Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

A recusa da condição subalterna

Livro reúne histórias de mulheres dos cinturões negros da Filadélfia e de Nova York que foram pioneiras em revolucionar as estruturas sociais

19maio2022 - 01h10 | Edição #58

Uma fotografia pequena, impressa em albumina barata, retrata uma figura também diminuta. Uma menina negra nua reclinada em um sofá com arabescos. Anônima — não há registro algum de seu nome na legenda da foto. O retrato é o início de um fio que a escritora norte-americana Saidiya Hartman começa a puxar. Mas não se trata de um novelo pronto, que precisa ser apenas desembaraçado para que os nós se desfaçam. Como uma moira, a autora tece o fio ao mesmo tempo que o estica. Ela não só persegue obsessivamente a história dessa menina trajada com adereços de odalisca, com a pose de prostituta e escrava contrastando com as marcas da sua infância, mas vai além — apenas perseguir significaria reconstituir uma narrativa que já existe no mundo. 

A fotografia é um vestígio deixado para trás, os pontos de conexão ainda estão por ser inventados. “Depois de passar um ano olhando para uma menina de cor posando nua em um velho sofá de crina de cavalo, decidi retraçar seus passos pela cidade e imaginar suas muitas vidas. Seguindo as pegadas dela e de outras jovens negras na cidade, tracei um caminho pelos cinturões negros da Filadélfia e de Nova York, as vizinhanças e quarteirões negros apelidados em homenagem aos seus habitantes, Little Africa e Nigger Heaven, ou, conforme suas aspirações, a Meca e City of Refuge. Desenhei as vias errantes e as linhas de fuga que nas décadas de 1890 a 1935 delimitariam as fronteiras do gueto negro. No fim, isso não se tornou a história de uma única menina, mas uma biografia serial de uma geração, um retrato do coro, um filme da rebeldia.”


Vidas rebeldes, belos experimentos, de Saidiya Hartman

Vidas rebeldes, belos experimentos é um conjunto de histórias de jovens negras em insurgência aberta, sedentas por novas formas de levar adiante sua existência. São vidas desconhecidas e comuns, mas ainda assim animadas por ideais revolucionários praticados cotidianamente. 

“Pise em qualquer um dos caminhos que cruzam a cidade em expansão e você poderá encontrá-la perambulando. Forasteiros chamam de gueto as ruas e vielas que constituem seu mundo. Para ela, é apenas o lugar onde vive. Você nunca pinta na quadra dela a menos que more lá também ou que tenha se perdido, ou que tenha saído em uma noitada à procura dos prazeres oferecidos por gente de outra laia.” 

Nos corredores de cortiços e vielas, na “cidade-negra-dentro-da-cidade”, mulheres como Ida Wells, Eleanora Fagan, Mamie Sharp ou a menina anônima habitam um limiar em que há a recusa direta da condição subalterna. Recusam o sistema de plantation do Sul, ao fugir massivamente para as cidades, e rejeitam a submissão em trabalhos de domésticas e serventes. Mas também questionam a tradicional figura da família ao experimentar o sexo ilegal fora do casamento e diferentes arranjos de relações conjugais e, em especial, ao sustentar abertamente seus desejos, em uma geografia sexual em que o prazer pulsa e se envolve com promessas de novos acontecimentos e possibilidades à espreita.

São meninas e mulheres negras em movimento, que vão gerar o caldo necessário para revoltas coletivas e motins que viriam no início do século 20 em diferentes cidades norte-americanas. Não se contentam com o mundo à sua volta, que está muito longe de lhes estender a mão em sinal de benevolência. É um mundo feio e brutal, em que linchamentos, estupros, prisões e violências de toda sorte são cometidos contra pessoas negras à luz do dia, sem maiores comoções. É nesse mundo que é possível fotografar uma menina negra com seu corpo exposto e marcado pela subjugação sexual, uma foto forçada que insinua a violência naturalizada e cristalizada em imagem. Hartman sabe de tudo isso e não faz a menor questão de esconder. Mas sua perspectiva é olhar através de todos os mecanismos de opressão para encontrar o ritmo de vidas que não se resumem à privação e aos ataques sistemáticos de uma sociedade clivada por hierarquias de dominação. 

Contra a corrente

Com uma pesquisa arquivística monumental, Hartman recorre a acervos fotográficos históricos, autos de prisão, transcrições de julgamentos, registros de cobradores de aluguel e documentos oficiais produzidos por sociólogos, assistentes sociais e profissionais da psiquiatria e da psicologia. A proposta da autora é ler os documentos contra a corrente, já que em todos esses registros essas mulheres são um problema. 

