Teatro,

Meninas vestem azul

As mulheres crossdressers de William Shakespeare desconstroem estereótipos, tornando ambígua a identidade de gênero

01out2019

Roupas não servem apenas para cobrir a nudez. Sobre o corpo, o traje vira parte de nós mesmos, como a máscara que se cola à cara. Alertando para a forma como a vestimenta molda os gêneros, Simone de Beauvoir (1908-86) disse que uma pessoa não nasce mulher, mas se torna mulher. As roupas atribuem identidade às pessoas.

Quase todo mundo curte uma fatiota: a própria e a dos outros. Se isso não fosse verdade, ninguém prestaria atenção no crossdressing. Os trasvestidos e transformistas escolhem roupas de um gênero diferente do seu. Entre eles, há o homem que vivencia seu lado feminino e a mulher que experimenta sua face masculina. Alguns buscam satisfação sexual; outros, como os atores, apenas encarnam personagens de diferentes gêneros.

A roupa trocada nos liberta da ilusão da identidade fixa. William Shakespeare (1564-1616) veste cinco personagens femininas como homens. Numa época marcada pelo patriarcalismo, esse recurso facilitava um discurso corajoso na boca de uma mulher e subvertia os papéis impostos por convenções tradicionais. As cross-dressers, em busca da independência e do amor, são: Julia, em Os dois cavalheiros de Verona — uma comédia do autor iniciante — ; Portia, em O mercador de Veneza; Viola, em Noite de reis; e Rosalind, em Do jeito que você gosta (também traduzido por Como gostais) — três comédias do dramaturgo em seu apogeu —; e, por último, Imogen, em Cymbeline (uma peça que parece novela das 9). Vestidas de homem, elas se safam de diferentes crises e se mostram capazes de prodígios.

Julia

Em Os dois cavalheiros de Verona, Julia se veste de homem para viajar a Milão, onde Proteus, seu grande amor, faz companhia a Valentine. Disfarçada como Sebastian, descobre que o noivo se apaixonou pela namorada do amigo. Como pajem de Proteus, entrega um anel à rival. A coisa se complica; depois de muita violência, os casais se reconciliam. Nas comédias da maturidade, o dramaturgo aperfeiçoa sua primeira crossdresser.

Portia

Disfarçada do advogado Balthazar, Portia impressiona. No início de
O mercador de Veneza, espera o pretendente certo segundo o critério paterno. A inteligência a liberta. Com esses trajes, impede que Antonio, o melhor amigo de seu marido, tenha meio quilo de carne arrancado
do próprio peito, pois encontra uma brecha no contrato entre ele e Shylock: este pode cortar somente a carne do segundo, não podendo derramar uma só gota de sangue cristão. Se o fizer, terá suas terras e bens confiscados, de acordo com a lei.

Além de Portia, Nerissa e Jessica fazem uso do crossdressing na mesma peça. O disfarce de Jessica é apenas formal, e o de Nerissa, imitativo. Portanto, as duas não se somam às famosas crossdressers de Shakespeare. Em O mercador de Veneza, só Portia está no comando de si mesma, só ela planeja e executa seu plano e, entrando na cena pública, triunfa. Sua autoconfiança nunca esmorece.

Shakespeare vê mulheres e homens — da leiteira à rainha, do bobo ao sábio, do príncipe ao coveiro — como iguais, isto é, como seres que estão sujeitos às mesmas paixões e tentações, caminhando todos, do nascimento à maturidade, para a morte inevitável. Nunca escreve teses sobre a posição das mulheres no mundo, nem quer parecer defensor delas. O gênio e o feminismo de Shakespeare derivam de seu ceticismo sobre a existência de uma natureza feminina diferente da natureza humana. Vê as mulheres como vê os homens: indivíduos semelhantes num mundo que insiste em declará-los desiguais. E observa, em todos, a expressão de impulsos antagônicos.

Rosalind

Em Do jeito que você gosta, Rosalind assume o controle de seu próprio destino quando o tio tirano a bane de suas terras. A caminho da Floresta de Ardenas, vestida como homem para se proteger de possíveis assaltos, adota o nome de Ganimedes. Quando uma garota se apaixona por ela, acha graça. Como homem, Rosalind é capaz de ter um relacionamento mais próximo com Orlando, com quem pretende se casar. Ensinando-lhe maneiras de amar, ela molda Orlando como amante para aumentar suas chances de um casamento feliz.

Antes da Renascença, a teologia reforçava a visão da mulher como espécie inferior. Sir Thomas More (1478-1535) desafiou essa visão. Viu nas mulheres da aristocracia italiana do século 15, educadas em pé de igualdade com os homens, a demonstração de que a “natureza feminina” resultava da história. Reverenciou a igualdade dos sexos numa carta ao tutor de suas filhas, afirmando que, se existem diferenças, elas consistem apenas nas partes do corpo necessárias à procriação.

