Psicologia,

Diários de uma guerra interior

Guardados a sete chaves por décadas pelos herdeiros de Jung, ‘Os livros negros’ oferecem uma visão única das origens da psicologia analítica

01maio2021 - 09h31 | Edição #45

Os Livros negros, que acabam de ser publicados pela primeira vez não só no Brasil, mas no mundo, retratam um momento crítico da trajetória do psicólogo suíço Carl Gustav Jung (1875-1961): o período entre 1913 e 1932, da consumação da traumática ruptura com Sigmund Freud até a consolidação dos principais conceitos e temas de sua própria corrente de pesquisa e terapia, conhecida como psicologia analítica.

Para Sonu Shamdasani, organizador da edição, não se trata de diários na acepção corriqueira do termo, ou seja, de confidências meramente pessoais, mas de “registros de uma auto-experimentação singular que Jung chamou de um ‘confronto com o inconsciente’”.

Essa auto-experimentação consistiu no exercício do que viria a ser uma das marcas da terapêutica junguiana, ao lado da interpretação dos sonhos: a imaginação ativa, método pelo qual o paciente, sob o atento acompanhamento do analista, é convidado a contemplar e “conversar” com personagens psíquicos portadores de conteúdos inconscientes relevantes para destravar os nós emocionais e construir uma nova compreensão da vida. 

Se, diria Jung mais tarde, “nos concentramos sobre uma imagem interior e cuidados de não interromper o desenrolar natural dos eventos, nosso inconsciente produzirá uma série de imagens que formarão uma história completa”. […] Isso acelera o processo de maturação, uma vez que, com efeito, a análise é processo de maturação acelerada”. A essa maturação, que passa pela aceitação (Annahme) das realidades internas mais obscuras e desagradáveis, até então confinadas na “sombra” do sujeito, Jung dará o nome de processo de individuação.

A aposta é de que essa espécie de psicodrama interior levará o paciente a parar de reprimir seus conflitos, de “remediá-los” (inclusive com uso indiscriminado de medicações) ou de projetá-los em pessoas e situações externas; o inconsciente, mais bem acolhido, tenderia a ser mais colaborativo. Ele deixaria de ser a irritante “mosca na sopa” cantada por Raul Seixas. Diante dessa atitude receptiva (mas não meramente passiva) por parte da consciência, o inconsciente passaria a se comunicar com símbolos, melhor representação possível, em dado momento, de conteúdos que ultrapassam o entendimento do ego e que por isso mesmo o abrem para o Si-mesmo ou a personalidade total, até então bloqueada. Foi isso que Jung, antes de pregar para os outros, vivenciou solitariamente, segundo testemunhado pelos Livros negros

O célebre Livro vermelho, que também só veio a público muito recentemente, em 2009, nasceu dos Livros negros e traz reelaborações e magníficas ilustrações pictóricas de parte dos textos registrados inicialmente neles. Os Livros negros, porém, prosseguem sendo escritos por um prazo bem maior (a superposição entre ambos se dá sobretudo entre 1913 e 1916) e registram ecos de experiências novas, como a viagem de Jung para a África, em 1920, em busca de evidências “etnológicas” de suas teses sobre o inconsciente coletivo — esse substrato psíquico universal que Jung descobrira primeiramente dentro de si e de seus pacientes manicomiais e nos grandes textos mitológicos do passado. Juntos, os dois materiais são imprescindíveis para a compreensão dos bastidores subjetivos da construção de uma das vertentes mais importantes da psicologia moderna.

Longo sigilo

Tanto os Livros negros como o Livro vermelho (cujos títulos se referem às cores das capas dos manuscritos) eram documentos de que já se tinha notícia na comunidade junguiana. Mas os herdeiros do espólio de Jung os guardaram a sete chaves por décadas. 

