Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

Contra os cretinos

A impaciência de Maria da Conceição Tavares é um bálsamo no Brasil devastado pela truculência e pelo conformismo

11nov2021 - 03h43 | Edição #51

“Penso no mundo, no meu país, na universidade, na minha família, trata-se de uma confusão, eu entro é em parafuso, eu sou incapaz de sentar e entrar em meditação transcendental.”

Assim falou Maria da Conceição Tavares, o Zaratustra dos exasperados, num dos vídeos de aulas e entrevistas que, como diz o clichê detestável, “viralizaram” em dois perfis do Twitter — @acervo_tavares e @acervotavares. Para quem, como este que vos digita, não consegue mais interagir com o Brasil sem ficar à beira de um ataque de nervos, a economista é um poço de placidez e equilíbrio. Praticamente o dalai-lama.

Conceição perde as estribeiras — não com os alunos, mas com as forças desembestadas da história, as alturas da filosofia e a crueldade da economia

Fumando sem parar, Conceição não sossega. Anda de um lado para outro diante do quadro-negro. Fala rápido, se atropela. Fala alto. Xinga. Grita. Perde as estribeiras — não com os alunos, mas com as forças desembestadas da história, as alturas da filosofia e, é claro, a crueldade da economia. 

Sua impaciência é ecumênica, mas especialmente dedicada à hipocrisia e ao cinismo, tão comuns entre tantos de seus pares que há décadas nos infelicitam. E também atenta à indigência intelectual dos que legitimam os cretinos: “Quando um analista recorre a ouvir o jargão udenista de que o problema é que são uns corruptos e uns canalhas, estamos conversados. Não tem teoria, nem razão, aliás, nem história. Tem simplesmente um chinfrim”.

Exasperada paixão

Tão importante quanto os pontos de vista que defende é a forma como o faz. Num contraponto fundamental aos intelectuais assépticos, camelôs da moderação e da tecnocracia, Conceição lambuza-se em suas convicções. Como toda mulher veemente, já foi a histérica da vez. Osso duro de roer, também despertou condescendência e sofreu a homenagem ambígua de virar personagem em programa humorístico. 

A exasperação, que a professora eleva ao estado da arte, é a parte maldita da inteligência. É sinal exterior de destempero e, por homenagear a impaciência, expressa vigor intelectual e paixão. É um recado, incômodo, de que não há tempo a perder repisando ideias vazias. E de que só existe ideia de verdade onde não há clichê.

A voz permanentemente exaltada nos lembra que a exasperação muitas vezes nasce de uma consciência aguda da injustiça

A pressa é amiga da exasperação. Com impressionante disposição de intervir e desassombro de analisar, Conceição prefere errar depressa a acertar devagar. Num dado momento defende que cultura crítica para valer, da literatura ao cinema, é com a “malta” do idealismo alemão. Artistas americanos como Spike Lee, Jim Jarmusch ou Scorsese têm, a seu ver, evidentes limitações, mesmo problema de um crítico como Marshall Berman, uma moda dos anos 80:

“Toda a miséria do mundo está no cinema americano. Só que eles não são capazes de aprofundar. Eles fazem dois filmes e terminou. Fazem um livro, que em geral é um bochorno completo, tipo aquele pobre daquele sujeito que veio lá do Bronx, a porra do Tudo que é sólido se desfaz no ar, que é uma salada gigantesca, você percebe que o sujeito está mais perdido que umbigo de vedete, que aquilo é uma salada, que ele não sabe do que está falando.”

A voz permanentemente exaltada nos lembra ainda que a exasperação muitas vezes nasce de uma consciência aguda da injustiça. Em Clara dos Anjos, Lima Barreto explica assim a gritaria que, no início do século 20, era comum nos subúrbios cariocas e, ainda hoje, marca os desassistidos, sempre à flor da pele: “O estado de irritabilidade, provindo das constantes dificuldades por que passam, a incapacidade de encontrar fora do seu habitual campo de visão motivo para explicar o seu mal-estar, fazem-nas descarregar as suas queixas em forma de desaforos velados”.

Hoje aposentada, aos 91 anos, Maria da Conceição Tavares sabe muito bem por que é impossível pensar o mundo de forma serena. Afinal, segundo ela o “careca Lênin” parece não ter mesmo entendido nada da revolução de 1905 e, na social-democracia europeia, só restou aos sindicatos traídos mandar os governantes “tomar no cu”. Não é com bons modos ou de cabeça baixa, nos lembra, que se pode enfrentar a truculência e a estupidez. Um bálsamo.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #51 em setembro de 2021.