Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

Abominável herança

O transporte público coletivo no Brasil carrega as vis marcas dos navios negreiros ao conter e subjugar o negro no espaço da branquitude

01set2021 - 04h51 | Edição #49

O navio negreiro era, antes de tudo, um meio de transporte. O sonho dantesco das embarcações construídas para torturar, punir e disciplinar era revestido da finalidade primeira da mobilidade: o transporte de carga humana de um ponto a outro de terra firme entre oceanos. Para além de ser uma das condições de possibilidade da escravidão africana no Brasil, ele era também marcado por uma importante dualidade: “O povo negro era simultaneamente a mercadoria a ser transportada e o motor do veículo. […] O desenvolvimento do transporte coletivo ampliou esse conflito inicial, pois o negro foi simultaneamente o motor, a mercadoria, o operador, o construtor do transporte”, escreve Paíque Santarém, ressaltando que a mobilidade foi realizada nos moldes do tráfico escravista para conter, subjugar e determinar o negro no espaço da branquitude. “O transporte depende do negro para se moldar; o negro utiliza-se do transporte confinador e constrói mecanismos outros de mobilidade.”

Não à toa, diversos textos da coletânea Mobilidade antirracista traçam paralelos entre o navio negreiro e os ônibus lotados nas grandes cidades brasileiras. O trajeto pendular casa-trabalho confina e aglomera, saqueia horas de vida, saqueia novamente com as altas tarifas. E, ainda que os mais pobres estejam sujeitos a políticas públicas (que estão muito longe de efetivar o ideal de um transporte coletivo público acessível e de qualidade), o racismo é estrutural.

Os paralelos vão além da semelhança das imagens de apinhamento. No capítulo “Ensaio sobre a mobilidade racista”, o mais sistemático do livro, Santarém lembra que “os primeiros veículos de transporte do país, não motorizados, são caracterizados por negros escravizados e cavalos carregando seus senhores — a serpentina, a sege, a rede, a cadeirinha, a cangalha, a carreta, a liteira”. A Revolta do Vintém, no Rio de Janeiro do final do século 19, foi uma mobilização de rua predominantemente negra, ainda que os negros não fossem a maioria dos usuários de bondes e trens. Mas as linhas de continuidade não se restringem ao passado. Colonizam também nosso vocabulário cotidiano diante de uma marca tão profunda, visto que as linhas que operam durante a madrugada são nomeadas em muitas cidades de ‘ônibus negreiros’”.

Mobilidade antirracista, organizado por Daniel Santini, Paíque Santarém e Rafaela Albergaria, publicado pela Autonomia Literária em 2021

Mobilidade antirracista é um livro fundamental para pensarmos a política urbana das nossas cidades. Combina manifestos de militantes do Movimento Passe Livre, textos de lideranças do movimento negro de dentro e de fora de partidos políticos, poemas de importantes referências do hip hop e do slam e contribuições de especialistas com tom mais próximo do acadêmico. A entrevista com Paulo Galo de Lima marca a exploração dos aplicativos de delivery, central para compreender a mobilidade de qualquer grande cidade brasileira hoje. Os textos traduzidos de Ayanna Pressley, primeira negra eleita deputada por Massachusetts para o Congresso norte-americano, e de Anna Nygård, ativista do coletivo sueco Planka.nu, mostram alguns dos nós de uma rede internacional que começa a discutir políticas de mobilidade urbana a partir das relações raciais.

Além do transporte

O livro lança questões que devem se tornar incontornáveis em todo e qualquer debate sobre mobilidade. E, vale lembrar, mobilidade incorpora relações socioespaciais mais amplas do que apenas o transporte. Uma pesquisa da Rede Nossa São Paulo de 2020 mostra que a maioria dos usuários do transporte coletivo é negra, e a PNAD do IBGE de 2019 mostra que a população negra é minoria entre proprietários de automóveis. Acidentes com motos matam mais jovens, negros e pobres. Circular a pé livremente pela cidade é estar sujeito a abordagens policiais. Circular com uma bicicleta ou uma moto é levantar todos os signos da suspeição, o que leva pessoas negras a carregar consigo notas fiscais, algo impensável para brancos. Mas a mobilidade também precisa ser entendida como restrição permanente de movimento e de liberdade. O contrário da mobilidade é a prisão. O livro traz, com maestria, o debate sobre desencarceramento como parte da política de mobilidade urbana — seja pela seletividade do sistema prisional, que encarcera mais negros e pobres, seja do ponto de vista das famílias negras que peregrinam em visitas às penitenciárias, mantendo os laços entre pessoas presas e a cidade.

Foi em um ônibus que Rosa Parks desencadeou, em Montgomery, no Alabama, uma revolta marcada por séculos de injustiça racial. Mobilidade antirracista é um livro urgente.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #49 em julho de 2021.