Por que um sigilo tão longo? O que poderia haver ali de tão escandaloso, mesmo não se tratando de diários pessoais, mas sim de uma torrente de especulações visionárias com as quais um homem em crise de meia-idade recebia, de modo quase “mediúnico”, demônios, deuses pagãos e personagens bíblicos? Acerca deste “elenco” sincrético, aliás, podemos citar, entre os protagonistas: o profeta Elias; a femme fatale Salomé, dançarina que, cultuada na virada do século 19 para o 20 por outros grandes nomes da cultura europeia, como Oscar Wilde, fizera outro profeta, João Batista, literalmente perder a cabeça; e Filêmon, um mago gnóstico inspirado no ancião homônimo que, anfitrião dos deuses, símbolo da reverência ao sagrado, foi atropelado pela sanha de “progresso” capitalista de Fausto, no clássico de Goethe.

Pode-se pensar no constrangimento familiar decorrente do fato de os textos fazerem referência cifrada às relações extraconjugais de Jung com algumas de suas pupilas, ou encarnações concretas do que ele chamava de sua “anima” (a dimensão feminina da alma dos homens, correspondente ao “animus” das mulheres), entre elas Toni Wolff. A “Alma” de Jung, interlocutora por excelência do “eu” dele — o que nos remete aos Solilóquios de Santo Agostinho com sua Razão —, chega a se queixar, mulher enciumada que é, do tempo e da energia que Jung gastava com suas “concorrentes” humanas. Ela chega a exigir, de quando em quando, que ele rompa com elas. 

Mas esses relacionamentos não eram propriamente um segredo, nem mesmo para Emma Jung, sua esposa, mãe de seus cinco filhos e bastião do lar, a quem o marido conseguiu convencer, não sem fazê-la sofrer, da necessidade psíquica e criativa, para um homem como ele, de não se limitar às convenções de um casamento monogâmico. 

O que poderia ser considerado mais constrangedor nesses materiais é seu teor mitopoético, por mais que aparentemente impessoal. É a possibilidade de que reforçassem as insinuações, disseminadas pelos ex-aliados freudianos, de que Jung trocara a ciência (que é como entendiam a psicanálise) pelo ocultismo ou até pela loucura. Ou seja, que a psicologia analítica fosse desnudada, senão como obra do delírio, ao menos como mera invenção “artística” — acusação, aliás, que Jung, em meio a sua guerra interior, ouviu justamente de sua “anima”, ou melhor, de outra de suas colaboradoras bastante íntimas, Maria Moltzer.

Daí a importância do tratamento editorial meticuloso conferido por Shamdasani, que, sem ser psicólogo, e nem mesmo um “junguiano”, mas sim historiador das ideias de Jung, tem conseguido tratar o legado do mestre suíço com uma objetividade, uma profundidade e um equilíbrio que muitas vezes faltam aos detratores e seguidores. Já na sua edição de Livro vermelho ele mostrou que as primeiras décadas do século 20 eram uma época de fronteiras ainda pouco rígidas entre literatura, arte e psicologia, o que favorecia intersecções entre elas em experimentos como a escrita automática dos surrealistas e trabalhos ficcionais de pesquisadores importantes como Alfred Binet e Gustav Fechner. 

A verdade do mito

Em monumental ensaio biográfico sobre o dramaturgo Jean Genet, Jean-Paul Sartre afirma: “Se desejarmos compreender esse homem e seu universo, não há outro meio senão reconstruir cuidadosamente, através das representações míticas que ele nos oferece, o acontecimento original a que ele se refere incessantemente e que reproduz em suas cerimônias secretas. Impõe-se um método: pela análise dos mitos, restabelecer os fatos em sua verdadeira significação”.

Essa estratégia bem que poderia se aplicar também à compreensão do percurso de Jung, um dos pensadores que mais contribuiu para que a própria ideia de “mito” fosse resgatada da pecha milenar que a tornava mero sinônimo de mentira, embuste, ilusão. 

Psiquiatra de renome internacional antes mesmo do encontro com Freud em 1907, Jung se tornaria rival de seu ex-mestre como ícone cultural, para além dos limites de sua especialidade profissional. A influência de conceitos tipicamente junguianos — como inconsciente coletivo, introversão e extroversão e sincronicidade — é notável tanto em grandes escritores, dramaturgos, músicos e cineastas quanto no misticismo da chamada Era de Aquário. Não por acaso uma de suas fotografias foi parar na capa do célebre álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.

