Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

A hora do Jair

Na contramão do doisladismo e da moderação com fins lucrativos, livros pegam o bolsonarismo a unha para melhor entender o que passou e ainda está por vir

01dez2022 - 05h51 | Edição #64

Quando já passa da hora do Jair já ir embora, ficam os esforços de intelectuais e jornalistas em confrontar o fascismo com as armas de que dispõem — a análise empenhada e a rigorosa apuração dos fatos. A tarefa, teoricamente trivial, tornou-se cada vez mais espinhosa com a galopante degeneração do debate público, sobretudo a partir do golpe de 2016. Enfrentando os operosos partisans da extrema direita e as variadas cepas de dissimulados colaboracionistas, esses esforços ajudam a dar sentido aos anos mais infames da história recente do país.

Dentre as dezenas de livros publicados em 2022 na tentativa de interpretar o pesadelo autoritário, selecionei os que, a meu ver, colaboraram para tornar mais nítido o desenho da barbárie transformada em política de Estado. Todos têm em comum o risco de se debruçar sobre o presente sem descuidar do rigor, tornando-se assim importantes documentos dos ataques sistemáticos à democracia brasileira, ataques perpetrados ativamente pela extrema direita e corroborados pela suposta neutralidade de comentadores que, nos quatro últimos anos, ganharam a vida como camelôs de moderação.

Lançamentos tornam mais nítido o desenho da barbárie transformada em política de Estado

Não custa lembrar que qualquer lista traduz necessariamente um ponto de vista singular, é sinônimo de liberdade especulativa e, muitas vezes, expressão de idiossincrasia. Por isso, qualquer lista pode se dar ao luxo de ser parcial, incompleta e, dependendo do freguês, descartada pelas eventuais injustiças que comete. Posso garantir no entanto que, na relação que segue, não cabem noções de falsa equivalência ideológica, demonização de ativismos sob o espantalho do “identitarismo”, clicheria de “polarização” ou princípios do pluralismo tabajara — também conhecido como doisladismo. Lista é um convite à discussão, à divergência e à dissonância — os três “dês” que o colunista deseja aos leitores para 2023, primeiro ano do resto de nossa história democrática.

Sobre chinelos e pistolas

A República de chinelos: Bolsonaro e o desmonte da representação (Editora 34) é uma das interpretações mais argutas e surpreendentes do Brasil bolsonarista. Luciana Villas Bôas parte de três imagens do poder que marcaram a era de boçalidade: a pose do presidente, ao lado de ministros, usando chinelos, calça de moleton e paletó; o pronunciamento a seus apoiadores transmitido de uma área de serviço para a Avenida Paulista; e, finalmente, o destempero da deprimente reunião ministerial de 2020. Destinadas a identificá-lo com o “homem comum”, contra o sistema, estas representações destroem a ritualística do poder e deixam a descoberto “o abuso do arbítrio, o monopólio da obscenidade”.

Professora do departamento de Letras Anglo-Germânicas da ufrj, Villas Bôas convoca o historiador de arte alemão Aby Warburg e toda uma bibliografia pouco frequente na teoria política em sua leitura do “desmonte da representação” promovido por um governo cujo talento predador ficaria mais óbvio em outras frentes. Em texto cristalino, livre de jargão, analisa ainda as imagens de eleitores fotografando pistolas nas urnas eletrônicas em 2018, “imagem-golpe” da arenga conspiratória que antecedeu a derrota de 2022 e continua reverberando nos esgotos bolsonaristas.

Um sistema antisissistema

Em Limites da democracia: de junho de 2013 ao governo Bolsonaro (Todavia), Marcos Nobre concilia a imediatez própria das análises feitas “a quente” com a ambição de balizar caminhos pelos quais desembocamos no Brasil desolador de 2022. Trata-se de percurso acidentado, que Nobre percorre evitando os atalhos mais frequentados pelos analistas — em suas palavras, é importante desfazer “amálgamas” que unem por relações simplificadas os protestos de 2013, Bolsonaro e as novas direitas, bem como ideias prontas como “crise da democracia” ou “regressão fascista”.

Ao filósofo, hoje presidente do Cebrap, interessa, por exemplo, como a energia contestatória das ruas foi “vampirizada” pela Lava Jato e, assim, dissociada de qualquer possibilidade de mudança. A operação contra a corrupção “conseguiu de fato impedir o sistema político de retomar o controle da política” na mesma medida em que foi pródiga em alimentar turbulências e um desorientado “impulso antissistema”. Nessa várzea política e institucional, o Capitão não nasce exatamente como um candidato orgânico e natural da República de Curitiba. Ele passa a ser, isso sim, o nome mais viável depois que o bem azeitado lawfare pátrio se encarrega de prender o favorito nas pesquisas — hoje reeleito para seu terceiro mandato.

Lista é um convite à discussão, à divergência e à dissonância — os três “dês” desejados para 2023

Conceitos como “presidencialismo de coalizão” e “peemedebismo” são escrutinados minuciosamente por Nobre para tornar mais inteligível a barafunda do passado e iluminar as possibilidades de futuro. Ou pelo menos do tanto que resta a fazer depois de dado o primeiro passo — a derrota, nas urnas, da camarilha obscurantista.

Trollagem acima de tudo

Do que se trataria, afinal, o conjunto de práticas e valores a que chamamos “bolsonarismo”? Publicados no Brasil e no exterior em 2020 e 2022, os sete ensaios reunidos por Rodrigo Nunes em Do transe à vertigem: ensaios sobre bolsonarismo e um mundo em transição (Ubu) oferecem hipóteses nutridas pela experiência bruta e fermentadas na reflexão teórica. Afinado com a extrema direita internacional, o militar incompetente, improdutivo deputado do baixo clero, soube, segundo Nunes, engajar uma ampla base de adeptos promovendo “a confusão entre a ansiedade em torno da perda de direitos e o medo de perder privilégios”.

