Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

O fim e a sucessão

As trapaças da série Succession ficam em suspenso diante do irrevogável momento em que a morte redefine num corte seco o rumo dos vivos

20abr2023 - 13h03 | Edição #69

A etiqueta manda, eu obedeço: esta coluna contém SPOILER.

Acho quase impossível, no entanto, que duas semanas depois da estreia do terceiro capítulo de Succession, em sua quarta e derradeira temporada, não se tenha visto ou se saiba da morte do protagonista, Logan Roy.

Muito se falou, a meu ver com exagero, das ressonâncias shakespearianas do drama de uma família mais para tabloide do que palco elisabetano. E eis que o maior impacto da série da HBO não se dá numa cena grandiloquente, mas na contundência da banalidade com que se representa a morte. Uma morte esperada — e de certa forma anunciada numa história que gira em torno da sucessão do patriarca irascível, esplendidamente encarnado por Brian Cox.

A começar pelo título, tudo aponta para mais uma sucessão de vilanias entre os biliardários que amamos desprezar

A começar pelo título, “O casamento de Connor”, tudo aponta para mais uma sucessão de vilanias entre os biliardários que amamos desprezar. Filho mais velho de Logan, o noivo usa a cerimônia de união à namorada, uma garota de programa que reluta em desempenhar o papel de esposa, como mais um ato em sua fracassada campanha à presidência dos Estados Unidos.

Shiv, Ken e Roman cumprem burocraticamente os papéis de irmãos do noivo. Mais ou menos unidos em torno de uma negociação que frustrou ambiciosos planos do pai tirano, sabem que, em mais uma demonstração de desprezo por Connor, Logan preteriu o casamento do primogênito por uma viagem transatlântica decisiva para seus negócios. Depois dos treze primeiros minutos do capítulo, os três recebem sucessivos telefonemas de Tom, ex-genro e bajulador de Logan. Do jato particular que os leva à Suécia, vem o recado: o patriarca está passando mal. Muito mal.

A incredulidade irracional dos filhos é também a do espectador — chega-se a cogitar mais uma manobra rocambolesca de um personagem sem escrúpulos

Tudo passa a girar em torno do viva-voz. Assim como seus filhos, não vemos Logan, submetido a inúteis massagens cardíacas depois de resgatado do banheiro do avião, onde sucumbiu, como se saberá depois, a uma embolia pulmonar. A incredulidade irracional dos filhos diante do que se configura é também a do espectador — dos dois lados da tela, chega-se a cogitar mais uma manobra rocambolesca de um personagem sem escrúpulos.

Estamos juntos, portanto, a Shiv, Ken e Roman na dúvida e na lenta constatação do óbvio. A descrença deles é a nossa, dividimos a mesma perplexidade. Succession lembra, com requintes narrativos, que a morte, pouco afeita a adversativas, redefine em corte seco o caminho dos vivos. É o que temos.

Mortes súbitas

De certa forma, a morte é a notícia da morte. É o instante decisivo que detona toda uma coreografia em torno de um cadáver, rituais pautados por urgência e solenidade no fundo inúteis. A face pública da morte de Logan tem repercussão global, afeta mercados, redefine a política. Na vida besta, que é a de todos nós, inclusive a da família Roy, ela reconfigura o mundo.

Tendo sido confrontado com a morte de pessoas amadas muito mais do que eu gostaria nos últimos dois anos, posso atestar que é verdade o bilhete de Jesse Armstrong, o criador da série: morre-se assim, bestamente, sem prelúdio, anúncios tonitruantes ou lágrimas de esguicho. No banheiro de um jato particular, numa UTI ou na própria cama, morre-se assim, do nada. Talvez por isso, mesmo quando esperado, o fim de quem se ama é uma experiência crua do irrevogável. Toda morte é súbita.

Succession lembra, com requintes narrativos, que a morte, pouco afeita a adversativas, redefine em corte seco o caminho dos vivos. É o que temos

“Ela ainda não estava morta. Eu já estava sozinho”, observa o narrador de Em busca do tempo perdido no minucioso relato da morte da avó, longamente adoecida e depauperada pela idade. Na cultuada cena, que abre a segunda parte de O caminho de Guermantes, terceiro volume de Em busca do tempo pedido, Proust elabora meticulosa marcação das encenações da morte: as visitas que chegam ao apartamento onde a avó definha, o apelo desesperado ao médico arrogante, o corpo dando os últimos sinais, a tristeza inconsolável da mãe do narrador.

Escreve Proust, na tradução de Mario Quintana:

Realmente dizemos que a hora da morte é incerta, mas, quando dizemos tal coisa, imaginamos essa hora como que situada num espaço vago e remoto, não pensamos que tenha a mínima relação com o dia já começado e possa significar que a morte — ou a sua primeira apossação parcial de nós, depois do que não mais nos largará — possa ocorrer nessa mesma tarde, tão pouco incerta, essa tarde em que o emprego de todas as horas está previamente regulado.

O 14 de junho de 1986, “previamente regulado”, caiu num sábado. Pela manhã, numa confeitaria, Adolfo Bioy Casares encontrou o filho e lhe deu um livro de presente. Depois do almoço com uma velha amiga, saiu pelas ruas da Recoleta, em Buenos Aires, em busca de outro exemplar do mesmo livro. Numa banca de jornal, um jovem desconhecido se dirigiu a ele: “Hoje é um dia muito especial”. Bioy custou a entender o que se passava, até ser informado: “Porque Borges morreu. Morreu esta tarde em Genebra”.

É verdade o bilhete do criador da série: morre-se assim, bestamente, sem prelúdio, anúncios tonitruantes ou lágrimas de esguicho

Encerrava-se assim uma amizade de 54 anos com Jorge Luis Borges, que vivia na Suíça e com quem Bioy havia falado na semana anterior, preocupado com seu estado de saúde. Em seu diário, o autor de A invenção de Morel registra que ainda caminhou até outro quiosque pensando: “eram meus primeiros passos num mundo sem Borges”.

Numa terça-feira, 30 de dezembro de 2003, Joan Didion e John Gregory Dunne preparavam-se para jantar no apartamento em que viviam no Upper West Side. Voltavam do hospital onde a filha, Quintana, estava internada em estado grave. Dunne, marido e parceiro de trabalho de Didion há quase quatro décadas, caiu sobre a mesa, fulminado por um infarto. O ano do pensamento mágico, uma delicada obra-prima sobre o luto, começa com as primeiras anotações da autora de O álbum branco depois da cena aterradora: “A vida muda rapidamente. A vida muda em um instante. Você se senta para jantar, e a vida que você conhecia termina”.

“Era precisamente a natureza normal de tudo que precedera aquele acontecimento que me impedia de acreditar que tinha acontecido de verdade, absorver, incorporar, superar”, escreve ela. “Agora reconheço que não há nada de incomum nisso: confrontados com um desastre súbito, todos nos fixamos em quão banais foram as circunstâncias nas quais o impensável aconteceu”.

A morte, nos lembra Succession, não é o glorioso finale de uma temporada. É capítulo 3.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #69 em abril de 2023.