Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

Acerto de contas

O culto recente à vida e à memória de Lina Bo Bardi pretende compensar décadas de reconhecimento insuficiente

01jul2021 - 00h51 | Edição #47

Lina Bo Bardi está em todos os lugares. Homenageada na Bienal de Veneza deste ano, recebeu o Leão de Ouro Especial pela trajetória e conjunto de sua obra. Feito raro: foi a primeira arquiteta brasileira a receber a honraria, que não costuma ser concedida post mortem. Lina também está nas telas flutuantes da videoinstalação do artista Isaac Julien, expostas há dois anos em um projeto de registro de seus edifícios públicos. Esteve ainda em Londres, em 2012, caracterizada como uma das “últimas humanistas”, na mostra aberta que relacionava seu trabalho com o de Gio Ponti. Mas não é preciso ir tão longe. Também há dois anos, o Museu de Arte de São Paulo apresentou uma coleção de seu trabalho como arquiteta, escritora, desenhista, designer e curadora, sob o nome Habitat (título da revista que editou com o marido, Pietro Maria Bardi, entre 1950 e 1953 no Brasil). A exposição também deu origem a um livro em comemoração ao cinquentenário do museu, O Masp de Lina.

Mas os trabalhos e as ideias de Lina Bo Bardi ultrapassam os limites estritos do campo ampliado das instituições formais de arte e arquitetura. Não é exagero dizer que há um culto recente à sua vida e à sua memória, uma espécie de acerto de contas que pretende compensar décadas de reconhecimento insuficiente, reverenciando obras, desenhos e escritos. Sua personalidade também passa para o centro da cena. Tanto é assim que apenas seu primeiro nome basta para que todos saibamos de quem se trata, em um misto de intimidade e de tratamento conferido a um ícone, que dispensa maiores apresentações. Duas biografias, publicadas concomitantemente — feito que também não é usual —, nos ajudam a conhecer a trajetória de Lina em suas complexidades e contradições, em sua dimensão pública, mas também privada. Lina Bo Bardi: o que eu queria era ter história, de Zeuler Lima, é publicada em português pela Companhia das Letras, como tradução do original em inglês. Já Lina: uma biografia é um estudo novo desenvolvido por Francesco Perrotta-Bosch para a editora Todavia.

Lina via a si mesma como alguém que desafiava seu tempo com audácia e irreverência: teria nascido para fazer a terra tremer

Biografias são empreitadas desafiadoras, para dizer o mínimo. O problema no narrador se coloca de maneira profunda. O biógrafo é um pesquisador de uma vida, um colecionador de momentos privados, alguém que conecta a intimidade com o contexto mais amplo em que a pessoa retratada se movimentava. Mas é também quase um detetive, alguém que empreende a tarefa de coletar evidências para se aproximar desse outro que é objeto da narração. O trabalho de investigação exige ainda uma dose de suspeita, uma dúvida ativa que recoloca ao narrador que biógrafo e biografado são pessoas distintas, não se confundem. Se isso parece evidente para quem olha de fora, quem olha de dentro do mergulho nas reminiscências da vida de uma pessoa precisa constantemente desse aviso. A presença emocional exigida para chegar perto do outro é brutal.

Enigma

Tanto Lima quanto Perrotta-Bosch dedicaram anos ao enigma que é Lina Bo Bardi. Ambos recorrem a documentos, diários, desenhos, projetos arquitetônicos inacabados e finalizados, correspondências, publicações, relatos e entrevistas. São fontes comuns a biografias. Mas no caso de Lina também é preciso investigar seus escritos e suas construções, que podem ser tratados como registros distintos ou variações dos modos de se colocar no mundo. “O arquiteto não precisa desenhar. Ele pode escrever” é uma frase de Lina que equipara essas linguagens — e que serve de epígrafe para a biografia de Perrotta-Bosch.

Os caminhos escolhidos pelas duas biografias são bastante diferentes. Lima adota uma estrutura temporal linear: somos guiados pela infância de Lina em Roma; suas escolhas profissionais na adolescência; os debates arquitetônicos em Milão; seu encontro com Pietro Maria Bardi e a vinda para o Brasil; os diferentes projetos entre Rio, São Paulo, Salvador e Recife; até o fim da vida na Casa de Vidro, no Morumbi. O autor traça fios que entrelaçam e dão sentido a eventos passados entre 1914 e 1992, guiando-nos no que poderia ser lido como um romance de formação, com embates, contradições e passos dados em frente. Já Francesco Perrotta-Bosch decide levar às últimas consequências uma afirmação de Lina Bo Bardi sobre a ausência de linearidade do tempo. O livro é composto de capítulos cujos títulos indicam datas específicas na vida de Lina, apresentadas de maneira não sucessiva, como um emaranhado em que cabe a nós conectar os pontos. 

