Coluna

Julius Wiedemann

Ampliando os horizontes da arte

Somos bombardeados por imagens, mas, se pararmos para observá-las com calma, elas podem nos ensinar sobre como pensamos e sentimos

01abr2019 - 01h00 | Edição #21 abr.2019

“Enquanto a ilustração pretende comunicar uma mensagem, a arte é a mensagem.” Assim definiu o professor inglês de história da arte Marc Gismore numa palestra em Berlim. De lá para cá, esses conceitos estáticos que definiram por tanto tempo a arte são cada vez mais questionados. A começar pela definição do que é arte na sua etimologia: ars em latim, e téchne, em grego. Debati isso com Amador Perez, que, tendo por trinta anos ensinado a técnica de desenhar, trabalha em seu ateliê no Rio de Janeiro e exporá em breve no Paço Imperial. Ele reafirma que a percepção sobre o que é arte e o que é craft se mistura desde os primórdios, e criou uma assimetria de valores cada vez mais irrelevante.

Já avançamos em muitos quesitos, e por isso instalação, videoarte e outros estão presentes em exposições e em coleções permanentes. Além disso, a quantidade de publicações de desenhos, de Da Vinci a David Hockney, indica a importância do assunto. A técnica ainda parece carregar o fardo de seus primórdios como linguagem de “explicação” e, mais tarde, como arte comercial. A definição da ilustração e a do ilustrador ainda se confundem e nos confundem, mas têm se revelado uma das áreas artísticas mais interessantes de observar. 

Vamos considerar aqui alguns fatos interessantes: Salvador Dalí trabalhou para a Disney e fez a capa de um LP (Jackie Gleason, Lonesome Echo, 1955); edições impressas originais do Mickey Mouse são vendidas por centenas de milhares de dólares; cartazes comerciais feitos em litografias de Toulouse-Lautrec são comumente vendidos pela Sotheby’s. Colocar em contexto é colocar em perspectiva, tanto histórica quanto econômica. Mas também artística, nesse caso. 

O que é mais importante? A obra ou o artista? O tempo ou a fama? A formação do artista ou onde ele expôs seu trabalho? O fato de o trabalho pertencer a museus ou a coleções privadas? O início da carreira ou a estrada? Uma obra variada ou focada? 

As variáveis são muitas, e as observações sobre arte raramente podem ser acompanhadas ou processadas de maneira totalmente racional. A assimetria de valor constantemente revelada entre a importância histórica e o valor financeiro da obra sempre deixa dúvidas sobre como avaliamos o campo da ilustração. Ainda nos sentimos tímidos para usar a palavra artista, mesmo que, de alguma maneira, a ilustração dependa disso. E tampouco chamamos algum artista de “profissional”. Ele ou ela é artista, ponto. Mas a cada dia que passa me deparo com mais surpresas e com mais modelos que vão sendo rompidos. Recentemente, a arte figurativa voltou com toda a força, motivada, no meu ponto de vista, por uma natural reaproximação com um público que quer entender o que vê. Eu sou um fã de arte abstrata, mas reconheço que ela requer, com grande frequência, um exercício maior para ser entendida. 

Amador Perez foi sempre cortejado pelo seu trabalho impecável, daquele que se espera de um monge e do tipo que dificilmente pode ser colocado na mão de assistentes. A delicadeza do traço nos dá o fôlego necessário para investigar ainda mais os detalhes da sua técnica. O lápis é um dos instrumentos mais delicados para se dominar, muito, a meu ver, por estar ligado a nossas vidas de uma forma tão banal que começamos a usá-lo antes mesmo de irmos pra escola. Expressar-se bem com desenho é muito diferente de usar bem o lápis. Mas Amador Perez expandiu faz décadas a quantidade de meios e técnicas associadas a ele. Faz uso de fotografia, obras de arte, livros e outros. Sua série de releituras da Gioventù, de Eliseu Visconti, extraída do panfleto de uma exposição no Museu de Belas-Artes, é uma obra-prima, com 63 diferentes desenhos — sendo apenas os últimos sete coloridos, com comentários sobre o CMYK. 

Sergio Mora e Tim Biskup, que publiquei em livros de ilustração, também estão em coleções privadas com trabalhos abstratos em óleo sobre tela, mas o que me encanta no artista Amador Perez é a conexão visceral que ele faz entre a base de quase todo trabalho artístico (o desenho) e o sentimento que se instiga diante da obra. O mundo paralelo que emerge de algo extremamente preciso, mas que claramente é uma construção feita literalmente à mão, cria uma dimensão completamente distinta da fotografia ou do impresso. 

Eu já visitei ateliês de mais de cem artistas, e o corner que mais me agrada é aquele da obra inacabada, aonde o artista vai de vez em quando, às vezes mais, às vezes menos, mas sempre voltando, como quem volta ao lar. É lá que geralmente está a melhor luz, na medida para o artista contemplar o trabalho incompleto por horas a fio, com um café nas mãos e sem tocá-lo, e então ele retoma o trabalho, até o dia em que a obra vai embora.

Esse é o lugar onde a noção de tempo é completamente diferente. O tempo mostra que o desenvolvimento da obra e do artista, assim como o desenvolvimento do que consideramos arte ou ilustração, tem sutilezas reveladas nas experiências entre a expressão própria e a universal — justamente onde a coragem do artista se revela. 

Raramente nos damos o benefício da dúvida numa sociedade que necessita ser cada vez mais assertiva

Como diria Douglas Rushkoff, um dos males do nosso tempo é que temos a pressão para terminar toda manifestação (seja ela jornalística, cinematográfica, artística, narrativa, discursiva etc.) com uma conclusão. Raramente nos damos o benefício da dúvida, e raramente temos o privilégio do tempo como fiel da balança, numa sociedade que necessita ser cada vez mais assertiva, e onde os relatórios trimestrais de desempenho acabam ofuscando uma visão mais ampla de como as percepções que se modificam pouco a pouco na arte permeiam profundas transformações ao longo do tempo.

Esta coluna se propõe a fazer observações sobre a arte e o ilustrar, que tanto se transformaram e que nos oferecem uma perspectiva conectada com nosso dia a dia. Nós somos bombardeados constantemente por imagens, mas, se pararmos para fazer observações seletivas, pode ser que elas nos ensinem bastante sobre como pensamos e sentimos. Pode contar as palavras, incluindo estas.  

Quem escreveu esse texto

Julius Wiedemann

Editor, é autor de The Package Design Book (Taschen).

Matéria publicada na edição impressa #21 abr.2019 em março de 2019.