e a percepção da morte são modos de estarmos distraídos. Os vídeos mostram o que é externo ao exterior, mas nós vivemo–los como à nossa memória organizada. Talvez seja daquela voz, que perdi, que se lembram. Com o embaraço de ouvir uma gravação, ouço nos vídeos de Carcavelos a minha voz esganiçada que os meus tios ainda ouvem. Talvez não nos reconheçamos nos mitos dos bolsos dos outros, em relação aos quais somos hoje adultos, da mesma forma que os nossos tios não tiveram cabelo para sempre. O que reconheço como interior a mim é no entanto uma suspensão das suas juventudes. Podemos ser os curadores da memória uns dos outros, mas ninguém premeditou o que me veio parar aos bolsos, ou àquela tarde. Houve um propósito nos vídeos, mas o exterior do exterior é arbitrário.
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A verdade é no entanto a de que as pessoas que trazem pela mão aqueles que nos guiam e nos transportam não poderiam ser outras. O meu sentimento de segurança era um cumprimento dirigido à vida de onde eles vinham, de que eu era um capítulo, como se tomarem conta de mim fosse uma coisa daquela era, a era dos nossos passeios, mas não de todas as eras. O tempo dos piqueniques foi o nosso tempo conjunto limitado e não a eternidade.
Matéria publicada na edição impressa #92 em abril de 2025. Com o título “Piquenique”
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