The Fazer Bar (1931), pintura de Henry Ericsson, Finnish National Gallery (Reprodução)

Onde Queremos Viver,

Na Brasileira

Estava na pureza dos anos em que, distante dos sofrimentos futuros, uma pessoa se sente imortal

01mar2026 • Atualizado em: 27fev2026 | Edição #103

Passadas poucas semanas, um dos seus passeios era meter-se no metro no Campo Pequeno, sair na Baixa-Chiado à procura da mesa ideal. Foi numa dessas manhãs que bebeu um café na Brasileira pela primeira vez, onde acendeu um cigarro e escrevinhou num caderno, o que a fez sentir-se uma mulher em vista dos quadros nas paredes e da sua imagem reflectida nos espelhos gastos que rodeavam as mesas.

Tinha o cabelo em tranças miúdas arranjado num apanhado, como costumava usar. Trouxera de casa uns brincos da mãe, mas não saíra de casa com eles postos, trouxera-os no bolso e pusera­-os no comboio até Lisboa. Eram dois pendentes brilhantes, talvez festivos demais para usar de dia e para ir para a faculdade. Lábios pintados de vermelho. Unhas prateadas e compridas. Tinha ainda cara de menina, mas não sabia. A pele firme e luzidia, sem uma ruga. Os lábios rosa carnudos. O cabelo farto e armado. A expressão era ainda amiudada, embora, olhando a sua imagem, visse uma mulher.

Na Brasileira do Chiado, era uma jovem negra lançando fumo à sua volta, só para ver ao espelho o seu reflexo. Tinha alguns trocos nos bolsos, que davam para o carioca de limão e o tabaco. Em volta, homens velhos bebiam café, conversavam e liam jornais. Salvo os casais de namorados, os cafés da cidade pareciam lugares masculinos. Era quase um ritual para Catarina sentar-se onde não se sentia completamente bem-vinda ou atrever-se num lugar que não era seu. Era destemida, ainda que parecesse não ser precisa grande coragem para se sentar num café e acender um cigarro.

Era quase um ritual para Catarina sentar-se num lugar onde não se sentia bem-vinda

Bastava, contudo, entrar na sua sala de aula e, olhando em redor, ver que era a única negra em setenta e cinco alunos. Olhara em volta para ter a certeza, além dos pouquíssimos colegas negros que havia na faculdade e se juntavam habitualmente na esplanada, reunidos num núcleo de que Catarina não sabia se queria fazer parte, para encarar que o destino de estudar na universidade no seu país acarretava para Catarina uma brecha de luz na escuridão.

Olhando a mochila carregada que trazia consigo e transportava pela cidade, sentia-se acolhida pelos livros. Nada lhe impedia o caminho, embora não chegasse sequer a formular este pensamento. Estava dentro da pureza dos anos em que, esquecida dos sofrimentos da infância, distante ainda dos sofrimentos futuros, uma pessoa se sente imortal. Desceu até à estação, fez a viagem até à Damaia, no comboio desde o Rossio, carregada de livros requisitados em várias bibliotecas da cidade.

Sentada na carruagem, pôs a mochila ao colo e conferiu a colheita do dia e as próximas leituras, indiferente às pessoas que a rodeavam e à paisagem agreste do outro lado do vidro. Que era a feiura daquilo tudo perto dos versos de Cesariny que aprendera aquela manhã na aula de estudos literários?:

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco 
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura.

Naquele primeiro outubro do século, Catarina foi feliz.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora portuguesa, publicou Esse cabelo, A visão das plantas e O que é ser uma escritora negra hoje (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “Na Brasileira”

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