Os Livros negros mostram como Jung consolidaria uma psicologia marcada pela ênfase na dimensão imaginativa da psique. Em escolas mais racionalistas, como a de Lacan, o “imaginário” tende a uma conotação negativa, de esfera de ilusões, a que Jung se contrapôs, abrindo caminhos que no Brasil impactaram fortemente a revolução arteterapêutica promovida por Nise da Silveira junto a pacientes esquizofrênicos que libertou da tirania dos eletrochoques. 

Se a psicanálise, desde seus primórdios, se afirmou como uma talking cure, cura pela fala, Jung agregou uma ênfase toda particular à cura pela imagem — à aposta na potência dos símbolos, em especial os do sonho, mito individual, e os do mito, sonho coletivo. 

Sonu Shamdasani mostra como, depois de se livrar do que considerava o reducionismo sexual e a ênfase no inconsciente meramente pessoal, por parte de Freud, Jung se lançou em busca de seu próprio tempo perdido, isto é, de sua paixão infantil pelos “mitos” contados a ele pelo seu próprio inconsciente de dia e à noite, nas brincadeiras, nos devaneios e nos sonhos que vinham compensar as angústias de uma criança isolada — após várias gestações frustradas, antes mesmo do nascimento de Carl, sua mãe lhe daria uma irmã quando ele tinha já nove anos. 

Na escola, o menino também não encontrava colegas que lhe compensassem o anseio pela imersão no “mundo de Deus”, ou seja, nos mistérios e potências naturais, entre elas as cataratas do rio Reno, perto das quais ficava o presbitério onde ele morava. 

Sua casa, aliás, apesar de tão próxima das amplidões da natureza, era sufocada (Jung se serviria, nas suas memórias, de imagens semelhantes de asfixia ao tratar dessa realidade doméstica e de seu desconforto com a psicanálise) pelos conflitos conjugais; a mãe, cindida entre uma identidade mais convencional de dona de casa e um “lado B” mais misterioso e inquietante, chegou a passar meses internada por conta, ao que parece, de problemas emocionais. Além disso, pesava o fardo de uma religião, a do pai pastor luterano, que o filho retrataria, nas suas memórias de octogenário, como rígida, árida, triste. 

O pequeno Carl era “vingado” dessas opressões concretas mediante brincadeiras com a construção e a destruição de fortificações, desenhos de guerras e visões extravagantes, entre elas a do próprio Todo-Poderoso, do alto de seu trono celestial, defecando sobre a catedral da Basileia. E o Jung de 1913 enfrentou o luto de sua identidade (ou, segundo outro léxico-chave da sua psicologia madura, de sua “persona”) freudiana também com o mixed blessing de um imaginário efervescente.

O processo que culminou nos Livros negros teve como ponto de partida visões perturbadoras, como a que lhe tomou de assalto, certo dia, em uma viagem de trem para o cantão suíço de Schaffhausen: a Europa tomada por um dilúvio de sangue. Ele temeu, experiente como era no tratamento de psicóticos, que tal imagem fosse prenúncio do colapso de sua própria sanidade; só se sentiu aliviado, por mais estranho que isso pareça, quando da eclosão, poucos meses depois, da Primeira Guerra Mundial: teve então a certeza de que a destruição anunciada pelo seu inconsciente se referia ao caos coletivo. 

O pesadelo da História

O escritor Paul Valéry, a propósito da guerra iniciada em meados de 1914, cunhou a célebre frase: “Temo que o espírito esteja se transformando em coisa supérflua”. Mais do que um conflito político circunstancial, o que se tinha era uma “modificação tão grande e tão detestável naquilo que chamaria de ‘sensibilidade ética’ dos indivíduos, na ideia que fazem de si mesmos e de seus semelhantes. […] A era do bem e do mal é uma era superada”. Hitler, Hiroshima e outros tantos genocídios de ontem e de hoje mostram a pertinência continuada desse diagnóstico.

Os Livros negros, embora não teçam comentários diretos sobre sua época, nem se configurem como uma obra literária dotada de algum enredo linear e “mensagem” geral, certamente oferecem preciosa documentação sobre a degeneração da História a um pesadelo do qual o herói do Ulisses joyciano gostaria de despertar.