Shakespeare se mostrou sensível a concepções como as de More. Suas mulheres não são um fenômeno isolado de emancipação, pois, consistentemente, abandonam a ortodoxia defensora da sujeição feminina. Rosalind tem presença de espírito e sagacidade. Não sobrecarrega amigos com suas próprias dores e emana alegria, pois sabe-se amada e está determinada a desfrutar da vida.

Viola

Como Rosalind, Viola exibe sabedoria, firmeza de caráter e coragem em Noite de reis. Após um naufrágio, acreditando que seu irmão gêmeo Sebastian morreu afogado, decide se proteger se disfarçando de homem. E como Cesario, encontra trabalho levando recados de amor do duque Orsino para Lady Olivia.

Olivia se apaixona por Cesario, enquanto Viola se apaixona por Orsino. Quando Sebastian reaparece, Olivia, achando que Sebastian é Cesario,  pede-o em casamento. Sebastian concorda e se casa com Olivia. Orsino e Cesario visitam Olivia. Esta confunde Cesario com Sebastian e o cumprimenta como se fosse seu marido. Orsino fica furioso. Mas, quando Sebastian reaparece, entende que Cesario é Viola e se declara. A felicidade chegou.

Antes dos congraçamentos finais, Olivia e Viola funcionam como o espelho uma da outra. A peça sugere mil perguntas. Somos o que vestimos? Amamos as aparências? Amamos a nós mesmos em outra pessoa? Orsino expõe a intensidade do verdadeiro amor: infinito enquanto dura. Aqui está um homem que se perde em devaneios sem nunca ter experimentado o sexo. Em seguida, será preciso mudar a ênfase temática para um aspecto prático das paixões. Ao fazê-lo, Shakespeare insinua que há mais do que poesia no amor.

Viola dá voz à concepção idealizada da paixão como algo que tudo consome. Noite de reis valida essa ideia com qualificações desconcertantes. O amor é, ao mesmo tempo, verdadeiro e irracional, excessivo e inconstante. E diminui ao longo do tempo, assim como sua causa principal: a beleza física. Nada se iguala ao amor à primeira vista, mas nada garante que ele dure. Pior. Noite de reis associa o amor à loucura. No primeiro ato, o amor lembra uma forma de insanidade: nossos sentidos nos iludem e vencem a razão.

Shakespeare usa o disfarce de Viola para reafirmar o tema da aparência versus realidade e o da diferença apenas gradual entre os gêneros. O engano deliberado dos disfarces conscientes contrasta com o autoengano de Orsino sobre seus sentimentos por Olivia. Tudo se resolve quando as máscaras caem e os amantes se casam.

Do casamento, o que esperam os parceiros? Para o dramaturgo Ben Jonson (1572-1637), o homem se casava porque seria incapaz de obter conforto doméstico sem a ajuda de uma mulher. Quanto à mulher, durante longo tempo, o casamento foi a única maneira de conquistar status e segurança econômica.

E o amor? O historiador Lawrence Stone (1919-99) afirma que o amor romântico não passa de ilusão introduzida pela literatura. O casamento, ao contrário, é um acordo que oferece escolhas. E, na escolha, alguns serão preteridos. Os preteridos farão poesia. A dor do poeta nos comove, mas a mola da comédia é o casamento feliz.

Imogen

Cymbeline, uma peça tecida com eventos e situações impossíveis, tem enredo intrincado montado numa teia de confusões. Imogen, filha do rei Cymbeline, casa-se com Posthumus, um pobre mas digno cavalheiro. O pai enfurecido expulsa o noivo. Posthumus vai para a Itália, onde conhece Iachimo, que o envolve em uma aposta sobre a fidelidade de Imogen, da qual forja provas. Em carta a um servo, Posthumus ordena a morte da mulher. O servo se recusa a acreditar na carta e ajuda Imogen a fugir disfarçada de pajem. E dá a ela um frasco com uma droga indutora do sono. Imogen, perdida no País de Gales, engole a droga e adormece. Ela é vista por Belarius, que vinte anos antes havia sequestrado os dois filhos do rei Cymbeline, irmãos de Imogen.

A cena em que Belarius e os dois irmãos observam a beleza angélica do pajem adormecido lembra narrativas do período, usadas para estruturar o desejo homossexual masculino. Em uma intrincada variante do padrão clássico, o jovem (uma princesa disfarçada) entra no domínio pastoral de seus dois irmãos (não conscientes da própria origem). O disfarce masculino acentua a presença do menino-ator e coloca o homoerotismo em nível metateatral.

