Onde Queremos Viver,
O besta-célere
Êxitos de vendas não me incomodam nem me impressionam, são fatos da vida
24mar2026 • Atualizado em: 23mar2026 | Edição #104Enquanto eu escamava um peixe, passava numa rádio local a lamúria de um autor magoado com a crítica. Vítima da elite, autor de “livros” mais transparentes que as suas queixas, perorava sobre o esvaziamento da função da crítica. “Hoje em dia”, dizia, “importam muito mais as redes do que os jornais e a universidade”, etc. Parei o que estava a fazer. A universidade está em vias de extinção, a crítica não existe. Talvez soubesse alguma coisa que não sei, agora que virei as costas à internet. Pousei a faca, lavei as mãos, fiquei a ouvir.
Vou dizer a verdade: eu queria era saborear a cretinice do best-seller. Não chegava porém a cretino. Intelectualmente, valia as tripas do peixe, com a magra vantagem de ser, esteticamente, exangue e inodoro. Um sujeito sem aura, ressentido, cujo discurso de vitória assentava na confusão comum entre literatura e Netflix.
O êxito de vendas de maus escritores e de não-escritores — que às vezes são impostores; outras, impostores sem o saberem; outras ainda, figuras cujo sucesso se deve largamente a marginalizarem-se em relação à elite literária —, esse êxito suscita reacções opostas.
Era um sujeito ressentido, cujo discurso assentava na confusão comum entre literatura e Netflix
A elite progressista, que se imagina a referência do gosto e do pensamento, irrita-se com o que lhe parece fraudulento e prejudicial porque tende a imaginar que existe uma correlação entre a leitura de bons livros e o aperfeiçoamento da sociedade. Mas essa correlação, que decerto se verifica nalgum grau, é enviesada e cheia de incongruências. Demonstram-no as democracias mais cultas e ricas, em que, ironicamente, o anti-intelectualismo prevalente é uma reacção do senso comum explorada pelos demagogos.
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A elite conservadora, que também se imagina a referência do gosto e do pensamento, faz de conta que não vê esta correlação, menos quando se queixa dela, quando esta arrasta consigo a generalização de vocabulários e sensibilidades que entram em conflito com os seus. Mas como, por regra, as guerras culturais não têm origem na “literatura comercial”, em vez de se irritar, a elite conservadora sorri dos fenómenos de vendas e não lhes liga importância.
Não sei como é no Brasil. A elite entre aspas “liberal” que, em Portugal, salvo raríssimas excepções, não tem uma consciência literária forte — o que talvez ajude a explicar que não tenha, também, uma consciência social particularmente sensível —, não se irrita cá com best-sellers. Visto que se acha também uma tribo do gosto, para a qual a nostalgia e a viralidade são virtudes aliás cardinais, advoga a literatura comercial (seja isso o que for) enquanto porta de entrada para a literatura-a-sério (que em geral só conhece de ouvir dizer, porque, afinal, quem é que tem tempo para ler literatura “hoje em dia”?).
Pela minha parte, prefiro um bom peixe a um mau livro. Êxitos de vendas não me incomodam nem me impressionam. São factos da vida, como a perda, a derrota, a ausência de justiça, a incontinência, a vacuidade, a televisão, o kitsch, a demagogia, os impostores e suas rádios locais, que têm uma função. A exasperação com a mediocridade é uma ocupação tão interessante quanto os concursos de chapadas ou publicar oitocentas páginas a cada seis meses do ano. Mas a exasperação com a inteligência — ora, aí é que está uma profissão que vale a pena.
Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026.
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