Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

Intimidação e censura

Novas ameaças a Debora Diniz e apagamento de autoras críticas ao governo misturam misoginia e cálculo político na deterioração da democracia brasileira

11fev2021 - 01h01

Sessenta e cinco adjetivos e locuções, encharcados de ódio e boçalidade, compõem um “vocabulário bolsonarista” compilado em 24 horas por Debora Diniz. A antropóloga e professora da UNB se deu a esse trabalho não por interesse acadêmico, mas por ser ela a destinatária desses e outros mimos desde que, no fim de semana passado, o nefasto –  e transitório –  inquilino do Planalto resolveu distrair seu gado com uma calúnia tuitada contra ela. 

Não reproduzirei aqui o tuíte abjeto e, muito menos, o bestialógico por ele gerado – ainda que não se possa deixar sem notícia que o Capitão repassou à choldra uma citação descontextualizada que já havia sido descontextualizada pelo jornal do Sul que vive para lamber-lhe os coturnos. 

Tampouco vou perder meu tempo defendendo Debora, que há dois anos teve a sensatez de mudar-se para os EUA antes que se concretizassem as muitas ameaças de morte que ela e sua família recebiam. Militante da descriminalização do aborto, de participação decisiva para que legalizasse a interrupção da gestação de fetos anencéfalos, ela é o alvo perfeito para o plantel de vagabundos que dia após dia corrói o que resta da democracia lubrificando com chorume redes e zaps. 

Não, não se trata de “cancelamento”, que como categoria de análise serve, no máximo, para fazer sociologia de Big Brother. Mais do que fake news, a atitude presidencial insufla as ameaças que chegam a ela por todos os lados. Debora propõe que se chame a coisa pelo nome: terrorismo doméstico. 

A paixão ignóbil conhecida como bolsonarismo não poderia mesmo admitir a existência de uma mulher como Debora. Numa psicanálise de botequim, pode-se até chegar a várias hipóteses sobre a origem recôndita desta questão. Por hora basta pensar na combinação de misoginia e cálculo político para lembrar outro fato, gravíssimo, ocorrido há quase um mês e menos noticiado do que merecia.

Lucia Riff é agente literária há mais de 30 anos. É respeitada em todo o mundo e tem um catálogo estelar de autores. Atendendo a solicitação do site Brazilian Publishers – que visa a promoção da literatura brasileira no exterior – elaborou uma lista de “seis autoras para não perder de vista”. O Brazilian Publishers é parceiro da Apex, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações, que costuma replicar em seu blog as ações envolvendo direitos autorais. Pois as recomendações de Lúcia foram reproduzidas pela Apex e logo retiradas do site por uma suposta questão técnica.

Não escapou à “Coluna do Estadão”, que noticiou a manobra, nem a qualquer um não submetido a lavagem cerebral, que a restrição tinha nome, ou melhor, três nomes: Patrícia Campos Melo, Ilona Szabó e Eliane Brum, que encabeçavam a relação formada ainda pelas romancistas Giovana Madalosso, Aline Bei e Noemi Jaffe.  Duas jornalistas e uma cientista política, as três primeiras são tidas como “inimigas” do governo de extrema direita e, como tal, jamais poderiam ter a chancela de uma agência pública, que na concepção bolsonarista deve ser sustentada por todos em benefício dos que apoiam o que aí está.

Em A máquina do ódio, Patricia Campos Mello expôs o esquema de disparos ilegais de mensagens que ajudou a nos enfiar no buraco em que estamos – crime que continua impune mesmo depois das fartas evidências produzidas por suas reportagens para a Folha de S. Paulo. Ilona Szabó passou pelo governo, tendo sido demitida do Conselho Nacional de Polícia Criminal e Penitenciária  a pedido do Cavalão, a quem certamente horroriza suas posições contra a criminalização das drogas e o armamento da população. Já não é de hoje Eliane Brum faz de seu jornalismo um instrumento de combate às iniquidades – vive hoje parte do tempo em Altamira, na Amazônia, mantendo atenta vigilância às boiadas que se quer atravessar por nossas esburacadas leis. 

Foi preciso uma pandemia, mais de 200 mil mortos, pessoas asfixiadas e negacionismo institucional para que os camelôs da moderação admitissem falar em fascismo e genocídio – assim mesmo depois da validação dos “especialistas internacionais”, a quem sempre homenageiam em sua pusilanimidade. É bom que não seja necessário um atentado ou uma lei extraordinária para que se comece a chamar pelo nome o que temos visto: terrorismo estimulado por quem deveria coibi-lo, censura diluída em omissões convenientes e incidentes fortuitos. 

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).