Em um dos diálogos do “eu” de Jung com sua Alma, transcrito em janeiro de 1914, ela lhe pergunta: “Queres aceitar o fragmentário, o despedaçado? Queres o trapo em vez da roupa toda, o botão em vez da calça, a vela em vez do sol? Queres o que foi misturado sem sentido, o derretido, o esfarelado?”.

Jung então, com aquela atitude de Annahme que já mencionamos como ingrediente ético fundamental ao processo de individuação, declara: “Aceitarei, minh’ alma, o escuro que me dás. Não cabe a mim o direito de julgar e rejeitar. O destino separará o joio do trigo”.

A Alma, qual um guru testando seu pupilo, insiste: “Escuta, então: há aqui embaixo velhas armaduras e equipamentos dos nossos pais, carcomidos pela ferrugem, correias de couro mofadas estão presas neles, hastes de lanças comidas pelos vermes, pontas de lanças retorcidas, flechas quebradas, escudos apodrecidos, caveiras, ossos de homem e cavalo, antigos canhões, catapultas, tochas decompostas, ferramentas de assalto destroçadas –tudo que as batalhas de outrora deixaram no campo. Aceitarás tudo isso?”.

O eu volta a responder que sim. Mas isso não é tudo: “(…) Mas encontro coisa pior –fratricídio –assassinato covarde –tortura –sacrifício de crianças –extermínio de povos inteiros –incêndio –traição –guerra –revolução — isso também?.

Isso também, se for preciso. Mas como posso julgar?

Encontro epidemias –catástrofes naturais –navios afundados [o naufrágio do Titanic se dera entre a noite de 14 de abril e a manhã de 15 de abril de 1912] –cidades destruídas –terríveis animais selvagens –fomes –falta de amor das pessoas –e medo –montanhas inteiras de medo.

Assim seja, pois tu o dás”. 

Se dermos um voto de confiança à capacidade profética do inconsciente de Jung, a alusão às epidemias poderia ser considerada um aviso sobre a chamada gripe espanhola (1918-1920), tragédia que, como a atual, ceifou milhões de vidas mundo afora. Jung, aliás, foi contaminado. Acamado, com quarenta graus de febre, sentiu a vida escapando de suas mãos. Como em diversas outras de suas provações, o imaginário arquetípico lhe “enviou” uma série de visões esféricas, que mais tarde Jung denominaria como mandalas, símbolos de defesa e integração em tempos de guerra dentro da gente, como diria Leminski. 

‘Os livros negros’ de Jung não são diários pessoais, mas registros singulares de autoexperimentação

A título de comparação com outro autor que privilegiou as dimensões libertárias da imaginação, lembremos que Sartre se valeu de auto-experimentações com a mescalina quando dos preparativos de seu romance A náusea (1938). Vivenciou e registrou assim alucinações que ajudaram muito seu romance a se tornar um testemunho-chave, comparável ao de Jung, sobre a decomposição dos cânones da razão no século 20. Assim também, Jung, ainda que em outros termos, os de um confronto com o inconsciente (categoria que Sartre recusava), colocou-se a seguinte “pergunta científica”: “o que aconteceria se eu desligasse o consciente? Em meus sonhos, percebi que havia algo no segundo plano e eu queria dar àquilo uma chance justa de vir à frente. Submetemo-nos às condições necessárias — como num experimento de mescalina — para que ele emerja”. 

Transvaloração dos valores

Dos sete volumes correspondentes à edição dos Livros negros, o primeiro consiste basicamente no importante texto introdutório de Sonu Shamdasani, com informações biográficas e um resumo da evolução dos registros contidos nos seis livros seguintes, estes sim de autoria de Jung, trazendo o fac-símile dos originais e a sua tradução.

A primeira sequência (Livro 2) vai de 12 de novembro a 20 de dezembro de 1913. Pode ser caracterizada, segundo Shamdasani, como a busca por um método. “Retrata como Jung se volta para a sua alma e empreende uma reavaliação de sua vida, uma transvaloração de valores. Até então, ele estava sendo bem-sucedido e alcançara tudo que ambicionava. Então veio a visão a caminho de Schaffhausen, que fez com que ele retornasse para a sua alma. Ele se considera um anacoreta em seu próprio deserto, tentando encontrar metáforas visuais para conter e expressar sua experiência”. A partir dos cadernos seguintes, Jung aprofunda a introspecção e passa de uma postura passiva, contemplativa, a um diálogo cada vez mais intenso, quando não ríspido, com as personificações de seu inconsciente.

