Crítica Cultural,
Um colunista sob influência
Em 2026 vou me influenciar por influenciadores que vêm influenciando os mais influenciáveis e bater a meta de livros ‘para não leitores’
11dez2025 • Atualizado em: 10dez2025 | Edição #101Cansado da guerra contra o clichê, expressão que Martin Amis usava para definir o espírito crítico, o colunista que vos digita entrega os pontos. Essa resolução para 2026 começa com a platitude de ter uma “resolução de ano-novo”. E segue na disposição de, no ano vindouro, se deixar influenciar por influenciadores que vêm influenciando os mais influenciáveis a se afastar de más influências e, trazendo afluência ao influencer, fazer da leitura uma experiência influenciada.
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Vou tentar seguir os caminhos indicados por aqueles e aquelas que, tendo mandado às favas os limites nítidos entre opinião e publicidade, entre promoção e informação, ocupam os feeds da vida com indicações de livros e autores. O que têm a oferecer, numa sequência vertiginosa de vídeos, é reconfortante: no lugar das águas turbulentas da crítica, as margens plácidas da dica. O incentivo à leitura, missão nobre em teoria, na prática afina leitores em potencial com movimentos do mercado. Com um like na cabeça e um clique no dedo, os influenciados, mãozinhas postas como no emoji gratiluz, seguem o líder do mês, do dia, da hora. E, destemidos, partem para cima do romantasy da semana, de um García Márquez, de dragões, distopias fofas e intermináveis páginas de Valter Hugo Mãe. Aqui e ali uma “ficção de cura”, porque não há tatu que aguente.
Na lógica ‘influencer’, ler e malhar é só começar: nasce do hábito, é chato, mas a gente se acostuma
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Na lógica influencer, ler e malhar é só começar: nasce do hábito, é chato, mas a gente se acostuma porque faz bem. Assim como se contam os abdominais, se contabilizam os livros ticados — é mais importante ter ou ter tido o livro na mão do que aquilo que vai nele escrito. Na academia — a fitness, bem entendido — a prática leva à exaustão: quanto mais se levanta peso, mais peso se consegue levantar. Na mesma lógica, quanto mais livro se lê, mais se leu — não interessando autor, gênero e muito menos o que possa ter provocado. Ler com metas é como jogar xadrez para aperfeiçoar o raciocínio. “O xadrez”, já lembrava Millôr, “é um jogo que desenvolve a inteligência pra jogar xadrez” — quanto mais se joga, mais se aprende a mexer com destreza rainhas, bispos, cavalos.
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A ideia de influência já frequentou latitudes hoje pouco ou nada influentes. Em 1973, Harold Bloom, crítico prolífico, mercurial e um tanto autoritário, batizou como A angústia da influência um longo ensaio sobre os conflitos entre criadores e seus predecessores, entre o que é peso e o que é herança na tradição. No ano seguinte, Uma mulher sob influência mostrava com quanto enlouquecimento se faz uma vida medíocre e precária como a do casal vivido por Gena Rowlands e Peter Falk. No filme de John Cassavetes, a “influência” é uma força avassaladora, incontrolável, mistura de insanidade, apetite pela vida, inconformismo e derrota.
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“O leitor comum, como sugere o dr. Johnson, difere do erudito e do crítico. Não é tão instruído, nem foi a natureza tão generosa ao dotá-lo”, escreve Virginia Woolf ao definir o que entende como o grande público da literatura. Segundo ela, o chamado “leitor comum” passa de um livro a outro movido “por prazer, não para transmitir conhecimentos ou corrigir opiniões alheias”. O que o orienta, prossegue, é um “instinto de criar para si, com base em eventuais fragmentos dos quais venha a aproximar-se, algum tipo de todo — o retrato de um homem, um esboço de uma época, uma teoria sobre a arte da escrita”. O chamado “hábito de leitura” seria, finalmente, norteado por esta singular combinação de curiosidade e intuição que aprendemos a cultivar. O “leitor comum” é, antes de qualquer coisa, autônomo.
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A influência é o fim da autonomia — e em ritmo de scroll. Quando se procura influenciar alguém pelo ensino ou na crítica, o importante é botar para jogo referências variadas, muitas vezes díspares, às vezes incongruentes entre si. Há diferença crucial entre sugerir e prescrever: deve caber ao potencial leitor combinar o que passa sob seus olhos segundo método inventado, hierarquias idiossincráticas, caminhos inusitados. Nos roteiros influenciados não há lugar para a surpresa: o importante é a satisfação daquilo que, de antemão, atenda ao consumidor. La garantia soy yo!, anunciam, em uníssono, os influenciadores.
