Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

A indignação desmoralizada

Ênfase pública de convicções pessoais, ela virou tapa-sexo de omissos e arrependidos

09maio2019 - 18h06

Nem a indignação escapou à fúria demolidora da autocracia tuiteira. Ênfase pública de convicções pessoais, a indignação virou o figurino mais confortável para que omissos de ontem e arrependidos de hoje cubram suas vergonhas. E desfilem por aí dando pinta de conscientes – os primeiros como eloquentes defensores dos princípios democráticos, os segundos tomados por aquela fúria anestesiante de consumidor ludibriado. Ainda que uns e outros continuem a não querer se misturar, até há pouco eram parças, alimentando a ideia de que todos os males do país provinham de uma esquerda incompetente, desonesta e perversa por natureza, monstro de desenho animado que foi o melhor cabo eleitoral do presidente eleito.

É comovente ler as jeremiadas contra a turma da Virginia assinadas por gente que vinha atuando como sommelier de debate. De seu crivo higienizado pela isenção saíram rotundas condenações ao uso do termo “fascista” para designar sinteticamente o pelotão obscurantista. Advertiram ainda para o erro de a oposição se designar “resistência”. E, também, denunciaram uma reedição de “patrulhas ideológicas”, forma que encontraram de desqualificar todo crítico que aponta posições reacionárias de quem se acredita progressista. 

Bem menos intelectualizados, muito mais pragmáticos, os arrependidos estão onde sempre estiveram, na grita contra o que consideram agressões a seus valores, morais ou pecuniários. Para eles, políticos de esquerda, corruptos ou honestos, bem ou mal-intencionados, continuam a fazer parte de um mesmo bonde do mal, sejam eles assaltantes dos cofres públicos ou responsáveis por medidas de redistribuição de renda. São contra a tal da velha política. Da nova, sabem pouco, mas vivem o transe de um perverso desbunde conservador, desreprimindo todos os preconceitos de classe, raça, e orientação sexual.

Não custa lembrar que indignação não é certificado de consciência. Hélio Pellegrino, a quem biografei num livrinho lançado em 1998, era um sujeito permanente alterado pelas causas em que acreditava, da justiça social à democratização da psicanálise. Por isso, batizei o perfil como A paixão indignada.  A prova dos nove do título estava na própria trajetória do poeta e analista, vida inteira dando a cara a tapa, tomando sempre os caminhos mais difíceis, insistindo em remar contra a maré nas ruas e no divã. Socialista histórico, “eventualmente histérico” como ele mesmo dizia, Hélio era aquele homem de Maiakovski, anatomia enlouquecida, todo coração.

A indignação, infelizmente para ex-isentos e arrependidos, não independe da história de quem a manifesta. São bons exemplos disso as patéticas tentativas de apropriação de ação de minorias – quando se fala em dia do orgulho hétero, por exemplo, como “contraponto” a ações afirmativas  – e o engajamento de pais e mestres na patacoada chamada Escola Sem Partido – movimento que denuncia em outros o que realmente se quer fazer, ou seja, uma educação ideologizada.

É difícil, portanto, levar a sério essa indignação que se faz ouvir cada vez mais nos primeiros meses de nossa Idade Média tropical. E tanto mais difícil quando se manifesta, principalmente, na assembleia permanente das redes sociais. Como em todo lado, há nelas gente bem e mal-intencionada, com ou sem legitimidade. Mas o que predomina mesmo é o jacobinismo de bermudas, imprecando contra tudo e todos a partir da confusão, por ignorância ou má fé, de grito com argumento.

Um Fradinho do Henfil estaria se escangalhando de rir ao ver as milícias digitais justiçando os isentões convertidos ao mal – ou seja, criticando o governo – e trucidando os estridentes arrependidos, esses traíras. É impagável o momento de rendição em que o bacana declara, compungido, a seus amigos virtuais: “Nunca pensei que fosse compartilhar um post de _____ [preencha o nome que achar melhor, há vários à disposição]”. Ou que o minion de classe média tira do fundo de sua alma patriota o rotundo “basta!” – só que agora aplicado àquele que há tão pouco tempo era mito

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).