A escolha das palavras nunca é gratuita: ao falar em “visão a caminho de Schaffhausen”, Shamdasani faz-nos lembrar o “a visão a caminho de Damasco” que consumou, segundo a tradição cristã, a conversão do apóstolo Paulo. Pretende-se assim sublinhar a radicalidade da experiência interior em que Jung mergulhou a partir de então. Já a expressão “transvaloração de valores” mostra que, ao contrário de uma conversão cristã, a transformação de Jung documentada pelos Livros negros tem mais a ver com Nietzsche. 

Se o fim da era do bem e do mal, tal como denunciado por Valéry, denota a tragédia do espírito humano em tempos de recrudescimento da barbárie, é no diálogo com o filósofo do “para além do bem e do mal” que Jung encontra uma de suas maiores inspirações para explorar a fundo, e nas profundezas de si mesmo, o acontecimento histórico da morte de Deus. Ou, ao menos da imago Dei (imagem de Deus) vigente por séculos na crença da civilização ocidental. 

Os registros sobre deuses como o gnóstico Abraxas e Wotan (que seria a versão germânica do deus reverenciado por Nietzsche, Dionísio) apontam, segundo o radar mitopoético de Jung, para uma tendência no inconsciente coletivo de renascimento da divindade em formas pós-cristãs, ou seja, para além dos maniqueísmos morais. Esse debate interior se expandiria, no polêmico livro Resposta a Jó (1952), em uma contundente batalha de Jung contra a atitude de muitos devotos que se apegam a uma santidade de fachada e que tentam isentar seu “Deus de Amor”, Pai das Misericórdias, do escândalo do Mal que avassala o mundo de tantas maneiras e desde sempre.

Verificar objetivamente as tendências do inconsciente coletivo nem sempre implica ser cúmplice delas. Uma dessas mutações pós-cristãs do anseio humano por deuses (considere-se a catástrofe de termos hoje um Brasil presidido pelo “mito”, e não pela razão) é a ideologia política totalitária. Wotan, que começa a aparecer nos registros dos Livros negros a partir de 1922, seria a chave para explicar que um povo de índices civilizatórios tão sofisticados como o alemão sucumbisse à epidemia psíquica do nazismo.

Esse trecho de os Livros negros dá subsídios valiosíssimos para se repensar uma das acusações mais graves já feitas contra Jung — como também se fez, retrospectivamente, a Nietzsche: a de ser um simpatizante nazista. Tal denúncia se alimentou de fatos como Jung ter assumido, logo após a chegada ao poder de Adolf Hitler, a presidência da Sociedade Médica Internacional Geral para a Psicoterapia, predominantemente alemã e que contou como administrador, entre outros, com um sobrinho de Hermann Göring, um dos líderes do Partido Nacional-Socialista. Especulações “científicas” a que se arriscou sobre diferenças intrínsecas de personalidade entre judeus e arianos reforçaram essas suspeitas.

Mas Jung não é Heidegger: nada naqueles anos sombrios aponta para um envolvimento ativo do psicólogo suíço com o movimento nazista. Uma das chaves aqui talvez seja justamente o fator suíço: Jung se pautava, ao menos naqueles primeiros anos da era Hitler, pela política de neutralidade adotada por seu país havia séculos. Ele, aliás, encarava como tipicamente suíça a disposição de “introverter a guerra”, ou seja, de abordar o conflito dos opostos dentro de casa, quando não dentro de si, e não no exterior, segundo sua biógrafa Barbara Hannah. Os Livros negros dão disso testemunho eloquente.