Dos diversos aspectos analisados no livro — das relações entre bolsonarismo e empreendedorismo à demolição da lereia da “polarização” — meu favorito é o que tipifica o uso perverso das redes como estratégia fundamental dos seguidores do Cavalão. “Cada trollagem bem sucedida produz uma onda de ultraje que leva milhares de pessoas a divulgar o material ‘polêmico’ e sua fonte aumentando sua circulação, visibilidade e viabilidade financeira ou eleitoral”, observa o autor e filósofo, explicitando a fórmula de sucesso do gabinete do ódio pelo menos até a entrada em cena do grande fator surpresa de 2022: o janonismo.

Vida militante

Ninguém disse que seria fácil (Boitempo) é uma reflexão vibrante e não destituída de ironia sobre a militância socialista, vilipendiada em diversos graus de cinismo por neoliberais de banho tomado ou brucutus da extrema direita. Na defesa do que define como “internacionalismo marxista”, Valerio Arcary atuou na Convergência Socialista e em uma miríade de siglas: cut, pt, pstu. Hoje no psol, reafirma suas origens no trotskismo diante das ameaças de um presidente que prometia acabar com ativismos.

Em capítulos curtos, quase verbetes, percorre ideais e procedimento com base em sua vivência: amizade e sofrimento, cancelamento e maniqueísmo, trabalho de base e paciência, solidariedade e oportunismo. É, pela inteligência e estilo, uma homenagem aos que não se deixaram acanalhar por consensos fajutos ou pelo rato que ruge do que Graciliano Ramos chamava de “pequeno fascismo tupinambá”. Afinal, lembra Arcary, ninguém disse que ia ser fácil.

Paixão de ser o que é

No início desse ano, Bianca Santana ouviu da boca de um Lula candidato que a “pauta identitária” afastava as mulheres negras da “política para o povo”. O que a ela soou como um equívoco do presidente hoje eleito só fez reafirmar sua convicção de uma leitura política racializada, defendida em artigos publicados entre 2017 e 2022 e agora reunidos no volume Guiné e arruda: Resistência negra no Brasil contemporâneo (Fósforo).

Biógrafa de Sueli Carneiro, a autora analisa os muitos episódios em que se cruzam racismo e ódio de classe, reverencia a memória de Lélia Gonzalez e da soberba poeta Tula Pilar e sublinha as mais diversas manifestações da branquitude, o identitarismo naturalizado. À qualidade das intervenções, soma-se um utilíssimo glossário de “redes de socioativismo, marcos jurídicos e patrimônios negros” que também ficam como registro histórico das mais contundentes ações antirracistas. No prefácio, Edson Lopes Cardoso sublinha “a paixão de ser o que se é” de que esse livro é consequência e causa.

Grandes negócios

Em um país menos avacalhado, com instituições menos depreciadas, uma reportagem minuciosa e demolidora como O negócio do Jair (Zahar) seria suficiente para, pelo menos, decretar a derrocada política de seus protagonistas. A jornalista Juliana dal Piva vai ao fundo do fundo de um sistema de corrupção que tem as digitais do Capitão, de seus filhos, ex-mulheres e amigos fraternos. Que as abundantes denúncias formais contra a gangue não tenham prosperado como deveriam no judiciário é mais uma evidência dos danos que o “clã Bolsonaro” vem impondo ao país.

Da primeira candidatura à vereança pelo Rio de Janeiro à chegada ao Planalto, Jair se mostra um laborfóbico de quatro costados: sem jamais pegar no batente ou produzir algo para alguém, constrói com afinco os múltiplos dutos para que dinheiro fácil corra entre os seus. Tendo como coadjuvantes Fabrício Queiroz, Frederick Wassef e o cadáver do miliciano Adriano da Nóbrega, O negócio do Jair daria uma excelente série de ficção — não fosse a trama true crime financiada pelo dinheiro público.

Notícias do serpentário

A chamada “nova direita” congrega o que há de pior na vida pública brasileira. Golpistas, conspiradores, corruptos, racistas, misóginos, homofóbicos e armamentistas estão entre os que, em níveis diferentes, apoiaram e articularam a ascensão do Führer de chanchada. Com subtítulo longo e autoexplicativo, O ovo da serpente — Nova direita e bolsonarismo: seus bastidores, personagens e a chegada ao poder (Companhia das Letras) capta os movimentos sinuosos do levante reacionário que deixa marcas profundas na vida pública brasileira.

Mais do que estabelecer uma cronologia, a jornalista Consuelo Dieguez reconstitui com detalhes os instantes decisivos da escalada autocrática, a começar pelo atentado de Juiz de Fora, impulso decisivo para a vitória em 2018. É particularmente revelador o capítulo dedicado ao que “a imprensa não viu” — nos preparativos para uma sabatina na Globonews e para a tradicional entrevista de candidatos à presidência ao Jornal Nacional desenha-se a estratégia, finalmente bem sucedida, de escantear a lógica e a polidez para produzir um mínimo de sentido e um máximo de sensação. Há momentos de pura diversão, como os dedicados ao alto conceito de Janaina Paschoal junto ao Capitão.

Para facilitar nossa vida — e, quem sabe, a das autoridades responsáveis — O ovo da serpente relaciona, em 25 páginas, os personagens essenciais dessa história. Alguns se dizem arrependidos do apoio empenhado na aventura autoritária, uns poucos seguem fiéis ao Mito e a maioria desconversa, em um silêncio ensurdecedor que, não tenhamos dúvida, ainda dará pano para manga.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.