As interpretações sobre a vida de Lina também divergem, especialmente em relação a como tratar o Curriculum literário, escrito autobiográfico da autora. Lima desconfia do que Lina fala sobre si mesma, indicando exageros e contradições de alguém que olha para sua própria vida a partir das lentes da maturidade, contrastando o relato em primeira pessoa com pistas documentais sobre o evento narrado. Já Perrotta-Bosch adota uma posição de confirmação do que a autora diz, projetando a interpretação madura como chave para entender o todo — uma escolha no mínimo curiosa, já que a estrutura é fragmentada justamente para mostrar que dificilmente conseguimos ter uma perspectiva que perdure da mesma maneira no tempo. Se aceitarem o desafio de enfrentar mais de mil páginas, leitoras e leitores ganharão muito ao ler as duas biografias em contraste, a fim de juntar elementos que compõem uma personalidade altamente complexa.

A escolha por esses caminhos não vem sem consequências. Talvez um dos pontos mais ilustrativos seja como cada um dos biógrafos começa. O ponto de partida marca como cada um vai tratar do tempo, mas também já lança luz ao conjunto de decisões tomadas por eles. Começos são especialmente difíceis porque têm a tarefa de enunciar o projeto como um todo. Lima inicia com a autodescrição que Lina faz de seu próprio nascimento: “Quinze dias antes de eu nascer”, declarou quase no fim da vida, “vivenciei o terremoto de Avezzano no útero da minha mãe”. Ele confere a essa passagem um peso importante: não tem apenas caráter anedótico, mas é parte central de como Lina via a si própria. Sua vinda ao mundo coincide com um terremoto, um evento capaz de desestabilizar as estruturas mais perenes e enraizadas. Lina se via como alguém que desafiava seu tempo com audácia e irreverência: teria nascido para fazer a terra tremer. Lima indica, no entanto, que essa imagem revela ao mesmo tempo que esconde. Ainda que o tremor tenha de fato acontecido, data, na verdade, de janeiro de 1915, seis semanas depois de Lina nascer. A incongruência mostra a percepção de que Lina seria marcada por uma alegoria quase teatral que determinaria sua personalidade com traços também devastadores. Para Lima, o equívoco — ou a conexão intencional — revela que Lina tratava a si própria como uma figura mitológica, reforçando o culto a si mesma.

Perrotta-Bosch começa em abril de 1953, com o que ele denomina “segundo nascimento”, a naturalização de Lina como brasileira. Os entraves burocráticos para esse registro mostram a personalidade irresoluta de Lina: escolheu uma vida para si própria, tanto que elegeu uma nacionalidade e também um país, já que foi legalmente obrigada a renunciar à nacionalidade italiana. Escolheu uma profissão que desafiava os padrões sociais de seu tempo e deixava isso claro ao escrever “arquiteto”, sem flexão de gênero, nos documentos oficiais, uma vez que architetto era o termo italiano para designar tanto homens quanto mulheres. O segundo nascimento marca, portanto, um conjunto de escolhas sobre um modo de viver, e não apenas um acontecimento da ordem dos fatos. A partir disso, Perrotta-Bosch conclui: “Não tinha nenhum traço de índole civilizatória. Lina teve verdadeira curiosidade pelo que aqui existia”. O segundo nascimento é contrastado com o primeiro, o biológico, narrado somente no quarto capítulo, em que aparecem os pais, a família e o quadro de referências de interpretação da Lina da maturidade.

Política

A diferença entre uma posição que não toma a representação que Lina Bo Bardi faz de si mesma como critério de verdade pode ser vista mais claramente na maneira como ambos os autores interpretam seu posicionamento político ao longo dos anos. Perrotta-Bosch inclui Lina como parte ativa da Resistência italiana ao fascismo e à ocupação nazista, como parte integrante dos professores progressistas que ministraram aulas na Universidade Federal da Bahia, e afirma que “as posições de esquerda de Lina não eram um segredo” quando trata do período da ditadura civil-militar no Brasil. Lembra que ela se declarava abertamente stalinista “até o fim da vida”, fazendo referência a uma fala altamente controversa, já na década de 90, de que era “stalinista, militarista e antifeminista”. 

