Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

Tudo é movediço

Romance narra a volta para casa de nordestino que vive os infortúnios da dura poesia concreta da capital paulista

12abr2022 - 11h12 | Edição #57

“Quando a vida é semelhante a roupa lavada em indigência, qualquer resposta é também uma pergunta. Porque tudo é movediço.” O narrador de Dilúvio das Almas se apresenta a partir de um lugar de instabilidade. Não há certeza sob seus pés porque é a própria vida que é incerta, jogada à sorte da penúria. A privação faz com que as coisas estejam sempre em movimento. Apesar de instável, é também um lugar bastante específico. Logo descobrimos que Leonardo, o narrador onisciente, empreende uma viagem de retorno. De São Paulo passa por Canudos e Juazeiro do Norte para chegar a Dilúvio das Almas, sua pequena cidade natal, que dá título ao primeiro romance do poeta e monge beneditino cearense Tito Leite. A indeterminação não vem apenas da roupa lavada em indigência. Leonardo não se vê como alguém que compartilha todas as condições de uma situação social; pelo contrário, deixa expressamente claro que estamos diante de uma personalidade rebelde, que não se encaixa em qualquer mundo — ou qualquer cidade.


Dilúvio das Almas, de Tito Leite

São Paulo é fonte de sucessivas humilhações. O cortiço, o sopão da paróquia, a recusa de ser atendido em restaurantes e as pichações contra nordestinos fazem de Leonardo não só um nômade, mas um pária. Em suas interações com intelectuais da Vila Madalena que davam atenção ao “baiano vendedor de artesanato”, aprendia sobre filósofos porque as conversas incluíam petiscos, que muitas vezes serviam de jantar. “Eu não sou de rebanhos nem sigo manadas. Prefiro vaguear em círculos a beber a vida nos vinhedos de quem formula uma pirâmide social.” Tudo em São Paulo é hierarquia, enredada pelas vinhas de uma pirâmide social que se manifesta a todo tempo.

A volta para o Nordeste é decidida como em uma profecia. Um vizinho, também nordestino, ajuda em um momento de fome e anuncia que o chamado de Leonardo é outro e que “vocação Deus chama, e cabe ao homem responder”. Leonardo parte para perto de Canudos, para trabalhar como professor em uma fazenda, apesar de só ter o ensino médio completo. A chegada de ônibus revela seu primeiro encontro com a violência armada, com a notícia do assassinato daquele mesmo vizinho. Ele viaja então para Dilúvio das Almas, como para satisfazer a segunda parte de seu destino, flertando com a parábola do filho pródigo.

Instabilidade

“Eu sempre fugi de Dilúvio das Almas. Se eu fosse escrever um livro com personagens desse lugar, colocaria na dedicatória: Para minha cidade, que nunca amei.” Se São Paulo é fonte de sofrimento, a cidade natal não é propriamente um casulo. Leonardo não consegue encontrar acolhimento nas relações familiares ou na difícil convivência com a vida de rixas e brutalidade explícita. Somos lembrados a todo tempo dessa instabilidade, de maneira quase cansativa. “Nada na minha vida é linear”, “meu desapego é o meu nada que me completa”, “meu coração não cabe em nenhuma pátria”, “não sou homem de genealogia; dentro de mim, enveneno toda e qualquer sensação de pertencimento”, “não penso em nada, nem crio expectativas para dias vindouros, o que me encanta é correr perigo”. Parte dessa personalidade é associada a um flâneur: “Não demorou muito, vendi o que possuía. Joguei no chão minha capa de super-homem. Vesti meu terno de homem invisível. Sou exímio em sumir no mundo. (…) Aumentei meu vocabulário e escrevi a palavra ‘flâneur’”. A outra parte é associada a um desprendimento com ares de cretinice: “O que quero nessa rápida temporada são novas amantes todas as noites. Não sou de procurar pérolas que se desmancham nas mãos”.

Dilúvio das Almas será um ponto de transição para Leonardo, que acredita não conseguir fincar raízes ou assumir papéis sociais. “Nenhuma cidade é fácil. Andar pelos becos nus de Dilúvio das Almas não é para principiantes. Os muros, os galhos, as pontes e os rios pulsam encanto e horror.” Ele passa a ser impregnado por sentimentos de justiça e vingança que impedem a diferença em relação aos velhos laços no sertão. Passa a investir no mundo e, portanto, a seguir a profecia contra a qual tanto lutou. “A espessura belicosa da cidade me deixa um pouco truculento”, diz ao acertar uma garrafa na cabeça de um homem que paquera Simone, uma de suas amantes que, contrariando toda a instabilidade anunciada, se torna fixa. “No que sou deserto, sou multidão. Ao mesmo tempo, quero permanecer quietinho e transar com Simone.”

São Paulo é fonte de sucessivas humilhações. Leonardo não é só um nômade, mas um pária

Não só se torna violento, mas também pedante. Em uma conversa sobre vingança diante de um assassinato brutal, afirma que pensa em dizer algo “socrático” e que “soa superficial jogar ao ar uma frase filosófica que aprendi em bares”. Em uma conversa com Simone sobre o status de sua relação, diz: “Não sabemos o que somos. Há algo de grande, de levantar o queixo, acontecendo. Se permita. Ontem já foi. O que temos é apenas esse instante que velozmente passa”.

A transformação do personagem é também uma transformação entre cidades. Da hierarquia gritante à necessidade de pertencer pela brutalidade, Leonardo se torna um assassino que também morre, completando seu destino. “Já não sou um estrangeiro na minha terra. Já não sou um deslocado. Sou apenas mais um dos seus filhos. Agora estou em casa.” Repleto de imagens bíblicas, o livro combina lirismo e frases curtas, com referências que também se voltam à filosofia. Narra a transformação de um homem que passa a sentir saudade de ser um peregrino na terra, sem lugar. Mas a cidade é seu destino. Se São Paulo o expulsa, Dilúvio das Almas o acolhe para a morte.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #57 em fevereiro de 2022.