Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

O Brasil raciocinado

Evandro Cruz Silva e Odorico Leal partem para cima do presente em literatura longe do umbigo

20jun2024 - 14h03 • 20jun2024 - 14h34

O embranquecimento, primeiro romance de Evandro Cruz Silva, e Nostalgias canibais, que inaugura a ficção de Odorico Leal, partem com tudo para cima do presente, embrenhando-se em questões de raça e deconialidade sem deixar que teses, teorias e conceitos se anteponham à fabulação. Em tempos de narradores narcísicos e emocionados, ambos preferem a cabeça ao umbigo; no mesmo movimento, privilegiam o literário sobre o literal. Por caminhos diferentes, sublinham as dores variadas e escassas delícias do triste torrão em que nos coube viver.

Os escritores Evandro Cruz Silva e Odorico Leal (Luiza Sigulem/Divulgação; Divulgação)

Publicado três anos depois dos contos de Praia artificial (Patuá), O embranquecimento está fincado na dureza da vida: Macária, intelectual que, assim como o autor, se forma no Brasil das cotas, tem que se haver com fundas questões existenciais e políticas desencadeadas pela morte da mãe. Já em Nostalgias canibais, o único realismo possível é o da língua portuguesa, ambiente privilegiado de uma novela e quatro contos em que coexistem em perfeita anarquia Padre Vieira e Fernando Pessoa, indígenas canibais e escritores decadentes, extrema direita e millenials esnobes. Por vias tortas e labirínticas, São Paulo é o cenário dominante de ambos os livros, povoados por miseráveis e hipsters, blocos de carnaval e manifestações violentas, professores universitários e cantores gospel.

Imagens fortes

É curioso que, tão mergulhados no presente, ambos sejam assombrados pelo século 19, por duas imagens fortes que marcam a mudança de ordem na passagem do Império à República. E dão pano pra manga.

O “objeto primeiro de fascinação” da protagonista de O embranquecimento é A redenção de Cam, do espanhol Modesto Brocos. Estudante de história da arte, a filha de uma faxineira da universidade pública, negra, com um funcionário da instituição, branco, nutre uma relação complexa com a obra de 1895. Na tela, hoje parte do acervo do Museu Nacional de Belas Artes, duas mulheres negras e um homem e um bebê brancos estão à porta de uma casa modesta, que sugere ambiente rural ou mesmo um subúrbio. A mais velha, de pele escura, ergue as mãos aos céus, parecendo agradecer a uma interveniência divina. A suposta graça, restam poucas dúvidas, é o bebê branco, filho da outra mulher negra, a de pele mais clara. O pai é o homem, que, demonstrando altivez e satisfação, também dá pouca margem de ambiguidade sobre o sentido redentor do “branqueamento”. “Muitas vezes me perguntei quem eu seria naquela imagem paradigmática de família inter-racial brasileira”, diz a personagem, que prefere se situar fora de quadro: “imaginava-me sendo Brocos: escolhendo as tintas, observando cores, inventando cenários de mudança racial”.

Em tempos de narradores narcísicos e emocionados, ambos autores privilegiam o literário sobre o literal

Primeira da família a chegar ao ensino superior, Macária vive uma época “em que o racismo era um assunto de moda”. Suas colegas, brancas, circulam “carregando ecobags com a frase ‘pele negra, máscaras brancas’, ilustrações de Angela Davis, o rosto de Carlos Marighella”. Em pouco tempo, ela se dá conta de um talento insuspeito — “percebi que era boa em cavar piedade de brancos universitários culpados” — e faz de sua história de vida um trunfo. “Contava esses relatos nos pequenos workshops em que me convidavam para dar aulas sobre como não ofender pessoas negras, mas atividades em nome da diversidade que começavam e terminavam no mês de novembro”, diz ela. Para alguém que se define como uma “pobre qualificada”, abre-se um novo horizonte: “Era uma espécie de pequena reserva de mercado em que se disputava o posto de interlocutora universitária oficial de uma certa experiência de sofrimento”.

