Onde Queremos Viver,
2027
A vida hoje parece, cada vez mais, uma simulação de computador: sonho defectivo, delírio de gpt
01mar2026 • Atualizado em: 27fev2026 | Edição #103A vida hoje parece que chegámos atrasados à festa. A vida hoje parece uma frase agramatical. Pesadelo sem legendas numa língua franca que não dominas. O que soaria a Cícero uma tradução de Kafka para latim medieval. Corrector ortográfico a mudar cada linha para o seu contrário. Pivôs cada vez mais jovens vestidos como crianças vestidas de adultos referem-se a caprichos e violências do bebé mais velho do universo. A gente só queria escrever livros, ler, tornar-se um com a linguagem. E afinal perdemos contacto com a linguagem. A vida hoje, a gente vai ver o que passa e descobre-se extemporâneo. Estrangeiros da sua época. Ou é isto só nostalgia e meia-idade?
Entretanto: “físicos provam que o universo não é uma simulação de computador”. Nada como um Deus deceptor para expiar o apocalipse. Experimento mental promovido a hipótese pelas melhores cabeças e piores cabeças, filosofia da mente ou filosofia demente, ciência ou pseudociência, nada sei de física e pouco sei da “verdade” para contradizer a necessidade da prova, embora me faça rir. É que a vida hoje parece mesmo, cada vez mais, uma simulação de computador. Seria, ao cabo, uma explicação. Sonho defectivo, delírio do gpt.
Mudança de paradigma ou vigarice, o advento da superinteligência é uma aporia
Talvez não passe disso a vida hoje. Simulação gerada por um modelo de linguagem que se alimenta da sua própria imitação de discurso setecentas vezes regurgitada. O colapso da vida hoje não passaria daquilo a que os especialistas chamam colapso do modelo:
[…] um processo degenerativo que afeta gerações de modelos generativos aprendidos, nos quais os dados que eles geram acabam poluindo o conjunto de treinamento da próxima geração. Sendo treinados em dados poluídos, eles […] percebem mal a realidade.
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Irónico desfecho, a singularidade vir a realizar-se sob a forma do seu colapso. Mas não é fictícia a agramaticalidade do presente: ela é política e performativa. Andamos a ser preparados para o impensável. Os rios secam, as florestas ardem, as populações formigam. Democracias ruem. E toda uma indústria assenta, enquanto isso, num espantoso consenso entre tecno-optimistas e tecnopessimistas quanto à inevitabilidade da catástrofe. Bilionários aprontam bunkers. (Inculcam-nos o futuro com uma probabilidade que faria corar Nostradamus: extinção.) Mudança de paradigma ou vigarice global, o advento da superinteligência é uma aporia. Tudo o que pode correr bem correrá bem sob a forma de correr mal.
Então, que há de diferente? A vida já era a invasão de bárbaros, mas juro que havia diferença e eu era uma delas. Seria eu-com-tudo-pela-frente ou certo ambiente histórico a diferença? Levem-me por favor de volta para 2003, com tudo o que sei e sofri, e mostro-vos um horizonte tão largo e belo, tão cheio de intenções plausíveis e sérias promessas, que ficarão incrédulos da vida hoje.
Levem-me como um refugiado para a casa de Jasper (Michael Caine), em Children of Men (2006). Forrada de livros e discos, fotografias e recortes, a memória dessa casa da ficção científica, santuário do meu século numa Inglaterra apocalíptica, parece-se cada vez mais com a nossa própria casa analógica contra a vida hoje. E é quando estremeço ao reparar que tudo ali se passava no ano que vem.
Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “2027”
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