Mas cabe ressaltar que, mais recentemente, outra biógrafa, Deirdre Bair desencavou dados inéditos que comprovam que Jung não só não foi um colaborador de Hitler como também atuou como um agente aliado durante a Segunda Guerra, conhecido como "Agente 488", fornecendo relatórios para o serviço de inteligência norte-americano com o perfil psicológico de expoentes do nazismo. Além disso, prossegue Bair, quando Eisenhower (general na Segunda Guerra e presidente dos EUA entre 1953 e 1961) quis distribuir panfletos à população civil alemã para trazer a guerra a um fim rápido, ele consultou Jung sobre o que deveria ser escrito.

Quanto às acusações de antissemitismo de Jung, os próprios Livros negros como que se antecipam e, num registro de 26 de dezembro de 1913, fazem-nas ganhar voz contra ele; o eu de Jung as rebate, porém, com o argumento de que apontar peculiaridades psíquicas negativas de um povo não significa necessariamente discurso de ódio.

Os Livros negros nos mostram que não os judeus em geral (vários deles foram colaboradores próximos de Jung por toda a vida), mas sim um, em particular, lhe deixou feridas profundas e ressentimento duradouro. Estamos falando, é claro, de Freud. Vide a virulência “parricida” de uma das raras passagens em que seu ex-mestre parece ser diretamente evocado nos Livros negros. Em registro de setembro de 1916, a Alma de Jung pergunta ao eu dele:

“— O que há com o velho que tu abateste? Talvez ele estivesse certo? Como?
— Eu concordei com ele na medida em que lhe cabia. Mas eu também estava certo. O que há com ele?
— O que ele diz sobre a sexualidade, tu acreditas nisso?
— Certamente, mas também na outra coisa, pois também é verdadeira, na medida em que a verdade pode ser verdadeira.”

A “outra coisa”, no caso, parece ser a tese de outro ex-discípulo de Freud, Alfred Adler, que defendia, na esteira de Nietzsche, que era a vontade de poder, e não a sexualidade, a dimensão instintiva crucial na configuração dos contornos e sofrimentos da vida mental. Essa passagem reflete também uma postura metodológica pragmática e relativista marcante do Jung teórico.

Os conceitos e métodos, na psicologia, importariam muito menos pela autoridade de quem os formula do que pela capacidade de ressoarem clinicamente na transformação da vida, num caminhar com menos sofrimento e com mais completude, o que não quer dizer perfeição. As verdades do analista, sempre hipotéticas, podem ser mais “verdadeiras”, ou seja, eficazes, conforme se adequem à experiência caso a caso, e conforme o estilo de ser de um paciente se mostrar mais potencialmente freudiano, winnicottiano, lacaniano, junguiano, se prestar mais ou menos bem a uma ou outra dessas leituras. Não é assim que se dão os bons e maus encontros entre as obras de arte e as mais diversas possibilidades de serem interpretadas?

A guerra interior de Jung, nos Livros negros, rendeu momentos quase masoquistas. Em um deles, a Alma “subiu ao céu” e o deixou a sós com seu eu, e ele se entrega a um doloroso acerto de contas com uma série de fraquezas e hipocrisias que precisava então aceitar. Esses comentários aparecem em um registro de 19 de abril de 1914. No dia seguinte, Jung entregou seu cargo como presidente da Associação Psicanalítica Internacional. Dez dias depois, se demitiria da faculdade de medicina da Universidade de Zurique, onde fora conferencista. Retomaria cursos e seminários e abriria entidades associativas mais tarde, já sob a segurança de contar com uma psicologia própria, reflexo de um eu mais em paz consigo e com suas sombras.

Esses são apenas alguns dos diamantes em estado bruto que o interessado no percurso e legado de um dos gênios do chamado século da psicologia pode encontrar na leitura paciente dos Livros negros.

São “cadernos de transformação”, como diz o subtítulo da edição, que também têm o poder de nos inspirar em nossas próprias lutas por autoconhecimento, criatividade e reinvenção pessoal e coletiva. Ainda mais nestes tempos, tão abissais quanto os da saga de Jung, de graves desafios à nossa própria sanidade quando é o próprio real que parece desistir de ser normal.

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Quem escreveu esse texto

Caio Liudvik

É pós-doutorado em filosofia, sociólogo e autor de Sartre e o pensamento mítico (Loyola).

Matéria publicada na edição impressa #45 em abril de 2021.