Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

Roteiro dos deslocados

Romance de uma das principais vozes da literatura libanesa trafega por uma Londres atravessada pela imigração árabe

01jan2023 - 08h51 | Edição #65

Apesar de Samir praticamente não ter tirado os olhos de Nicholas durante todo o trajeto desde o aeroporto, ele notou que tinham desaparecido os jardins, as áreas verdes e as grandes construções. Era como se ele estivesse em Beirute, na rua Mazraa, mais precisamente. Restaurante, farmácia, dentista, clínica de hemodiálise, imobiliária, todas as placas em árabe: “Entre! Você encontrará tudo o que lhe agrada. Falamos árabe”; remoção de pelos indesejados com as mais avançadas técnicas, Café Moonlight, Maruch, Sucos Ranuch, Beirut Express, Loja A Elegante. Por toda parte, árabes com suas túnicas, dichdachas brancas e abaias pretas, ou com roupas modernas.

Chegar de avião a uma cidade que não conhecemos pode ser uma experiência de desorientação. Muitas pessoas aglomeradas, de diferentes países, com o único propósito de efetivamente chegar à cidade de destino. O desconhecido desorienta: nossos passos precisam ser guiados, seja por placas ou por mapas, e a atenção necessária para nos locomovermos no espaço deve ser redobrada. Mas o estranhamento relatado por Samir é de ordem distinta. Sua expectativa é rompida ao chegar a Londres e todos os sinais das ruas remeterem a Beirute. Um deslocamento que não desloca, ao menos não na aparência. Viajar para chegar ao mesmo lugar também pode ser desnorteador.

— Meu Deus! — exclamou ele, involuntariamente. — É inacreditável! Transportaram a rua Mazraa pra Londres! Eu me lembro de quando meu pai, que Deus o tenha, levava a gente no cine Salwa e comprava pãezinhos com zaatar. Eu queria sentar na primeira fila pra poder tocar os atores. Mas onde estão Piccadilly Circus, Oxford Street e o Big Ben? Cadê a neblina, a neve e o frio?


Gente, isso é Londres é o primeiro livro traduzido para o português de Hanan Al-Shaykh, uma das principais vozes da literatura libanesa

As ruas londrinas se espelham na rua Mazraa e as memórias de infância voltam à superfície. Mas não é Beirute, ainda é Londres. E o que Samir espera de Londres é outra coisa. Ele é um dos personagens de Gente, isso é Londres, primeiro livro traduzido para o português de Hanan Al-Shaykh, uma das principais vozes da literatura libanesa. Samir é um dos focos narrativos do romance, junto com Lamís, uma mulher iraquiana recém-divorciada; Amira, uma garota de programa marroquina; e Nicholas, o único personagem inglês, estudioso de arte islâmica. Todos eles estão lidando com chegadas e partidas — e com a vida que se molda em meio às movimentações. E estão também tentando apreender Londres. 

O título do romance permite, deliberadamente, duas leituras. Gente, isso é Londres é um chamado para entender que a capital britânica é estruturalmente atravessada pela imigração dos países árabes. As placas das ruas, os cheiros e os sons contam essa história. Não é algo que se sobrepõe, como uma camada posta por cima de um tecido urbano — é isso que é Londres, ainda que as representações tradicionais que fazemos da cidade sejam muito distantes dessa imagem. Mas há também outra leitura do título. Cada um dos personagens está buscando o que Londres é. E aqui não estamos falando apenas do espaço construído e das relações sociais e culturais que conformam uma cidade, mas de projetos de vida.

Amira, cuja estratégia de sobrevivência na capital é fingir ser uma princesa para enganar homens ricos em hotéis, vê a cidade a partir do luxo que ela pode oferecer. A caminho do Hyde Park, “não resistiu à tentação e parou para apreciar as belas flores, a fonte e o arco do triunfo Marble Arch. De lá, seguiu para Bayswater e pensou: ‘Eu tenho que morar aqui! Essa é a verdadeira Londres’”. Nicholas, que já tem na capital londrina sua cidade natal, “odiava aquele recorrente sentimento de solidão e nostalgia que o dominava toda vez que regressava a Londres, após uma viagem a Omã. Mas o que ele queria? Que o sofá abrisse os braços e o abraçasse, ou que as almofadas apertassem sua mão, dando-lhe boas-vindas?”.

Todos eles estão lidando com chegadas e partidas; e com a vida que se molda em meio às movimentações

Mas a personagem que talvez tenha a relação mais íntima com a cidade é Lamís. Tendo morado por anos em Londres, seu movimento é de redescoberta após a separação. Ela percebe que seus vínculos pessoais, todos com imigrantes árabes, a não ser pelos médicos, foram perdidos junto com o casamento: “Os ingleses seguiam sendo inacessíveis para ela, assim como a cidade. Os lugares são pessoas e as pessoas com as quais ela tinha alguma relação eram a cantora, alguns médicos e o general”.

Entrecruzamentos

Se, por um lado, Londres é inóspita, por outro cria as condições de libertação. Lamís toma uma série de decisões para evitar uma vida provisória. A lista inclui encontrar um apartamento e usar metrô e ônibus em vez de táxi para economizar, mas também deixar de usar lápis preto nos olhos ou de comer comida árabe, que a faz lembrar dos dias de infância e de casa. É nessa cidade tão exigente em termos de identidade e adaptação que ela também pode se ver como uma mulher divorciada, que pode beijar um recém-conhecido em público, em uma exposição no museu.

Gente, isso é Londres nos leva pelas ruas da cidade a partir de quatro olhares imigrantes e deslocados. Seus entrecruzamentos revelam projetos e negociações distintos com o mundo e levam a situações curiosas e engraçadas geradas pelas estratégias de sobrevivência. O livro não serve de guia a “outra” Londres — o Hyde Park é tão verdadeiro quanto as placas em árabe nas lojas. A cidade é formada por atravessamentos e desajustes, e isso é Londres.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #65 em outubro de 2022.