Onde Queremos Viver,
Notas sobre hóspedes
Cruzar as portas do território do anfitrião é, para o estrangeiro, começar a morrer
09set2025 • Atualizado em: 10set2025 | Edição #981. Acolher os outros como se acolhe um fantasma. Correndo o risco de o obliterarmos e o risco de sermos obliterados por ele. Acolher é parecido com ser assombrado. Pondero sobre a relação entre os fantasmas e os segredos. Os segredos acordam os fantasmas. Às vezes, eles acordam para que os ajudemos, às vezes, porque querem ajudar-nos. Poderá o assombrado obliterar o fantasma que o assombra, como a cidade oblitera o cidadão que acolhe?
Mas poderá o assombrado vencer o fantasma, como o lugar vence a pessoa? Ou diante dos fantasmas saímos sempre derrotados? Pode ser que o fantasma queira apenas tomar parte do calor da nossa casa, ser por nós alimentado, gozar do dom de ter um lar — e por isso entre fantasmas e as pessoas que eles assombram não possa haver guerra.
Acolher os outros como se acolhe um fantasma, correndo o risco de ser obliterado por eles
Cada pessoa, uma casa. Cada pessoa, uma casa assombrada. O que seria derrotar um fantasma? Seria mais parecido com perder um amor ou com perder um filho? Acolher os outros como se acolhe um fantasma, correndo o risco de ser obliterado por eles. Acolher correndo dois riscos, o de obliterar e o de ser obliterado.
O anfitrião que seduz o hóspede para a sua casa e o oblitera. Eis a história mais antiga do mundo. Civilizações inteiras ergueram-se sobre essa premissa. Nós, as nossas cidades: redes de arrasto para milhões de incautos. Cruzar as portas do território do anfitrião é, para o estrangeiro, começar a morrer. Será que não é possível que o hóspede e o anfitrião se obliterem mutuamente, em simultâneo através do tempo, num processo vagaroso e violento? E, se o fantasma for, por definição, o hóspede, a hospitalidade será o dom de receber o fantasma e caberá ao anfitrião submeter-se a ele.
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2. “Muitas vezes, mas pouco de cada vez, como o pobre pai Swann”, escreve o narrador proustiano lembrando como um viúvo se referia à memória da mulher morta. “Tem graça, penso muitas vezes na minha pobre mulher, mas não posso pensar nela muito de cada vez.” Li e pensei que sei do que se trata — exactamente assim, muitas vezes, mas pouco de cada vez, lembrar os mortos e outras coisas: duvidar dos próximos passos, perder-me em pensamentos. Vale mais muita vez, mas pouco, e, depois, com o tempo, muitas vezes, quase nada, em relação aos fantasmas.
3. Fico a ver a folha seca a subir aos céus, soprada pela brisa de agosto, que a desgarra do ramo do plátano, e esqueço-me do medo. A folha dança diante da janela do sexto andar, paira remexendo-se, desce, sobe, voa. Às vezes, parece cair, descer dois andares, mas novo sopro e ascende, impetuosa, deixo de a ver, fico à espera de que desça. Parece a cria de um pássaro a aprender a voar. Um pouco como a sorte ou o azar, que não sabemos se nos atinge, acompanho a dança, distraio-me. Instantes destes, ver uma folha, os incêndios invadiram Trás-os-Montes. Junto ao mar, a mulher medrosa espanta-se com a dança da folha da árvore, seca, morta, bailarina.
“Tenho uma dor do tamanho do Atlântico”, disse-lhe ela. E ele abraçou-a.
Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025.
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