Coluna

Humberto Brito

Onde queremos viver

Lixo da saudade

Quando tem memórias, o meu país só tem memórias antigas e heróicas. De resto, passa os dias a repetir as mesmas frases e a esquecer-se de que acabou de as dizer

22jun2023 - 06h51 | Edição #72

Cruzo-me diariamente com o mesmo sujeito à saída do prédio. Ei-lo de pé, a olhar, imóvel, na direcção de um túnel contíguo, através do qual o caminho se encurta entre duas avenidas grandes, por um bairro pobre. É na direcção desse bairro que olha, de rosto ligeiramente inclinado, com um cigarro na mão e a obediência de um soldado de infantaria. Compacto, moreno, grisalho, de estatura média, tem braços peludos, pés pequenos, cabelo rente. Se tivesse chifres, seria um sátiro na andropausa. Fica a ver-nos cruzar o passeio com uma apatia vagamente irritada. Talvez esconda no peito uma velha tatuagem africana. Nunca o vi longe daquele metro quadrado de calçada anónima, ou usar propriamente o discurso. Esperará por uma filha, por um sinal, por uma ordem? Cismará em vergonhosos capítulos? Por que não entra no túnel? Olha com intenção, apenas, não se sabe para quê. Cumprimentei-o sem resposta duas ou três vezes quando nos mudámos para este apartamento e, para ser sincero, não me apetece voltar a fazê-lo, ou desvendar o enigma. É um desempenho beckettiano diário que a cidade pequena me dá de graça e a que me acostumei. Lembra-me um cão à espera de um dono sem saber que o dono morreu. Lembra-me, no fundo, o meu país.

As memórias antigas são mistificações, as recentes, o lixo da saudade. Cresci num país com demência

O complicado Cioran, referindo-se porém à Hungria, definiu aquilo a que os portugueses chamam afectuosamente saudade: “mesmo nos seus dias de glória, sempre estiveram sozinhos no coração da Europa, isolados no seu orgulho e remorsos, faltando-lhes quaisquer afinidades profundas com as outras nações. Após várias incursões para Oeste, onde puderam exibir e expender a sua selvajaria, retrocederam, conquistadores degenerando em sedentários, às margens do Danúbio, para aí cantar, aí lamentar, aí erodir seus instintos. Existe, entre estes Hunos refinados, uma melancolia que consiste em crueldade recalcada, de que não há equivalente algum noutro lado: é como o sangue a começar a sonhar sobre si mesmo”. Uma simples mudança de nomes e coordenadas basta para que se reconheça o equivalente português, por muito que este seja inadmissível para a generalidade dos meus compatriotas.

O meu país é este marido e esta tia. Dona Repressão e Tio Esquecimento, ou vice-versa

Quando tem memórias, o meu país só tem memórias antigas e heróicas, memórias felizes, memórias de Moçambique, ou assim. De resto, passa os dias a repetir as mesmas frases e a esquecer-se de que acabou de as dizer, a viver repetidamente os mesmos actos e logo esquecer-se de que os viveu. Levanto os olhos. Na televisão sem som, prossegue o golpe de estado contínuo. Incêndios, casos de polícia, penáltis mal assinalados, greves, graves, tweets, realities, denúncias, contratações sonantes, comissões para lamentares. A farsa muda repete-se, triste e alegre, a cada hora, a cada dia, a cada ano. No rodapé das notícias, corre agora uma legenda cómica. “Portugal está a produzir cada vez mais lixo.” Sim. As memórias antigas são mistificações, as recentes, o lixo da saudade. Concluo que cresci num país com demência. A minha jovem tia, uma bela mulher de 54 anos, sofre de Alzheimer precoce. Recentemente, deixou de reconhecer o seu próprio reflexo. Vive confusa com a presença de todas aquelas estranhas que a perseguem pela casa. Por carinho, o seu pobre marido cobriu todos os espelhos e todas as janelas. O meu país é este marido e esta tia. Dona Repressão e Tio Esquecimento, ou vice-versa. Os países, como as pessoas, adoecem.

Quem escreveu esse texto

Humberto Brito

É escritor, ensaísta e fotógrafo

Matéria publicada na edição impressa #72 em julho de 2023.