Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

De volta à terra

O pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos subverte a forma como pensamos o espaço urbano e nos relacionamos com o cosmo

01jul2023 - 04h00 | Edição #71

Nossa geração avó dizia que a gente planta o que a gente quer, o que a gente precisa e o que a gente gosta, e a terra dá o que pode e o que a gente merece. […] O nosso povo também dizia que a terra dá e a terra quer. Quando dizemos isso, não estamos falando da terra em si, mas da terra e de todos os seus compartilhantes.

A sentença que dá título ao novo livro de Antônio Bispo dos Santos, uma das principais lideranças na luta pelas terras quilombolas no Brasil, é aparentemente simples. O primeiro movimento — “a terra dá”— marca a entrega, enquanto o segundo — “a terra quer” — retrata um desejo ou uma exigência. As frases traçam o balanço de um pêndulo: a terra fornece sementes, frutos, alimento e condições de vida, mas também nos faz pedidos em retorno.


A terra dá, a terra quer, de Antônio Bispo dos Santos, uma das principais lideranças na luta pelas terras quilombolas no Brasil

Mas não é uma mera lógica de retribuição ou de reposição do que constantemente extraímos para viver. Aqui, a natureza não é um outro com o qual nos relacionamos externamente. A personificação de terra é intencional e ela nos coloca no nosso devido lugar, como parte integrante dessa cosmologia. “Todos somos cosmos, menos os humanos. Eu não sou humano, sou quilombola. Sou lavrador, pescador, sou um ente do cosmos.” Para Bispo, a afirmação da humanidade em oposição à terra está no centro dos nossos problemas sociais, ambientais, éticos e políticos.

Entender que a terra dá e a terra quer nos coloca em relação de reciprocidade com o mundo

O quilombo marca, mais do que um lugar determinado, um modo de vida. Além de fincarem raízes ancestrais vindas do continente africano, os quilombos não foram colonizados. São território de libertação, de recusa de adestramento, de onde brota uma confluência de saberes que remete à origem e abre caminhos no presente:

Não fizemos os quilombos sozinhos. Para que fizéssemos os quilombos, foi preciso trazer os nossos saberes de África, mas os povos indígenas daqui nos disseram que o que lá funcionava de um jeito, aqui funcionava de outro. Nessa confluência de saberes, formamos os quilombos, inventados pelos povos afroconfluentes, em conversa com os povos indígenas. No dia em que os quilombos perderem o medo das favelas, que as favelas confiarem nos quilombos e se juntarem às aldeias, todos em confluência, o asfalto vai derreter!

Cidades nos quilombos

A partir do quilombo, Antônio Bispo subverte a maneira como pensamos o espaço urbano. Não são os quilombos que estão nas cidades, mas as cidades que estão nos quilombos.

Belo Horizonte é que está no Quilombo Souza, no Quilombo Manzo ou no Quilombo Luízes, por exemplo. Não são os quilombos que estão em Belo Horizonte. Nos quilombos onde está Minas Gerais estão as mais importantes expressões contracolonialistas compostas por nosso povo afroconfluente. Ali muito se preservou dos modos quilombolas e seus saberes orgânicos. Dos nossos modos de ver, de fazer, de sentir e viver. Em muitos outros quilombos onde estão outros estados, muitas práticas foram destruídas pelo Estado. Talvez a palavra não seja destruídas, mas precarizadas.

Em tempos de ataques ferrenhos às terras pertencentes aos povos tradicionais, indígenas e quilombolas, ouvir Antônio Bispo é imprescindível e urgente. Entender que a terra dá e a terra quer nos coloca em relação de escuta e reciprocidade com o mundo à nossa volta, com os caminhos que trilhamos nas cidades e com o aprisionamento do nosso pensamento.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #71 em maio de 2023.