Ela conseguiu façanhas em uma sociedade regida por valores patriarcais e laços autoritários e conservadores

Como Lima opta por um romance de formação, por seus olhos Lina é alguém que vai adotando posicionamentos mais progressistas ao longo da vida, mas tem uma trajetória marcada por contradições. Formada como arquiteta em meio à expansão urbana fascista de Roma, Lina via as reformas de Mussolini com consternação, mas também deslumbramento. Parte de seu mundo estava vindo abaixo, mas o fazer pretensamente moderno das grandes avenidas era também instigante. Na maturidade, Lina entendeu que seu trabalho de conclusão de curso era desafiador — o projeto de um centro de assistência à maternidade e a crianças, descrito por ela como um espaço institucional para “mães solteiras”. Lima mostra que a proposta era mais adaptada aos projetos fascistas do que a autora nos faz crer, já que a celebração da mulher italiana como mãe também era refletida nos edifícios, projetados por diversos alunos da geração de Lina. A revista Lo Stile, de Milão, referendada por autoridades fascistas e na qual ela escrevia, trazia textos joviais e despreocupados enquanto a cidade era bombardeada. Lima vê Lina como alguém que fugia momentaneamente das tragédias de seu tempo, adotando uma espécie de “realismo mágico”, fosse escrevendo textos sobre como escolher o estilo de barracas de praia em meio à invasão da Iugoslávia ou transitando nos altos círculos dos arquitetos fascistas. A vinda para o Brasil é retratada como uma oportunidade de vendas de arte de seu marido, mas, principalmente, de apagar os laços que Pietro desenvolveu com autoridades fascistas.

A dimensão política é importante para entendermos também as relações de Lina e Pietro no Brasil. Fizeram aliança íntima com Chateubriand, que não era conhecido por ter escrúpulos para conseguir o que desejava, o que se materializou na coleção que deu origem ao Masp. Em seu período na Bahia, Lina se alinhou a autoridades conservadoras para levar seus projetos adiante, como o Museu de Arte Moderna da Bahia, o Solar do Unhão e a restauração do Pelourinho. Para Lima, Lina fez “vista grossa a um acordo fáustico com o governo militar” e, durante muito tempo de sua vida, entendia que a arquitetura não deveria ser política, ainda que sempre tenha defendido que o humanismo deve estar no centro de qualquer projeto ou construção. Dessa perspectiva, é possível entender afirmações como “Não tenho ideal. Estou convencida de que não há propósito em ter ideal”, de 1956, ou “O que aconteceu em 1964 não foi, como pode parecer, o regime militar que tomou conta do país. Foi a reação civil”, em depoimento a Helio Eichbauer em 1990. Para Zeuler Lima, Lina era uma mulher altamente obstinada, que levava seus projetos adiante independentemente dos meios necessários para consegui-los. Conseguiu façanhas em uma sociedade regida por valores patriarcais e laços autoritários e conservadores.

Aos olhos de Perrotta-Bosch, Lina aparece mais como uma heroína de todas as resistências, que teria enfrentado uma realidade que se apresentava como atroz. Desde o começo, seus projetos são a expressão de uma liberdade coletiva, em que o povo está no centro, com valores sociais alinhados ao progressismo. Sobre o período da Lo Stile, Perrotta-Bosch entende que textos sobre como arrumar prateleiras e móveis foram “um ato de genuína generosidade da arquiteta” ao ajudar a transformar a casa das pessoas em um “ambiente agradável em meio à barbárie do mundo em guerra”. Sobre as relações com autoritários e conservadores, entende que Lina se colocou como alguém que sempre resistiu. A autodeclaração como stalinista — e militarista, que passa batido —, já em período democrático, não é problematizada como um possível flerte com valores intransigentes.

Casa de Vidro, Museu de Arte de São Paulo, Museu de Arte Moderna da Bahia, Solar do Unhão, Pelourinho, Teatro Oficina e Sesc Pompeia são alguns dos projetos construídos de Lina que são densamente comentados em ambos os livros. As biografias são uma oportunidade de descobrir Lina como arquiteta e pensadora de seu tempo, com suas vicissitudes e contradições, o que a torna humana e menos mítica. Ambos os livros são pontos de apoio fundamentais para o amplo debate público sobre arquitetura e cidade em tempos de crise da democracia.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #47 em maio de 2021.