Especial Pantanal, Poesia,

A excursão poética de Manoel de Barros

O mais famoso poeta do Pantanal fazia a natureza avançar em suas palavras, sugerindo paisagens imaginadas

01ago2022 - 04h51 | Edição #60

Manoel de Barros nasceu em 1916, em Cuiabá (MT), morou no Rio de Janeiro por um período curto e viveu a maior parte de sua vida no Pantanal mato-grossense. Publicou seu primeiro livro de poesia em 1937, Poemas concebidos sem pecado, em edição artesanal. Faleceu aos 98 anos em Campo Grande (MS), com mais de vinte livros publicados e dezenas de prêmios acumulados, como o Prêmio Nacional de Literatura, do Ministério da Cultura, pelo conjunto da obra (1998), o Prêmio Jabuti, na categoria Livro do Ano Ficção (2002), o Prêmio de Literatura Casa da América Latina/Banif de Criação Literária (Lisboa, 2012), entre muitos outros.

A infância no Pantanal mato-grossense é apontada por estudiosos de sua obra como possível fonte de inspiração para a poética singular do autor, assim como a profunda ligação de sua linguagem com a natureza: “A natureza avançava nas minhas palavras. […] Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar”. Em uma entrevista, o poeta declarou: “Gosto do Pantanal ao ponto que o meu idioma não sirva mais para comunicar, senão apenas para comungar. […] Minha linguagem sempre será de comunhão. É dessa forma que em mim o Pantanal se expõe. Tenho dentro de mim um lastro de brejos e de pássaros que inevitavelmente aparecem na minha poesia”.

Estado de infância

As relações entre infância e poesia são, muitas vezes, explicitadas pelo próprio poeta, como neste trecho da introdução que ele escreveu, por ocasião da publicação de Poesia completa (Leya, 2010): “poesia é a infância da linguagem”. Se tomarmos o conceito de “núcleo de infância”, cunhado pelo filósofo Gaston Bachelard ao pensar a poética do devaneio, veremos que não se trata de uma escrita pautada em reminiscências infantis, mas de um certo “estado de infância” que aproxima a criança e o poeta a partir da novidade com que olham o mundo. Em certa medida, na poética do autor, isso se expressa numa postura marota, livre e transgressora diante da linguagem, própria de quem tem na experiência da escrita poética um modo de vida. 

Em um de seus últimos livros, Menino do mato (Alfaguara, 2010), é possível colher inúmeros versos em que essa relação se explicita: “Eu sonhava de escrever um livro com a mesma inocência com que as crianças fabricam seus navios de papel”; “Eu só faço travessuras com as palavras”; “A infância da palavra já vem com o primitivismo das origens”. 

É especialmente a partir da década de 60 que suas obras consolidam um estilo peculiar de escrita, reconhecido pela crítica e admirado por escritores e intelectuais como Antonio Houaiss e Carlos Drummond de Andrade, que chegou a considerá-lo o maior poeta brasileiro vivo. Manoel de Barros fertiliza a língua em brilhantes neologismos, cria aproximações insólitas e reverencia a inutilidade material da poesia, como nestes versos que integram Livro de pré-coisas (1985): “Atribuir-se natureza vegetal aos pregos para que eles brotem nas primaveras… Isso é fazer natureza. Transfazer”. 

Manoel de Barros brinca de fingir que pode interromper o voo dos pássaros

Nesse mesmo livro encontramos uma menção mais direta à região natal do poeta, já no subtítulo: “Roteiro para uma excursão poética no Pantanal”. Nas páginas iniciais, lemos: “Este não é um livro sobre o Pantanal. Seria antes uma anunciação. Enunciados como que constativos. Manchas. Nódoas de imagens. Festejos da linguagem”. 

O passeio proposto se dá na língua das garças e dos tuiuiús, em meio aos brejos alagadiços, saltos de rãs e sapos

A excursão poética ao Pantanal anunciada no subtítulo do livro leva o leitor a paisagens imaginadas, ainda que possa reconhecer aqui e ali a flora e a fauna da região. Manoel de Barros faz questão de pontuar que poesia não é explicação, é “anunciação”. Não é constatação pura e simples, é nódoa, mancha, festejo. Estamos no reino da sugestão, mais do que da apresentação: “para cantar é preciso perder o interesse de informar”./ “Escrever o que acontece não é tarefa da poesia.”.

O passeio proposto na incursão poética ao Pantanal se dá na língua das garças e dos tuiuiús, em meio aos brejos alagadiços, saltos de rãs e sapos, “essas pré-coisas de poesia”. 

O amor à vitalidade da região, em contraposição à destruição provocada pelo homem, ecoa em muitos de seus versos

O modo Manoel de Barros de transver o Pantanal mato-grossense, abrindo grande-angulares diante do leitor, faz parecença com o modo Pantanal de ser biodiverso, um complexo de ecossistemas em uma região que celebra o encontro de cinco biomas e é a maior área úmida do planeta, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera. 

Nas palavras do poeta, essa grandiosidade se condensa em poucas linhas: “No Pantanal ninguém pode passar régua. Sobremuito quando chove. A régua é existidura de limite. E o Pantanal não tem limites”. 

O autor já não estava mais aqui quando o Pantanal foi atingido pelos maiores incêndios de sua história, em 2019 e 2020, que destruíram cerca de 4 milhões de hectares — 26% do bioma —, uma área maior que a Bélgica. Mas o amor à vitalidade exuberante da região, em contraposição à destruição provocada pelo homem, ecoa em muitos de seus versos: 

“Quando meus olhos estão sujos da civilização, cresce
por dentro deles um desejo de árvores e aves.
Tenho gozo de misturar nas minhas fantasias o
 verdor primal das águas com as vozes civilizadas”. 

O especial Pantanal tem o apoio de Documenta Pantanal

Quem escreveu esse texto

Cristiane Tavares

É crítica literária, coordena a pós-graduação Literatura para crianças e jovens no Instituto Vera Cruz (SP).

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.