Literatura brasileira,

Poética insubmissa

Os registros do falatório de Stella do Patrocínio não teriam existido sem a luta antimanicomial brasileira

24out2021 - 23h00 | Edição #51

Entre as fissuras do manicômio, a poesia insubmissa de Stella do Patrocínio emergiu para que não viesse a sucumbir na frieza e na dureza instaladas ao seu redor, onde a vida pouco tem espaço para pairar e percorrer os corredores e as celas fortes — apenas os gritos são ouvidos ali. Portanto, há vozes que clamam por ser ouvidas, mas que não encontram espaço de escuta.

Nesse sentido, podemos dizer que Stella do Patrocínio é uma daquelas que se esforçaram para não ser deterioradas no interior do manicômio e na sua estrutura de produção de morte, transformando a dor do existir mulher negra, pobre e louca em falatórios poéticos insubmissos. Diagnosticada com esquizofrenia e internada, em 1962, aos 21 anos, no Centro Psiquiátrico Pedro 2º, no Rio de Janeiro, foi transferida quatro anos depois para a Colônia Juliano Moreira, permanecendo lá até a sua morte, em 1992.

Com uma formação de nível secundário, trabalhou como doméstica na mesma residência que sua mãe, Zilda Francisca do Patrocínio. O curioso é que ambas foram institucionalizadas no Núcleo Teixeira Brandão, na Colônia Juliano Moreira, ao mesmo tempo. Apesar da condenação da morte em vida, a poeta não chegou a conviver com a mãe no hospício, ainda que existam relatos de poucos encontros entre as duas no local. Seguiu distante de seus familiares dentro e fora do maquinário hospitalocêntrico, apesar de ter recebido algumas visitas da irmã e do sobrinho.

É importante salientar quanto a lógica manicomial captura corpos e subjetividades que destoam da noção de “homem universal” e representam o perigo, a violência e a irracionalidade. No caso da população negra e pobre, a institucionalização faz parte das estratégias políticas e econômicas do Estado racista, conforme podemos identificar na vida de Stella e na de sua mãe. Ambas atravessadas pelo racismo, sexismo e classismo, foram destinadas à internação e à morte subjetiva no hospício. Como já sinalizava Lima Barreto, em Cemitério dos vivos, “o negro é a cor mais cortante” do hospício.

Além do manicômio, as prisões e as instituições de medidas socioeducativas também são maquinários de controle, sujeição e mortificação das subjetividades e dos corpos animalizados e objetificados pelo racismo e pela colonialidade. Para o psiquiatra italiano Franco Basaglia, em A instituição negada, todas as três são instituições da violência, o que as torna funcionais para a reprodução das desigualdades e opressões.

Influenciadas pelos múltiplos movimentos de reforma psiquiátrica na Europa, em destaque a Psiquiatria Democrática Italiana, mobilizações que denunciavam os maus-tratos, a violência e as múltiplas violações nos hospitais psiquiátricos eclodiram no final dos anos 70, no Brasil. Salientamos que naquele período diferentes pensadores internacionais vieram ao país, como Basaglia, Goffman, Foucault, dentre outros, proporcionando uma “animação” entre os brasileiros. A vinda de Basaglia, em especial, foi fundamental para provocar mudanças epistemológicas, clínicas e políticas no interior do campo da saúde mental.

Caminhando lado a lado com o processo de democratização, a reforma psiquiátrica ganhou estofo por meio de articulações e movimentações realizadas, em um primeiro momento, por profissionais do campo. Foi durante o 2º Encontro de Trabalhadores de Saúde Mental, ocorrido na cidade de Bauru, em 1987, que emergiu o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial (MNLA), tendo em sua composição usuários, familiares e trabalhadores. Além disso, lançou-se a carta que apresenta os princípios da luta antimanicomial brasileira e tem o lema “Por uma sociedade sem manicômios” como diretriz central. Logo, o fim dos hospícios representa a superação de uma sociedade racista, patriarcal, sexista, LGBTfóbica, classista, proibicionista etc.

Não é novidade que escritos e falas de mulheres, em especial das negras, sempre couberam (apenas) nas tramas da loucura

No final dos anos 80, iniciávamos os primeiros passos da reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial, iniciando algumas intervenções. Além da inauguração do primeiro Centro de Atenção Psicossocial (Caps), na cidade de São Paulo, tínhamos diferentes propostas pioneiras acontecendo pelo país. Aqui destacamos o trabalho desenvolvido na Colônia Juliano Moreira. Com o objetivo de criar um ateliê, Denise Corrêa convidou a artista plástica Nelly Gutmacher, na época professora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e seus estagiários para comporem o projeto. Ao longo de dois anos trabalharam no que resultou na exposição O ar do subterrâneo, realizada no Paço Imperial, no centro do Rio.