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The Uncommon Reader é uma novelinha adorável (fica a dica), traduzida por José Rubens Siqueira como Uma real leitora (Record) pela referência à sua protagonista, a Rainha Elizabeth. É ela que o dramaturgo Alan Bennett imagina como a “leitora incomum” do título original: já passando dos setenta anos, boiando no venerável tédio monárquico, a soberana descobre o prazer da leitura numa van–biblioteca estacionada nos fundos do Palácio de Buckingham. Subitamente, Henry James e Philip Larkin passam a fazer parte de sua vida e Ted Hughes deixa de ser apenas o “poeta laureado” da Inglaterra. O desembaraço da nova leitora traz problemas ao cerimonial e à diplomacia. Na carruagem, esquece de acenar aos súditos, absorta na leitura do momento. Num banquete para o presidente da França, se instala um climão quando ela pergunta ao ilustre convidado: “Jean Genet, vous le connaissez?”.
Li outro dia que Balzac ‘entrega’ tudo e logo imaginei o corpulento Honoré numa motinho
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Recém-convertida à leitura, Sua Majestade concordaria com uma influencer brasileira, para quem “no final do dia a gente só quer um livro gostosinho, fofinho, delicinha para chamar de nosso”? Talvez Lilibet buscasse o título certo para “quando você sentir que precisa se reinventar em um lugar que te cure mesmo depois de perder a direção”. Com o celular em punho, poderia revirar a van em busca de livros “para pessoas que pensam muito”, “para aniquilar sua preguiça”, “para ser mentalmente forte”, “para aprender a pensar por si mesmo e formar suas próprias opiniões”, “para sair da zona de conforto” ou, depois de excessos, “para sair da ressaca literária” (seja lá o que isso quer dizer). Partindo do princípio de que o influenciado é um influenciador em potencial, fico me perguntando quais seriam os argumentos da leitora sincerona para que seus pares encarassem o Genet de Diário de um ladrão ou Nossa Senhora das Flores.
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Dica que é dica não dispensa adjetivo. Como no tempo da influência não há tempo para construir um juízo, o influenciador usa e abusa da palavrinha “que se junta a um substantivo, qualificando-o ou classificando-o”, essa conhecida muleta da crítica. A adjetivação é o cimento de um mundo dividido entre autores “fáceis” e “difíceis”, que produzem narrativas “emocionantes” ou “instigantes”. Aqui e ali, debaixo da chuva de likes — a Influenciolândia vive alagada de elogios —, soa o alarme da densidade. Qualquer ficção que destoe, mesmo que ligeiramente, das mais óbvias convenções narrativas carrega o alerta: “denso”! A depender do influenciador e do influenciado, curtir um “denso” pega muito bem, desde que, é claro, a densidade não seja assim tão densa.
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As noções de crítica são atualizadas a cada post influenciador. Há a escola Palmirinha de close reading, que examina cada uma das “camadas” de uma obra como se destrinchasse uma torta salgada. Na vertente Google Translate, há os livros que, em português castiço, são “sobre isso” ou “sobre aquilo”. A linha de interpretação que prefiro é a Zé Delivery: li outro dia que Balzac “entrega” tudo e logo fiquei imaginando o corpulento Honoré, sempre endividado, correndo atrás do prejuízo, encarapitado numa motinho, serpenteando pelas ruas de Paris depois do 48º café do dia. Foi igualmente esclarecedor que, ao ler Carta ao pai, uma influencer tenha identificado em Kafka alguém com “daddy issues”. “É uma carta que ele nunca entregou pro pai, foi só uma coisa que escreveu pra botar a raiva pra fora”, esclarece. Ah, bom.
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Não há influência para valer, pelo menos para o influenciador, sem um plano de negócios. Tudo está à venda: óculos de leitura, luminárias, pacotes de turismo literário, malas, hotéis e outros itens menos citáveis. Ah, sim, também se vendem livros — e muitas vezes a partir de critérios extravagantes como, por exemplo, uma coleção que une autores de diversos países pelo fato de eles e elas terem nascido onde nasceram. No espírito do influenciado que influencia, pretendo lançar em 2026 um clube de leitura juntando Carolina Maria de Jesus, María Moreno, Eric Maria Remarque, Antônio Maria, Maria José Dupre e Maria Firmina dos Santos, fechando, é claro, com Javier Marías. É o “Maria, Marías”, em breve num feed perto de você.
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A disposição dos influenciadores para monetizar (opa) seus conteúdos (epa) não se estende à possibilidade de debate. Quando criticados, usam a carta da numeralha: contra a quantidade de seguidores, de promoções, de parceiros, não há nem pode haver argumento. Em seguida, costumam desqualificar o crítico como “elitista”, fantasiando um “antigo regime” de intelectuais decrépitos e reacionários, resistentes a essa espécie de jacobinismo de mercado que eles representam. Esse raciocínio populista, recendendo a fofura tóxica, se amplifica no silêncio de autores, editores e livreiros — que estão certos, afinal precisam vender livros — e já transborda para curadorias de eventos literários, colunas em jornal e TV. Para me atualizar, selecionei algumas dicas para meu ano sob influência: livros “para nocautear sua distração”, “para melhorar sua inteligência” e “para quem lê pouco e quer evoluir rápido”. Se correr tudo bem, parto para a lista de “livros curtos para bater sua meta literária”. A meta, como a de milhares de influenciados, é gabaritar a relação de “livros para não leitores”. Depois que chegar lá, a gente dobra a meta.
Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “Um colunista sob influência”
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