Crítica Cultural,
Escrever a ausência
Na melhor tradição literária do luto, Siri Hustvedt faz de Histórias de fantasma um retrato complexo dos 43 anos que viveu com Paul Auster
09jul2026 • Atualizado em: 07jul2026 | Edição #108Histórias de fantasma, o longo ensaio pessoal de Siri Hustvedt sobre a morte de Paul Auster, lembra que todas as histórias de luto se parecem. E que, ecoando a máxima de Tolstói sobre os dramas familiares, cada uma delas é triste a seu modo.
Nas primeiras páginas, Hustvedt tem 69 anos, mesma idade da narradora de O ano do pensamento mágico (2005). Naquela que é uma devastadora meditação sobre a viuvez, Joan Didion disseca a perplexidade que se instala depois do infarto súbito do escritor e roteirista John Gregory Dunne, dois anos mais velho, com quem foi casada e manteve estreita parceria de trabalho por quase quatro décadas.
Paul Auster e Siri Hustvedt não viveram a incerteza do fim. Ambos estavam plenamente conscientes de que, 43 anos depois de um encontro narrado com o encantamento das grandes paixões, sua história se encerrava. Em abril de 2024, meses depois de o autor de A trilogia de Nova York completar 77 anos, esgotaram-se as possibilidades de tratamento de um agressivo câncer de pulmão.
O acaso, força onipresente na obra de Auster, também aproxima os dois casais de escritores no destino sombrio de seus filhos. Filha de Didion e Dunne, Quintana estava internada quando o pai morreu, e não chegaria a ver o lançamento do livro da mãe sobre a morte dele. Uma pancreatite pôs fim, aos 39 anos, à sua longa convivência com depressão e alcoolismo.
Escrever sobre a morte de quem se ama é retratá-la da forma mais nítida possível e fazer do leitor um cúmplice
Aos 44, Daniel, filho do primeiro casamento de Auster, com Lydia Davis, sofreu uma overdose fatal. Foi encontrado numa estação de metrô do Brooklyn, em abril de 2022, horas depois de sair da prisão. O pai havia pagado fiança para que Daniel respondesse em liberdade às acusações de negligência pela morte da própria filha, Ruby, que aos dez meses, estando sob seus cuidados, teria sido exposta a heroína e fentanil.
Siri Hustvedt se refere à sequência de tragédias envolvendo o enteado como as “coisas horríveis”, aquelas que não se pode contornar mas das quais é preciso tomar distância — a começar pela própria iniciativa de escrever. “Este livro não é uma biografia do abismo”, adverte ela. “É um livro sobre mim e sobre o Paul, e o que me faz escrever é a necessidade de trazer algo dele de volta para a página.”
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Reencontrar pela escrita quem se perdeu é, afinal, o que move toda uma tradição literária do luto. Escrever sobre a morte de quem se ama é retratá-la da forma mais nítida possível e, no mesmo movimento, fazer do leitor uma espécie de cúmplice nesse amor e no desamparo por sua ausência definitiva.
Vendaval
O homem que volta às páginas de Histórias de fantasma fuma desbragadamente, chega a aeroportos horas antes dos voos e em hipótese alguma, mesmo internado, abandona as “extensões do próprio corpo”: chaves de casa, agenda de bolso e carteira. No escritório, onde se isolava para trabalhar, deixou “pelo menos” 150 canetas de diversos tipos (escrevia primeiro à mão) e um estoque de fitas para sua Olympia (passava a limpo na máquina) que, segundo Hustvedt, “poderia durar mais algumas vidas ou equipar um pequeno exército de luditas escritores”. Desde que os Estados Unidos elegeram um fascista, costumava pontuar com gritos indignados a solitária leitura do noticiário.
Em torno de uma espécie de diário íntimo, delicadezas cotidianas desse tipo convivem com reflexões ensaísticas sobre literatura, fama e beisebol — o esporte era um interesse central de Auster. Hustvedt também discute os limites da medicina, transcreve cartas reencontradas em guardados e publica os e-mails que enviava a um grupo de amigos dando conta das idas e vindas de hospitais. Os textos oscilam em tom, formato e origem como oscilam o mundo e a vida dos desorientados pela perda. “O luto não é constante”, escreve. “Consigo me proteger da tempestade por dias, mas depois o vendaval vem e me derruba.”
Além de personagem, Auster também é coautor de Histórias de fantasma, que incorpora as últimas páginas deixadas por ele. Entre Baumgartner, a novela de 2022, e o penúltimo mês de sua vida, a violência da doença e da imunoterapia o manteve distante dos cadernos e da máquina de escrever. O nascimento do neto, no início de 2024, motivaria um derradeiro projeto literário.
Cartas para Miles seria o título de um conjunto de textos endereçados diretamente ao filho da cantora Sophie Auster, única filha do casal, com Spencer Ostrander, fotógrafo que seria parceiro do sogro no ensaio Bloodbath Nation (2023), um libelo contra a proliferação de armas nos eua. Com a caligrafia afetada por tremores, Auster conseguiu concluir sete cartas.
“Enquanto escrevo estas palavras numa tarde de garoa no final do inverno, você completa sessenta e quatro dias nesta terra”, diz a primeira carta, datada de março de 2024.
Enquanto isso, no grande e agitado mundo que fica do lado de fora do seu quartinho, os Mets estão na Flórida, se preparando para a temporada que começa, os políticos estão pigarreando, se preparando para as eleições nacionais no outono, e o mercado de ações está a mil, batendo recordes de uma semana para outra. Ao mesmo tempo, guerras terríveis, hediondas, estão acontecendo na Ucrânia e em Gaza, sem nenhum sinal de trégua, e o número de mortos só aumenta em ambos os lugares.
Nas 35 páginas dirigidas ao neto, Auster se dedica sobretudo a contar a história da família e, sempre que pode, tenta dar conta das relações entre a intimidade e o coletivo. No momento mais emocionante, narra o 11 de setembro de 2001, “o pior dia da história de Nova York”, de uma perspectiva peculiar: naquela terça-feira, Sophie começava o ensino médio e, pela primeira vez sozinha, cruzava a cidade de metrô, do Brooklyn, onde viviam, a Manhattan, onde uma nova escola a acolheria depois de uma traumática experiência de bullying.
No terreno pantanoso da dor, a escrita de Siri Hustvedt evita o conforto óbvio do sentimentalismo e um outro, menos evidente, da pura melancolia. Sua preocupação é dar concretude à memória e, assim, desafiar o tempo, o inevitável esquecimento. Convicta de que “escrever é agir”, transforma bilhetes, fotografias, gravações e, é claro, textos, em “peças espectrais de histórias compartilhadas, histórias de fantasma que são também histórias de amor”. São essas narrativas que garantiram a sua sobrevivência. E que, acredita, afiançam a perenidade possível de toda uma vida compartilhada.
Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “Escrever a ausência”
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