Durante a execução das atividades desenvolvidas no ateliê, a voz de Stella do Patrocínio foi ouvida e registrada pela primeira vez, não mais como um eco que circula pelas fissuras do manicômio, mas como a intérprete principal de seus falatórios. Podemos dizer que as vozes da loucura incomodam uma sociedade que nega a si mesma e seus próprios sofrimentos e recalca as próprias dores, tendo na instituição psiquiátrica o respaldo para tratar todo falatório incondizente. Afinal, de quem é a incorrência? Dessa forma, o não dito compõe as relações e estrutura nossa sociedade, que prefere silenciar os males que a forjam, institucionalizar, medicalizar e patologizar aqueles que são atravessados pelos mecanismos de destruição.

Silenciamento

Chimamanda Ngozi Adichie, em O perigo de uma história única, nos alerta sobre a universalização de narrativas hegemônicas que apagam e silenciam vozes consideradas subalternas e inferiores. Já em Luta antimanicomial e feminismos: discussões de gênero, raça e classe (Autografia), trazemos diferentes análises e críticas sobre a homogeneização da experiência da loucura e a urgência de a reforma psiquiátrica brasileira identificar os corpos e subjetividades que sempre estiveram ocupando as instalações psiquiátricas, desde a inauguração do primeiro hospício no país, em 1852. Portanto, não é novidade que escritos e falatórios de mulheres, em especial das negras, sempre couberam (apenas) nas tramas da loucura.

Stella do Patrocínio não foi a única a ser silenciada, esquecida e relembrada apenas postumamente. Podemos retomar Adelina Gomes — uma das artistas do ateliê coordenado pela psiquiatra Nise da Silveira; Dona Ivone Lara, que, além de sambista e compositora, também exerceu a função de assistente social no Centro Psiquiátrico Pedro 2º; e a psiquiatra, psicanalista e militante Neusa Santos Souza. Mulheres negras diferentes, em situações diversas, que foram esquecidas ou não lembradas por narrativas hegemônicas. Essas e outras vozes estão retratadas na coletânea Saúde mental, racismo e subjetividade: o pioneirismo negro, a ser lançada pela Editora Hucitec e pelo selo Diálogos da Diáspora. O referido livro propõe-se a resgatar mulheres e homens negros que construíram resistências na saúde mental e foram invisibilizados pelo racismo estrutural e suas expressões na saúde mental brasileira. Resgatar os baluartes se faz necessário para revelar os feitos daquelas/es que já protagonizavam passos antimanicomiais.

Nesse sentido, abordar Stella do Patrocínio é resgatar uma história individual e coletiva, conforme apontou Anna Carolina Vicentini Zacharias, na matéria “Stella do Patrocínio, ou o retorno de quem sempre esteve aqui”, publicada pela revista Cult em 2020. A poesia de Stella não apresenta apenas uma estética insubmissa aos cânones da literatura brasileira, mas também representa a arte que emerge das entranhas da terra árida afirmando a resistência da vida.

Stella tinha uma forma singular de recitar e transmitir emoção em seu falatório que não pode ser expressa na escrita. Portanto, as transcrições e a publicação proporcionaram duas expressões de Stella do Patrocínio: voz e escrita. Mas o que realmente é dela e o que é nosso? Um produto singular e coletivo. As palavras de Stella desapareceram após sua internação no Hospital Cardoso Fontes com hiperglicemia grave, o que ocasionou a amputação de uma de suas pernas, seguida de uma infecção grave que levou à sua morte.

Desse modo, o silêncio não é cabível em uma narrativa poética sobre Stella do Patrocínio. Retomar voz, performance e poesia insubmissas nos permite rever nossas construções e caminhos na reforma psiquiátrica e na luta antimanicomial brasileira. Em tempos em que a naturalização da destruição da vida está vigente, torna-se urgente trazer à tona falatórios e práxis contestadores como os de Stella do Patrocínio.

Este texto foi feito com apoio do Itaú Cultural

Quem escreveu esse texto

Rachel Gouveia

Professora da UFRJ, escreveu os livros Trabalho, gênero e saúde mental: contribuições para a profissionalização do cuidado feminino (Cortez, 2018) e Teorias e filosofias do cuidado: subsídios para o Serviço Social (Papel Social, 2018).

Matéria publicada na edição impressa #51 em setembro de 2021.