Crítica Cultural,
A cinza dos dias
Em Apesar dos meus ossos roídos, André Viana se apropria dos diários do pai e lembra que primeira pessoa é assunto sério demais para a primeira pessoa
14maio2026 | Edição #106Cinco décadas separam Armadilha para Lamartine de Apesar dos meus ossos roídos. Naquele que é um dos romances mais inventivos da literatura brasileira, a assinatura dupla — Carlos & Carlos Sussekind — equivale a uma declaração de princípios: o Carlos que publicou o livro em 1976 se apropriou dos diários em que o outro Carlos, seu pai, registrou minuciosamente o cotidiano da família entre as décadas de 30 e 60.
No romance recém-lançado por André Viana, uma dedicatória — “pra Tonho, que escreveu este livro comigo” — dá a pista oblíqua de uma dupla autoria, a do também oblíquo Antonio Carlos Viana, contista excepcional, tardiamente reconhecido, morto em 2016 aos 72 anos. Autor de O meio do mundo e Jeito de matar lagartas, o outro Viana é pai de André, que dele herdou os diários em que documenta os quatro últimos anos de sua vida.
Festejai, psicanalistas, a presença paterna que se projeta sobre a escrita do filho, a sublevação do filho que se infiltra nas palavras do pai. Muitos já se regalaram com Sussekind — a começar por Hélio Pellegrino, que assina o prólogo à primeira edição, depois republicado como posfácio — e tantos outros podem se ocupar de Viana. Aos menos enredados em teias freudianas, os dois escritores oferecem como ardil a tensão entre a fabulação livre e a ideia de que o registro “a quente” dos dias guarda, como numa improvável cápsula de tempo, a vida “como ela é”: repetitiva, sem graça ou solenidade aparentes.
Desdramatização
Armadilha para Lamartine é enfático, celebração esfuziante da escrita e da invenção. Carlos & Carlos S. são, na ficção, Lamartine e Espátaco M. — o filho internado depois de um surto e o pai, jurista (alô, doutor Sigmund) que tenta segurar as rédeas da vida na escrita. Inventor de jogos intermináveis, o filho se diverte em engambelar o pai e quem os lê.
Apesar dos meus ossos roídos é, num sentido contrário, uma aposta radical na desdramatização. Sem comentários ou interferências aparentes, o que lemos é o “diário de um aposentado”. Seu narrador é Carlos, o terceiro Carlos desta coluna, protagonista que tem o nome desentranhado de Antonio Carlos Viana. Quando debilitado pelo tratamento contra o câncer, Elaine, a cuidadora, e Cecília, a filha, assumem a narrativa. Carlos, aliás, vive cercado por mulheres e assombrado pela lembrança de um homem: o filho que se suicidou em circunstâncias jamais detalhadas. Seu nome é André, xará do autor do romance.
Os escritores oferecem como ardil a ideia de que o registro dos dias guarda a vida ‘como ela é’
Entre Aracaju, onde mora, e quartos de hotel em Curitiba, Uberlândia e São Paulo, Carlos enfrenta, entre 2013 e 2016, uma via crucis do corpo: quimioterapia, exames variados, dolorosos implantes dentários e um jejum prolongado na expectativa de cura por cirurgia espírita. Aqui e ali, o professor de literatura que não chegou a se realizar como escritor volta a uma novela inacabada, inspirada na temporada que viveu em Paris. Em tom menor, distanciado, o diário flui. Pontuada por tesão e pessimismo, a ficção empaca.
Mais Lidas
A vocação extraviada do personagem tem ressonância no tom dos diários, impermeáveis a pretensões literárias ou discussões sobre a criação. Comentários pontuais indicam um leitor assíduo: “Domingo de muita chuva. Nada fiz, a não ser ler e desistir do livro de um norueguês, Karl Ove, A morte do pai, chatérrimo”. Mais importante para ele é a obsessão em quantificar as taxas dos exames, o custo de objetos, de serviços, de refeições: “fiz uma pausa na hora do almoço e fui comprar comida na padaria. Gastei só R$ 10,50. Hoje foi peixe. Sempre compro mais do que consigo comer”. O que se come e o quanto custa são, no diário, tão dignos de registro quanto os atropelos da história: “Na TV, a luta de Lula para não ser preso. Dilma o nomeou ministro. O povo foi para a rua contra ela. Onde isso vai dar, ninguém sabe”.