A visão cáustica da personagem não se confunde, no entanto, com o pânico identitário manipulado por reacionários de matizes variados. Macária é radical em sua aversão a determinismos, ela experimenta a vida e as recombinações de todas as suas possiblidades. Em São Paulo, mora com a companheira alemã, Hannah, e Maria, sua filha com Alberto, um homem negro. O arranjo familiar, no mais das vezes harmonioso, contrasta com a dificílima relação que se estabelece ao longo da vida com Cláudio, o pai ausente, sobrevivente de overdoses entre hotéis infectos e as ruas degeneradas da cidade. O embranquecimento se dá entre os impasses, negociações e custos, sempre altos, que envolvem a ideia de reconciliação — seja ela íntima ou política, sentimental ou social.

Devoração de pessoas

Também vem do século retrasado o pesadelo do narrador de “Nostalgias canibais”, novela que dá título ao livro de Odorico Leal e é seu ponto alto. Numa célebre fotografia, dom Pedro II posa não em trono ou cadeira, mas acomodado numa pedra; ao fundo, no lugar de brocados ou paisagens bucólicas, uma luxuriante vegetação brasileira. Indígena antropófago que tem o dom da vida eterna, o personagem atravessa a história do Brasil entre êxitos efêmeros, fracassos consistentes e a desenvolta devoração de pessoas. É em sua encarnação como fotógrafo, no Rio de Janeiro do Segundo Reinado, que o hábil canibal teria inventado a tropicalização dos retratos de uma elite que se quer europeia.

Caprichos da história e artimanhas da ficção dariam os créditos a Joaquim Insley Pacheco, autor de fato daquele célebre portrait do imperador — e logo inimigo figadal do narrador.“Por todas as casas de daguerreotipia da capital do nosso Império floresciam matas atlânticas idênticas à minha. Uma febre tropical tomara conta da cidade; por uma temporada toda a gente de bem não pensava em outra coisa que não ser flagrada entre matagais cerrados e ferozes”, observa. “Tentei engolir o revés, embora me viessem outras fomes, até que o próprio Imperador deixou-se fotografar cercado de marantas pelo odioso Insley Pacheco”.

‘O embranquecimento’ e ‘Nostalgias canibais’ são, cada qual a seu modo, desconcertantes

Narrador de si mesmo e do Brasil, “acrescentando colorido ao desbotado da verdade”, o canibal simula civilização europeizada para melhor roê-la por dentro — muitas vezes literalmente. “Nunca estive interessado em pastar virtudes”, observa em seu incontido desprezo pelos valores que lhe são impostos, “só e somente músculos tenros, tendões indolentes, entre os quais se chega fácil, como por entre cortina de miçangas, ao tutano dos ossos”. Ao longo de sua existência ilimitada, que coincide com o tempo distendido da história, ele é nobre, mascate, estivador, empresário, especulador, produtor de cinema, músico. Num momento em que amealhou riqueza e, com ela, comprou fidalguia, era desprezado como um improvável “Conde Tupinambá” — “pois minhas feições nunca ocultaram minhas origens nativas das mais puras”. No Brasil de hoje, seduzido por jovens turistas numa praia do Nordeste, constata: “agora meus olhinhos de tupinambá comoviam”.

Literal na primeira história, o canibalismo se transfigura nas demais como uma reserva de selvageria e insubmissão que corre mais ou menos adormecida sob as vidas submetidas a padrões — de estética (“História da feiúra”), consciência política (“A febre dioneia”) ou afetação intelectual (“Os gatos” e “O jardineiro”). Farta do trabalho, entediada na entrevista protocolar com o escritor protocolarmente polêmico, uma repórter se lambuza em volúpia retórica absurda e hilariante: “Penso que tudo que clama por ajuda merece morrer: o teatro deve morrer, os artistas devem morrer, os museus, os cinemas de rua, a ararinha-azul, as tartarugas gigantes, a Amazônia, os índios kaiowá, tudo deve simplesmente aceitar que não pertence a este mundo, não só não pertence a este mundo como é repelido por ele”.

O embranquecimento e Nostalgias canibais são, cada qual a seu modo, desconcertantes. Evandro Cruz Silva e Odorico Leal frustram as expectativas do óbvio ao exercitar aquilo que Manuel Bandeira um dia definiria, em carta a Carlos Drummond de Andrade e num outro contexto, como “prosa raciocinadora”. Num mundo de likes, não é pouco.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).