Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

É a política, estúpido

Apóstolos do conformismo pedem calma e uísque enquanto chafurdamos em truculência, estupidez e vergonha

18jul2019 - 09h37

Em 1948 o mundo vivia a ressaca da grande guerra. Só se discutia campo de concentração, bomba atômica, fascismo. Só se falava, enfim, em política, como registra George Orwell em “Os escritores e Leviatã”. E com bons motivos. Afinal, argumenta ele no ensaio publicado naquele ano, “quando estamos num navio prestes a naufragar, nossos pensamentos se concentram em navios prestes a naufragar”. Fazer diferente é resultado de alienação patológica. Ou, o que é pior, atestado de má consciência. 

É aquela história do sujeito reclamando com a aeromoça sobre o uísque que não veio. “Mas senhor, o avião está caindo…”, argumenta ela. “Que se dane o avião!”, responde ele. E tem a do circo em que os leões se soltam: a turba entra em pânico e, na confusão, um espectador tem suas partes íntimas imprensadas nas arquibancadas. Sob essa forte emoção privada, nasce um conciliador público: “Senta que o leão é manso!”.

Navio, avião ou circo: o freguês pode escolher a metáfora que preferir para um Brasil que mistura naufrágio, queda livre e pânico. Todo mundo, parece razoável, só deveria pensar naquilo: é a política, estúpido! Mas graças a um esforço laborioso de apóstolos do conformismo, espalhados por variadas tribunas de opinião, insiste-se em pedir calma e uísque enquanto chafurdamos em truculência, estupidez e vergonha. 

Nesse mundo da iniquidade naturalizada, literatura e política não se misturam. Foi por isso, aliás, que a Barbie Fascista, esse adorável arquétipo nascido nas redes sociais, fez forfait na Flip deste ano. Desistiu de equilibrar a consciência no salto, entre as pedras de Paraty, porque tem achado o mundo “chaaaato”. Vivendo em Lisboa, tem “preguiça” da realidade e prefere espalhar boas notícias.

Nossa personagem tem saudade de quando a Flip ignorava o mundo exterior. Assustou-se em 2013, quando as ambíguas jornadas de junho ganharam tribuna na festa. E achou esquisita, mas não de todo ruim, a fórmula marota do “tudo é política”, sob a qual estimulou-se o debate sobre a tradição ameaçada da cocada queimada para passar ao largo de um impeachment e não tocar na ascensão da extrema direita.

Em 2019, Paraty chamou as coisas por seus nomes. E afirmou posição abertamente contrária à corrosão dos valores democráticos promovida diuturnamente pelo governo eleito. Grada Kilomba falou do país fraturado e racista que encontrou, Marilene Felinto destruiu consensos sobre vida literária, jornalismo, política e a própria Flip, Walnice Nogueira Galvão nos recomendou ler Os sertões todos os dias para lembrar o tratamento que o Brasil dispensa aos desvalidos, sejam eles sertanejos ou sem-terra, indígenas ou negros.  

Na Folha de S. Paulo, Anna Virginia Balloussier reclamou da falta de autores “de direita” e “conservadores”, o que seria flagrante evidência da falta de espírito democrático da festa. A se aplicar seu raciocínio, o extermínio indígena teria que ser discutido com quem facilita invasão de terras ou sequestra curumins, pensar a tragédia de Mariana seria mais rico quando se ouvisse um defensor do interesse de mineradoras e uma conversa sobre o autoritarismo ganharia em legitimidade ao incluir quem defenda, por exemplo, prisão e exílio de seus opositores políticos. 

Aos que supostamente oprimem e silenciam os pobres conservadores, a repórter da Folha chama de “esquerda”. E, em outro artigo, lembra que o fato de o jornalista Glenn Greenwald ser recebido por bolsonaristas como alvo de rojões deve ser contextualizado porque a “esquerda”, sempre ela, também já fez muito disso — e, como exemplo, compara escracho e agressão física. Aos seus olhos, a Flip é o lugar em que a “esquerda”, essa incorrigível, “dá as mãos numa ciranda de energia positiva” enquanto o Brasil “acontece lá fora”. 

O busílis é que, desta vez, o Brasil aconteceu ali, dentro dos limites do centro histórico. Se a matilha de predadores da democracia ficou de fora da festa é porque fez-se a política como desentendimento, tomada de posição que não se confunde com ironia hipster. 

Para resumir, é a política, estúpido!

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).