Imogen é a personagem mais admirada da peça, e muitos críticos acreditam que a trama serve apenas de veículo para ela. Esposa fiel, independente e corajosa escapa de uma corte corrupta e de um ensaio de assassinato, consegue impedir a tentativa do meio-irmão de violá-la e a da madrasta de envenená-la. No final, perdoa a falta de confiança do marido.

O gênio e o feminismo de Shakespeare derivam de seu ceticismo sobre a existência de uma natureza feminina diferente da natureza humana

Como crossdresser, Imogen não se parece com Julia, Portia, Rosalind ou até mesmo Viola. Ao contrário delas, que descobrem a própria força assertiva somente depois de se vestirem de homem, Imogen era mais assertiva antes do disfarce. A diferença talvez advenha da tardia decisão do bardo de escrever romances tragicômicos em vez de comédias românticas. Como muitos comentaristas notaram, dessa decisão surgiram enredos complicados, destinados talvez a exibir a destreza do dramaturgo.

Estratégias

Shakespeare era empresário, preocupado em ganhar dinheiro e agradar ao público. Como explicar que suas mulheres fugissem do ideal feminino de obediência e passividade? Talvez a explicação esteja na transição durante a qual a sociedade tentava lidar com ideias contraditórias. Novas atitudes em relação às mulheres desafiavam o modelo hierárquico tradicional, permitindo ao dramaturgo escolher heroínas até então inaceitáveis.

O público aplaudia. Em parte, porque as heroínas, que encarnavam o oposto do ideal dominante, atuavam não só como forças de renovação, mas também de harmonia. E também porque, na fuga da realidade, a mulher assumia status inferior ao que tinha antes. Rosalind, herdeira do trono, torna-se humilde dona de um rebanho de ovelhas. Portia, rica herdeira, torna-se advogado júnior. Viola, que pertencia à nobreza, torna-se pajem.

O importante é que Julia, Rosalind, Portia e Viola, como homens, podem se movimentar mais livremente e usar a inteligência para superar problemas, defender a própria vida e afirmar o direito de escolher o marido. Com Imogen, a estratégia muda, pois, vestida de pajem, ela parece dar corpo ao ideal da androginia, definida como equilíbrio entre os princípios masculino e feminino.

Todas elas — ativas, dinâmicas e engenhosas — equilibram as qualidades associadas à masculinidade com constantes lembretes de feminilidade. Portia pode empreender uma jornada ousada e resolver um caso legal difícil, ensinando uma lição aos homens, mas resolvido o caso, deixa a punição para a autoridade masculina. Rosalind, em momentos de crise, prova sua sensibilidade e desmaia ao ver sangue no lenço de Orlando. Entretanto, aproveita seu lado masculino, pois declama o epílogo, privilégio reservado a personagens masculinos no drama elisabetano. Quanto a Viola, o golpe no seu papel masculino é a volta de Sebastian, pois os gêmeos em si já representam o conceito de androginia.

Usando o crossdressing para tornar ambígua a identidade de gênero, Shakespeare desconstrói estereótipos. Ao mesmo tempo, reafirma a variedade da união de impulsos opostos.

Vale lembrar ainda que o crossdressing era prática no teatro elisabetano: todos os papéis femininos pertenciam a atores-meninos, uma convenção de palco da época. O mundo mudou. Hoje, cada vez mais mulheres têm papéis masculinos, e a companhia teatral All Female Shakespeare Co. encena com um elenco apenas de mulheres. O Royal Shakespeare Theater escolhe atores para qualquer papel sem considerações de gênero.

A coisa se complica nas peças em que o esquema de crossdressing já é complexo. Em Do jeito que você gosta, um ator interpreta Rosalind, que finge ser rapaz. No epílogo, por um momento, Rosalind abandona seu papel e, como ator, se dirige ao público para anunciar o que faria se fosse mulher.

Para terminar, lembro que nós não escolheremos a última roupa que usaremos. Os irmãos de Imogen, acreditando que ela está morta, dão-lhe uma mortalha de flores. E intercalam suas vozes na mais sombria canção das comédias de Shakespeare (da qual tomo a liberdade de traduzir uma parte):

“Não mais temas o sol escaldante,
nem a fúria do inverno gelado.
Já descansas, flor deslumbrante,
depois de cumprido o teu fado.
Todos os jovens, como os poemas,
sempre ao pó estão destinados.
Aos tiranos não mais temas,
nem aos golpes desalmados.
Do raio, não mais tenhas medo,
nem do trovão ribombante.
Não mais temas o degredo,
nem a crítica arrogante […]”

Quem escreveu esse texto

Eliana Cardoso

Economista e escritora, é autora de Dama de paus (Nova Fronteira).