“Os documentos oficiais transformaram [a jovem negra] em uma pessoa totalmente diferente: delinquente, prostituta, negra mediana em uma mesa mortuária, criança incorrigível e mulher indisciplinada. No quadro estatístico, na pesquisa social e na fotografia do gueto ela parece tão pequena, tão insignificante. Tudo o mais se assomava — a condição dos cortiços, os perigos do gueto, os riscos morais da quitinete, as ameaças apresentadas por tantos corpos forçados a habitar os quartos abarrotados da pensão. Era mais fácil para os profissionais imaginá-la morta ou desgraçada do que considerar a ideia de que ela poderia prosperar, que o acaso ou o acidente poderiam permitir que florescesse.”

A cidade é elemento fundamental como condição de possibilidade desses projetos de experimentação. São áreas urbanas em expansão, com populações majoritariamente negras e femininas deixando o campo — o que W. E. B. Du Bois, referência imprescindível para a autora, viria a chamar de uma greve geral contra a escravidão. A cidade equivalia à promessa de liberdade. Se era o lugar de refúgio boêmio, com pistas de dança, teatros e cabarés que seriam decisivos na cena do rag e do blues, da ópera e do cross-dressing, foi também o espaço da segregação, com bairros inteiramente negros e, por isso, chamados de guetos. “No gueto, tudo está em falta, exceto a sensação. A experiência é abundante.”

Saidiya Hartman imagina como essas vidas intoxicadas com liberdade se desenrolaram para experimentar o mundo como essas jovens fizeram e aprender com elas. Não é um simples exercício de transposição de lugares. 

Modernidade

A autora tem uma tese forte a ser defendida: essas mulheres inauguraram propriamente a modernidade. Isso porque elas encarnavam o projeto de romper tradições e desafiar a ordem estabelecida, colocando à prova as estruturas de toda uma era. São modernistas sexuais, são socialmente visionárias. Prefiguram condutas que serão praticadas e celebradas muito depois, com o renascimento do Harlem na década de 20 ou, como a autora gosta de frisar, “as transformações na sexualidade, intimidade, afiliação e parentesco que tinham lugar no quarteirão negro das cidades do norte podem ser consideradas uma revolução anterior a Gatsby”. Assim, o livro cumpre a tarefa de restituir a elas seu devido lugar: o que era lido como perversão, desvio e crime nada mais era do que uma revolução de modos de vida liderada por mulheres negras.

O que era lido como perversão, desvio e crime nada mais era do que uma revolução de modos de vida liderada por mulheres negras

Não é à toa que o flâneur, símbolo por excelência do moderno, ocupa sempre a figura de um homem — e, como não recebe adjetivo, presume-se sempre que seja branco. A ele é possível a experiência da deriva na multidão. Hartman mostra que as jovens negras “perambulavam”, “vagavam errantes” por ruas, vielas e becos. Mas aqui a leitura predominante não era a do devaneio e do ócio próprios de uma época de aceleradas transformações, mas a da vadiagem a ser combatida com punição. A autora os chama de belos experimentos justamente porque a beleza ganha espaço central: 

“Não é luxo; ao contrário, é uma forma de criar possibilidade no espaço da clausura, uma arte radical de subsistência, o acolhimento daquilo que é horrível em nós, uma transfiguração daquilo que é dado”.

O método de Hartman abre caminhos potentes. E sua escrita tem um ritmo inquieto que vibra junto com as possibilidades que ela mesmo tece. A autora cria um lugar de possibilidades para narrar essas vidas e está inteiramente presente em todas elas — e esse não é um sinal de fraqueza, mas de força da sua abordagem de fabulação crítica. 

Falando em jovens negras insurgentes, Preta Ferreira certamente seria uma das protagonistas se o livro puxasse o fio até os dias de hoje. Artista e ativista pelo direito à moradia, Ferreira foi presa em 2019 depois do incêndio e desmoronamento do edifício Wilton Paes, em São Paulo, que serviu de subterfúgio para a criminalização de lideranças de movimentos sociais. Após 108 dias presa, ela escreveu Minha carne: diário de uma prisão (Boitempo, 2020). Sorte a minha — e de todos nós — de ter o prazer de conversar com ela sobre mulheres, cidade e segregação n’A Feira do Livro, no dia 11 de junho, na capital paulista.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #58 em fevereiro de 2022.