Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

A cidade interminável

Em ‘Sempre Paris’, a tradutora Rosa Freire d’Aguiar rememora os dias de jornalista com excelentes entrevistas e suculento ensaio pessoal sobre a vida francesa entre os anos 70 e 90

09nov2023 - 11h13 | Edição #75

No princípio Paris era a porta de vidro que, talvez animada por forças ocultas ou vontade própria, se abriu à passagem de uma jovem repórter brasileira no aeroporto de Orly. Rosa Freire d’Aguiar não tinha notícia de tal prodígio tecnológico e, ao rememorar seu espanto, dá a dimensão da novidade que representavam para ela, em 1973, a cidade onde desembarcava e a vida de correspondente que nela se iniciava.

Publicado cinco décadas depois daquela tarde de setembro, Sempre Paris cumpre de forma original o roteiro do subtítulo — Crônica de uma cidade, seus escritores e artistas. Reúne 21 excelentes entrevistas e, no primeiro terço de suas 360 páginas, um suculento ensaio pessoal que, a partir de memória e pesquisa, evoca a vida francesa entre as décadas de 70 e 90, dos movimentos vistosos da política às miudezas do comportamento. 


Sempre Paris, de Rosa Freire d’Aguiar, procura mostrar uma cidade complexa, longe de idealizações e livre de nostalgia ou saudosismo

Nas entrevistas, há prosa para todos os gostos: os finos raciocínios de Roland Barthes, a contundência de um Julio Cortázar intensamente militante, a piração constitutiva de Romain Gary ou a austeridade de Simone Veil, a sobrevivente de Auschwitz que, quando ministra da Saúde, descriminalizou o aborto na França. No ensaio, humor e ironia evitam a autorreferência pura e simples. E decantam a paixão genuína por Paris, sem a qual o livro não existiria, da admiração irrestrita tão frequente no que Jorge Semprún, um dos entrevistados, chama de “parisianismo”.

Na cidade em que Rosa desembarcou andava-se de carro, dirigindo, para cima e para baixo. Como num filme de Godard, fumava-se desbragadamente e onde desse na telha. Telefone, público ou particular, era raridade ou luxo. Entre estrangeiros, recém-chegados ou já aclimatados, não era incomum viver em hotéis sem elevador ou banheiro e chuveiro privados. Na melhor das hipóteses, conquistar um teto todo seu era dispor de pouco mais do que um teto, em geral um minúsculo studio, “versão gaulesa dos já-vi-tudo cariocas”.

No trânsito entre a literatura e a vida, entre o complexo e o banal, ‘Sempre Paris’ abre-se para além da vida puramente intelectual e literária

Sempre Paris não se dedica à missão impossível — e inútil — de separar a cidade de seu folclore. Mas procura mostrar uma cidade complexa, longe de idealizações e livre de nostalgia ou saudosismo. Dá testemunho, isso é certo, de dias mais favoráveis ao trabalho intelectual como um todo — e ao jornalismo em particular. Os números são eloquentes: naquele 1973, estimava-se que Paris tinha algo como 1 500 livrarias (hoje, nas contas de Rosa, são menos de quinhentas) e em todo o país circulavam “150 suplementos e revistas literárias”.

A Paris-cabeça sextava na TV, quando ia ao ar o Apostrophes, programa de entrevistas com escritores apresentado pelo histriônico Bernard Pivot, “filho de um quitandeiro de Lyon, sem diploma universitário, e que encarnava à perfeição o leitor médio francês, esse que gostava de ler mas não se via como um intello, muito menos como um penseur”. Nas manhãs de sábado, a moda era circular pela recém-aberta FNAC — onde se podia encontrar os lançamentos comentados na noite anterior e, “rezava o folclore literário”, encontrar almas gêmeas em potencial.

Trânsitos

Não foi nos corredores da livraria do momento, mas em torno de uma feijoada bem brasileira que Rosa conheceu Celso Furtado, com quem se casaria. Com a redemocratização, o economista não só voltaria ao Brasil como se tornaria ministro da Cultura. A proximidade com o poder indicaria, para Rosa, um conflito de interesse decisivo com a vida jornalística. Para nossa sorte, nascia assim, na década de 90, a tradutora premiada que, dentre tantos autores, vem se dedicando à complexidade de Louis-Ferdinand Céline, Montaigne, Sade e, mais recentemente, Proust.

A nova profissão, aliás, já vinha se desenhando, sem que ela o soubesse, no atropelo do cotidiano parisiense. Nos balcões de zinco dos cafés, entre a zoeira de fliperamas e a trilha sonora de jukeboxes, aprendia “o que as aulas de francês dificilmente ensinavam”. Confrontada com problemas domésticos, seria apresentada aos três termos com que se nomeia uma prosaica tampa de privada. E logo perceberia a dificuldade de se haver com “as setenta fórmulas de despedida de uma carta, sendo algumas exclusivas de mulheres e outras de homens”.

Como entrevistadora ou ensaísta Rosa Freire d’Aguiar vai direto ao ponto — o que, convenhamos, não é lá muito francês

No trânsito entre a literatura e a vida, entre o complexo e o banal, Sempre Paris abre-se para além da vida puramente intelectual e literária. Rosa cobriu o processo de redemocratização da Espanha, entrevistou o aiatolá Khomeini nas vésperas de tomar o poder no Irã e testemunhou capítulos conturbados das disputas territoriais entre israelenses e palestinos — coberturas que dariam, sem esforço, um outro livro.

Histórias saborosas à parte, e elas se multiplicam na leitura, Sempre Paris é um elogio da simplicidade, da boa e velha relação entre inteligência, clareza de expressão e honestidade intelectual. Como entrevistadora ou ensaísta Rosa Freire d’Aguiar vai direto ao ponto — o que, convenhamos, não é lá muito francês. Ouf! 

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.