Édouard Louis (Divulgação)

Crítica Cultural,

Afetos ferozes

Com o relato da morte do irmão mais velho, Édouard Louis encerra o ciclo de narrativas sobre a família que teve que abandonar para se tornar quem é

17out2024 • Atualizado em: 07nov2024 | Edição #87

Como o Mersault de Albert Camus, Édouard Louis reage impassível a uma perda em geral traumática. “Não senti nada quando soube da morte de meu irmão; nem tristeza, nem alegria ou prazer”, escreve ele na abertura de L’effondrement, lançado na França este mês, apenas seis meses depois de Monique se liberta. “Recebi a notícia”, prossegue, “como ficamos sabendo da previsão do tempo ou como escutaríamos o relato de alguém que passou a tarde num supermercado”.

Édouard Louis na Flip 2024 (Divulgação)

Para o protagonista de O estrangeiro, a distância emocional é a primeira manifestação de seu descompasso com o mundo — “Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem” —, início de intricada reflexão sobre a condição humana que seria uma das súmulas do existencialismo. Já aos olhos do narrador de Louis, personagem de si mesmo, a derrocada do mais velho dos irmãos Bellegueule, aos 38 anos, consuma com lógica implacável o destino daqueles que teve que abandonar e rejeitar para, num nietzschianismo selvagem, se tornar o que é. “A história de nossa família se assemelhava a uma tragédia”, diagnostica.

Louis escrevia L’effondrement — na versão de Marília Scalzo, sua tradutora na Todavia, O colapso, que será publicado em 2025 — quando foi interrompido por uma ligação de sua mãe, que pedia ajuda para se livrar de mais um homem violento. O resto é história, a história que se lê em Monique se liberta. O fato de um livro atropelar o outro, comentaria Louis em entrevista à Harper’s Bazaar, se justifica pelo que ele cultiva como uma “ética da literatura”: “se deixar convocar pelo mundo, não escrever em função de um programa literário, mas em função da urgência do mundo, daquilo que o atinge”.

Ainda que, em nossa mesa na 22ª Flip, Louis tenha garantido ser impossível a reconciliação com a brutalidade que moldou a primeira metade de sua vida — e o tenha feito a partir de uma sequência de “nãos” um tanto perturbadora —, Monique se liberta ainda sugeria algum nível de redenção. “Nossa reaproximação”, observa ele sobre a mãe, “não mudou apenas o futuro dela, mas também transformou nosso passado”. Em O colapso, que me parece o mais sombrio de seus livros, não há respiro possível: “Conhecer meu irmão era aprender a odiá-lo”.

Nutrido pela raiva dos que oprimem e movido pelo desejo de vingar os dominados, a dupla inscrição de sua literatura, Louis tenta reconstituir na escrita a vida de alguém que jamais chegou a conhecer para valer. Essa determinação bem objetiva faz com que O colapso não se organize em capítulos, mas em dezesseis “fatos”, dezesseis aspectos objetivos da vida do irmão. Todos eles envolvem violência onipresente, excesso de bebida, subempregos, falta de perspectiva, homofobia, episódios isolados de afetividade e, sobretudo, uma tristeza profunda, sem medida, inseparável da impotência própria aos onipotentes.

A Ferida

Abandonado pelo pai, tendo vivido às turras com o padrasto — o homem retratado em Quem matou meu pai —, o irmão é definido pelo que ele, Louis, chama de A Ferida. Uma marca profunda e incurável da “sentença social” carimbada na origem dos dominados e em geral confirmada por seu destino. “Para grande parte da classe operária, as feridas psicológicas não existem. Na turma de meu irmão, não se falava jamais em trauma, em melancolia, em depressão”, observa ele, destacando mais um dos muros entre classes, a saúde mental. “Se meu irmão estava ferido, ele não tinha um lugar onde pudesse dizer isso”.

Se toda a obra de Louis é o atestado de uma alforria social, ‘O colapso’ é a certidão de uma derrota inapelável

Essa Ferida, com maiúscula, deriva, no fundo, de aspirações um tanto fantasiosas, mas ainda assim expressões de um desejo de mudança, que o irmão viu derrotadas, uma a uma, pelas incontáveis formas de violência de classe. No final das contas, o “determinismo social”, em geral implacável, agiu de forma imperfeita naquele homem, que se debatia numa “areia movediça” de impulsividade e decepção. Se toda a obra de Édouard Louis é, em si, o atestado de uma alforria social e afetiva, O colapso é a certidão de uma derrota inapelável. O irmão, observa, não pôde lançar mão das “técnicas de fuga” que ele, Louis, encontrara no estudo, na vida intelectual, na literatura e no livre exercício da sexualidade.

Nos dez anos que se seguiram a O fim de Eddy, a estreia retumbante de 2014, Édouard Louis publicou, como autor ou organizador, dez livros — cinco deles dedicados a narrativas que abordam, no detalhe, a vida de sua família. Como poucos, conseguiu transformar o pessoal em político sem sacrifício da elaboração literária. “Disseram-me que a literatura nunca deveria soar como um manifesto político”, escreve em Lutas e metamorfoses de uma mulher, “e no entanto afio cada uma de minhas frases como se afia a lâmina de uma faca”. Uma faca que, a julgar por reações no mínimo intrigantes, encontrou os alvos corretos na vida pública francesa.

Nome aos bois

Em Quem matou meu pai (2018), Louis declina os nomes de políticos que, em anos recentes, reduziram benefícios sociais de forma drástica, acusando-os nominalmente pela derrocada física de seu pai, tornado inválido em consequência de um acidente de trabalho. “A história da sua vida é a história dessas pessoas que se sucederam para abatê-lo. A história do seu corpo é a história desses nomes que se sucederam para destruí-lo. A história do seu corpo acusa a história política”, escreve ele.

Menos de dez meses depois do lançamento do livro, um dos citados, Martin Hirsch, responsável por reformas no governo de Nicolas Sarkozy, lançou Como matei seu pai, romance de título sensacionalista que seria uma espécie de “resposta” a Louis, obtendo, conforme o previsto, generosa publicidade gratuita da imprensa. Em 2021, o jornalista Hervé Algalarrondo publicou Duas juventudes francesas, em que traça biografias paralelas de Louis e Emmanuel Macron, nascido na Picardia, mesma região do escritor, e objeto de alguns de seus ataques mais violentos. A conclusão, que parece preceder o factual, não causaria estranheza entre as mais populares análises da vida política brasileira: Macron, representante da direita em tese civilizada, disfarçada de centro, emerge do livro como uma liderança nata; Louis, em sua defesa de pautas de esquerda, não passaria de um tolo radical chique.

A julgar pelas recentes entrevistas de Louis, O colapso marca o fim das narrativas sobre a família, mas não o abandono do ponto de vista, em seu caso radical e consequente, de tomar a própria vida como matéria-prima da escrita. “Vou fazer uma exploração política da amizade e da sexualidade. Meu corpo será o pretexto para abordar esses assuntos”, disse ele ao excelente Ruan de Sousa Gabriel em O Globo. “Algumas pessoas doam seus órgãos depois de mortos. Eu vou doar meu corpo à literatura para tentar entender o mundo”.

Pelo que publicou até agora, eu não duvidaria.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #87 em novembro de 2024.