Central para o diário/romance, o corpo não é, no entanto, um campo exclusivo da dor. Com Bia, décadas mais jovem, Carlos reencontra os prazeres plenos do sexo e descobre a boa onda da maconha. Em idas a shoppings, transas que varam as noites, afazeres burocráticos, festas extemporâneas, comida a quilo e eventuais porres, a vitalidade termina por marcar muitos e significativos pontos contra o irrevogável da morte.
Como Nathan Zuckerman em Lição de anatomia, Carlos se mantém como centro gravitacional de mulheres com quem cultiva vínculos quase sempre unilaterais. Se o personagem de Philip Roth, acometido por dores insuportáveis nas costas, manipula sem subterfúgios quatro parceiras-enfermeiras-amigas — “Doente, todo homem quer a mãe. Se ela não está por perto, o jeito é se virar com outras mulheres”, escreve o narrador —, o protagonista de Apesar dos meus ossos roídos sinaliza dúvida. “Preferi afastar todos de mim”, anota Carlos. “Agora é tarde. Ou não. Vivo a era do talvez. Tudo pode ser e não ser.”
É impossível e, sobretudo, inútil precisar o grau de intervenção de André Viana nos escritos do pai
Pelo sim, pelo não, a vida que resta é ritmada por mulheres do passado e do presente, por relações quase sempre estropiadas sem elas. Ester, a mãe dos filhos, enfrenta problemas psiquiátricos, é um pote até aqui de mágoa e se afirma com uma presença ostensiva e incômoda. Madame X., amante há três décadas, casada e rica, se desvela em cuidados e ciúmes. Com Regina, amiga que reencontra em Curitiba, ele enfrenta médicos e os domingos melancólicos. Nete, a empregada, mantém casa e cozinha. A distância de classe termina por separá-lo de Elaine, a cuidadora. Cecília, a filha, lhe dá uma neta e a possibilidade de reconstruir uma relação delicada.
Repetição
É impossível e, sobretudo, inútil precisar o grau de intervenção de André Viana nos escritos do pai. A marca de sua escrita é, por isso, paradoxal e intrigante. Na tentativa de ordenar a experiência, um diário depende da repetição e da provisoriedade da anotação; transformado em romance, não oferece parágrafos lapidares ou frases buriladas. A “trama”, que aqui merece aspas, se constrói, admiravelmente, por acúmulo e repetição.
Quando a manobra autoral de André Viana é evidente, se dá na chave da ironia e da autorreflexão. “Fui pela manhã a um evento na Epifânio Dória em homenagem a Antonio Carlos Viana”, anota Carlos, numa menção à biblioteca de Aracaju onde o escritor seria, de fato, velado.
Lotado, como era de esperar. Nunca vi tanto salamaleque para uma pessoa. Tratam ele como um deus. Um bom contista, sem dúvida, mas não é para tudo isso. Talvez porque esteja doente, segundo me contou Madame X. Sempre achei ACV um pavão encalacrado.
Em outro momento, registra: “À meia-noite soube que Viana ganhou o apca por seu livro das lagartas. Vai ficar mais pavão do que já é, mas merece. É um bom livro. E não deixa de ser um holofote para Sergipe”. E ainda: “Resto do dia cheio de telefonemas para comentar o prêmio de Viana. O Jornal da Cidade pediu um artigo meu sobre a obra dele”.
Apesar dos meus ossos roídos tinha tudo para navegar no tranquilo mar de autoindulgência contemporâneo: acerto de contas em família, traumas e doença terminal. André Viana prefere, no entanto, imprimir complexidade e inteligência no sempre arriscado mergulho em material biográfico. E, assim, nos lembra que primeira pessoa é assunto sério demais para a primeira pessoa.
Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026.
Porque você leu Crítica Cultural
Nasce o intelectual neutrox
Filha do doisladismo com a desmobilização política, a nova cria do liberal curupira promove a universidade sem partido
MAIO, 2026
