Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

Espaços legíveis

Filósofo francês parte de metáfora da cidade como texto para explorar os aspectos estéticos e políticos do meio urbano

30maio2021 - 20h00 | Edição #46

A lista de metáforas para fazer referência a cidades é bastante extensa. Na sociologia urbana, a ideia de mosaico foi utilizada pela Escola de Chicago para, a partir de pequenos fragmentos de vidro colorido justapostos, caracterizar padrões territoriais de segregação entre os bairros da cidade, marcados por relações étnicas distintas. Robert Park afirma que a cidade é “um mosaico de pequenos mundos que se tocam, mas não se interpenetram”. Outras imagens semelhantes são empregadas para indicar que cidades são formadas por recortes e padrões que conformam o espaço urbano — caleidoscópio e quebra-cabeça se somam às artes decorativas do mosaico. Mas também é possível encontrar analogias entre as cidades e os labirintos, as máquinas e os organismos vivos.

O recurso a uma imagem não é apenas uma tentativa de estabelecer semelhanças. A figura cria uma relação entre dois acontecimentos que antes não tinham relação alguma, seja temporal ou causal. Mosaicos, caleidoscópios, quebra-cabeças, labirintos, máquinas e organismos vivos talvez tenham poucos vínculos entre si. Mas quando servem como representações de cidades passam a marcar determinados aspectos que dizem respeito a si mesmos como objetos, e que são também projetados ao espaço urbano.

Em A frase urbana, Jean-Christophe Bailly recorre justamente a uma imagem para retratar a experiência da cidade. Como indicado no título, cidades devem ser tratadas como frases, recursos linguísticos que integram uma gramática. A proposta de entender a cidade como texto não é nova. Em um sentido mais evidente, cidades são protagonistas de romances e contos; acessamos cores, caminhos e cheiros pelos relatos escritos, o que nos permite imaginar espaços onde nunca estivemos ou olhar aqueles que já conhecemos com uma perspectiva renovada. Em um sentido menos evidente, é a própria cidade que é texto, uma ordenação de signos linguísticos mais ou menos legíveis, com unidades de sentido que podem ser traduzidas e comunicadas como um argumento.

Cidades são protagonistas de romances e contos; acessamos cores, caminhos e cheiros pelos relatos escritos

Esse segundo sentido é explorado amplamente por Bailly: “Uma cidade é uma língua, um sotaque. Assim como lançamos palavras no ar com a voz, desdobramos nossos passos avançando no espaço e algo pouco a pouco se define e se enuncia”, afirma em “A gramática generativa das pernas”, um dos ensaios do livro. “Há ruas em mapas que são como palavras na língua, há cruzamentos onde nos detemos por muito tempo, praças onde nos sentamos, toda uma pontuação da cidade que deixa suas grandes frases amorfas respirarem como feixes luminosos. Uma passarela é um aforismo, uma travessa, uma questão, uma escada, uma resposta, um boulevard, uma toada, um quiosque, um refrão”, escreve em “Desafio”.

Diagnóstico inquieto

Há algumas razões para tratar a cidade como frase, para além de uma abordagem poética que é claramente defendida por Bailly. A primeira delas é a ideia de que a cidade não é uma entidade com fronteiras bem delimitadas, apreensível como unidade ou como um corpo. A cidade é de difícil apreensão, e a maioria das metáforas aponta nesse sentido, ao remeter a imagens fragmentadas, com várias camadas e modos de funcionamento. Ainda que um texto possa ser entendido como uma unidade, a frase se abre para “um sistema fluido de declinações e acordes”, ou seja, a uma multiplicidade de signos e interpretações. Tratar a cidade como frase urbana é, portanto, pressupor que é um objeto atravessado por muitas perspectivas e modos de ler. Nas palavras do autor: “Se tivermos que falar da cidade, da cidade inteira, só conseguiremos elaborar um diagnóstico inquieto”.

Além disso, a imagem da frase urbana permite colocar a interação no centro das preocupações. Uma frase pressupõe necessariamente um duplo, alguém que escreve e alguém que lê. Mas ambos os polos, escritor e leitor, são constituídos de maneira intersubjetiva — só é possível aprender a escrever e a ler em coletivo. O conjunto de frases que formam a cidade não tem apenas um autor, como um deus arquiteto que constrói uma cidade como se escrevesse um texto sagrado. A imagem do palimpsesto é cara a Bailly: a cidade é escrita e reescrita, em frases que se superpõem no tempo e cuja autoria também não está ancorada em apenas uma pessoa. 

Entender a cidade como frase é ainda pressupor que o espaço urbano deve fazer sentido, mesmo que esse sentido seja escrito coletivamente. E é essa ideia que permite a Bailly tornar a frase urbana um ponto de apoio para um diagnóstico da atualidade: “A paisagem urbana atual é como uma pseudofrase formada de palavras frouxas e impróprias, de verbos não conjugados, de acordes que não estão feitos. Tudo se passa como se tivéssemos disposto, uns ao lado dos outros, infinitivos e substantivos, acrescentando aqui e ali alguns epítetos decorativos”. O ambiente construído pode ser lido como substantivos justapostos, com edificações que não se conectam. Os verbos não conjugados apontam para uma tarefa ainda não acabada de escrita; as “palavras frouxas” podem ser aquelas que escapam de sentidos mais claros. 

Se essa poética é amplamente explorada, a política que a acompanha está menos presente nos ensaios. Ainda assim, Bailly oferece uma porta de entrada bastante instigante para perguntarmos quem escreve as cidades hoje e se somos capazes de lê-las e interpretá-las.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #46 em abril de 2021.