Coluna

Humberto Brito

Onde queremos viver

Desportos ocidentais

As questões do que tem ou não valor só excitam aqueles que nunca farão parte do cânone

25jan2024 - 00h00 • 20mar2024 - 17h44 | Edição #78

A questão do cânone parece ser muito importante para uma série de pessoas que nunca farão parte do cânone, ou que trabalham à porta. Por um lado, temos os Harold Blooms, que vêem multiculturalismo, feminismo e marxismo como os selos do apocalipse. Queixam-se das canonizações instantâneas, dos falsos pretextos e dos falsos ícones, denunciam falsos sacerdotes e profetas. Temem uma substituição de critérios e de propósitos, localizada nas reitorias e nas salas de aula e, em última análise, na imprensa literária, na sequência da qual se segue a sua deterioração. Segue-se, na realidade, a irrelevância dos seus programas de vida, da sua devoção à Originalidade e à Individualidade, cujos santos são, para o bem e para o mal, quase todos brancos e homens. Temiam e temem uma usurpação.

Por outro lado, temos todos os empenhados em forçar a entrada no cânone, não tanto por via “estética” mas por via política. As suas motivações são inequivocamente boas e admiráveis, altruístas, visto não quererem para si um lugar no cânone, apenas um modesto lugar de porteiros. (Profissão estável e útil, não requer qualificações estéticas assinaláveis. Basta ser-se melhor a pessoa do mundo, ou a pior.) Um coração correcto e limpo de ambiguidades é como se sabe o requisito sine qua non da descodificação literária. A arte da leitura dá assim lugar a um mundo de consultores aprovados. Encarregam-se de determinar: quem entra para e quem salta fora — logo, o que deve ser lido e o que devemos esquecer — logo, em que consiste e em que não consiste uma educação (literária?) digna desse nome — logo, quem contribui para e quem prejudica o aperfeiçoamento social — e assim sucessivamente em direcção a um mundo sem arestas afiadas (ou, correspondentemente, a um mundo da má fé e do arame farpado).

A literatura é um cortejo de paranóicos, ansiosos por provar uns aos outros sua grandiosidade

Por um lado, temos portanto os Harold Blooms, horrorizados pela barbárie do presente; por outro, temos as melhores pessoas do mundo, horrorizadas pela barbárie do passado; e temos, para mal dos nossos pecados, a inefável carreira de pior pessoa do mundo, a de Odiado profissional, que prospera na barbárie. Tudo isto é cansativo e deprimente.

Numa defesa do cânone de trinta anos atrás, Bloom observa, com razão, que não se pode forçar a entrada no cânone senão por dentro, por via estética, jamais por decreto. Por que e para quê, se assim é, tanto alarido contra o Papão da Demografia? Temendo por certo que a arte da leitura morresse consigo, Bloom nutria a respeito dela um antagonismo paradoxal. A convicção segundo a qual os seus autoproclamados heróis são, em grande medida, leitores medíocres, ou cobardes. Pode ser que isto não seja inteiramente falso, mas é inteiramente tolo, como aliás a ideia de defender um cânone, porque essa, seja qual for o seu aspecto, não parece ser o género de entidade vulnerável à cobardia e à mediocridade. A cobardia e a mediocridade são, a longo prazo, a única coisa vulnerável. Exactamente por isso, as questões do que tem ou não valor só excitam aqueles que, mesmo prosperando, nunca farão parte do cânone, nem por força da leitura. Ou então a literatura é um cortejo de paranóicos inseguros, ansiosos por provar uns aos outros a sua grandiosidade e musculatura, diante de um espelho mágico. E, bom, nesse caso, sim, talvez “literatura” seja um desporto puramente ocidental. Como o culturismo ou o air guitar.

Quem escreveu esse texto

Humberto Brito

É escritor, ensaísta e fotógrafo

Matéria publicada na edição impressa #78 em dezembro de 2023.