Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

A inocência impossível dos fascistas

Cada eleitor da extrema direita deve ser responsabilizado por cada arbitrariedade do governo que ajudou a eleger e sustentar

12nov2020 - 01h45

Poucos meses depois do fim da Segunda Guerra Mundial, em dezembro de 1945, Jean-Paul Sartre publicou na Les Temps Modernes o “Retrato do antissemita”. O ensaio é estranho ao espírito tíbio de nosso tempo: texto de combate, não perde tempo discutindo a discussão e defende com clareza e objetividade uma posição de enfrentamento. Sem meias-palavras, adverte para o tipo de gente que, à vontade durante a ocupação nazista na França, encontrou respaldo público para levar às últimas consequências o inimigo que inventou para si.

Sartre lembra como era então aceitável, no senso comum, que alguém manifestasse “opiniões antissemitas”. “A palavra opinião faz pensar”, escreve ele. “Ela sugere que todos os pontos de vista são equivalentes, ela assegura e confere às ideias uma fisionomia inofensiva, assemelhando-as ao gosto.” Gosto não se discute, observa, opinião se debate e discurso ódio se combate: “Me recuso a chamar de opinião uma doutrina que visa expressamente pessoas particulares e que tende a suprimir seus direitos ou exterminá-las”. O antissemitismo, propõe ele, não é questão de opinião, pois é uma paixão.

A atualidade de um texto 75 anos depois de publicado diz menos do visionarismo de seu autor do que do retrocesso político generalizado. E eis que, no calor da derrota de Donald Trump, multiplicam-se os discursos de desresponsabilização dos que o levaram ao poder. O wishfull thinking dos covardes sugere que, dos mais de 70 milhões cidadãs e cidadãos que gostariam de manter Trump na Casa Branca, nem todos comungam de fato com suas propostas.

Em mais uma prova de nossa vocação para epígono, tem-se ouvido por aqui ecos da complacência da França antissemita e da contemporização fascistoide do eleitor americano. Enquanto sonham com um Biden para chamar de seu, comentaristas e políticos relativizam o quanto podem a expressão reiterada, acachapante, dos discursos de ódio. Por um curioso raciocínio, no Brasil de 2020 quem vota em fascista não é fascista.

A cada dia, o que parecia ser uma complexa questão política mostra seu lado pragmático: difícil não cogitar que se trata de uma questão de clientela. Analistas políticos não chamam de fascistas os eleitores de fascistas para não perderem seus likes – preferem viver boiando no Centro imaginário do espectro político, esperando a melhor onda para pegar carona. Políticos, por sua vez, não chamam de fascistas os eleitores de fascistas para, quem sabe, tentarem amealhar seus votos. A maioria virtuosa concorda, grave, que o governo de extrema direita é uma calamidade, ainda que, numa conta que não fecha, seus eleitores pouco tenham com isso.

Cúmplices

Convivo proximamente com bolsonaristas, que vivem sob a paixão do fascismo. Pacíficos no trato, acham que só a violência, cada vez mais extremada, poder deter a violência; ofendem-se quando chamados de racistas, mas acham natural que negros morram mais, morem pior e estudem menos do que brancos; nada têm contra os homossexuais, desde que saibam “se comportar” em público. Já discuti, mas não briguei com nenhum deles, não tento convencê-los do contrário. Mas não perco a chance de lembrar que eles são, sim, cúmplices de atrocidades das quais às vezes até reclamam – não querem morrer de Covid, mas têm certeza de que somos vítimas da conspiração chinesa.

Por vias perfeitamente legais, pelo voto, os bolsonaristas não manifestaram em 2018  uma “opinião” fascista, mas botaram em marcha sua paixão, discurso inseparável da ação. Quando um invertebrado relativiza estupro a pretexto de debatê-lo, ele não expõe um “ponto de vista” sobre a violência sexual, ele é cúmplice, legitimador e corresponsável pela violação. Quando hordas de desqualificados ocupam a rua em protesto contra o que chamam de “vaChina”, não estão exercendo seu direito de expressão – além de se exporem a um merecido ridículo,  atentam seriamente contra a saúde pública. Quando um líder genocida culpa a baixa resistência dos mortos pela extensão de uma pandemia não restam muitos eufemismos para qualificá-lo.

Os contemporizadores patológicos, com fins lucrativos, continuam atenuando o comportamento patológico da extrema direita brasileira e disfarçando a escalada fascista como uma questão de opinião. Curiosamente, quando escrevem sobre Trump, não medem palavras. A teoria política de wikipedia até pode explicar isso, mas eu prefiro o doutor Aldir Blanc, que imortalizou num verso a bravura pátria: “Quando o pastor late forte/ O bassê faz piu piu”.

O colunista publica quinzenalmente no site da revista dos livros.

 

 

 

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).