Memórias do Chile,

A resistência no colchonete

Socióloga relembra os dias como refugiada na Embaixada da Argentina em Santiago, que abrigou mais de oitocentas pessoas

31ago2023 - 02h51 | Edição #73

A partir da greve dos caminhoneiros que paralisou o Chile, e sobretudo depois do tancazo (o ensaio geral), em junho de 73, a perspectiva de golpe se concretizou. Eu estudava no pedagógico, fazia estágio no Icira (instituto para a reforma agrária do país) e militava no MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária). Trabalhava com operários nos bairros pobres ao sul de Santiago. Aliás, estava lá na noite do tancazo.

Depois do tancazo, as manifestações de estudantes e operários contra o golpe recrudesceram. Eram em geral no centro de Santiago. Sempre reprimidas pelos carabineros com bombas de efeito moral, jatos d’água, gás de pimenta e cassetetes. Um estudante secundarista gaúcho do POC (Partido Operário Comunista) morreu em uma dessas manifestações. Chamava-se Nilton. E havia manifestações populares, com muitas mulheres, que percorriam o Barrio Alto subindo pela Providencia. Allende, El Chicho, negociando com os militares e esperando uma ajuda externa da União Soviética, que nunca veio. Veio um porta-aviões americano cheio de marines que ancorou em Valparaíso. Nossa expectativa de que os milicos se dividissem também não ocorreu. O golpe passou a ser uma questão de tempo. E haveria resistência, era o que esperávamos, da qual a maioria de nós, exilados, faria parte.

O golpe

Às sete da manhã do dia 11 de setembro, um amigo mirista telefonou avisado que o golpe havia começado em Valparaíso. Les jeux sont faits.

Vivíamos, meu companheiro Jorge, eu e uma amiga nascida em Nova York, filha de um cubano com uma francesa, numa “casita del Barrio Alto con rejas y antejardín”, como cantava Victor Jara. Nessa manhã, saí para o quintal de pijama, com a intenção de “sentir o clima”. Fui tirar as roupas do varal. A vizinha simpática estava na janela e me disse: — ¿Has visto que los militares se revoltaron? E eu, me fazendo de boba, respondi: — ¿Como en el tancazo? E ela: — No. Ahora es de verdad.

Voltei correndo e avisei Jorge e Ivette. A orientação dos partidos Unidad Popular e MIR era que todos deveriam ir para seus locais de trabalho ou estudo. Telefonamos para vários amigos e companheiros. Nos vestimos rapidamente para a guerra civil. Eu deveria ir para o pedagógico, e Jorge, para a Escola de Economia, do outro lado da cidade. Não topei. Minha militância não era na universidade, era em uma fábrica encampada pelos operários, e para lá não havia como ir. E, além disso, nunca mais nos veríamos. Fui então com Jorge para a Escola de Economia. Fomos na citroneta [Citroën 2CV] de um companheiro brasileiro, professor, e no caminho recolhemos outro professor e sua mulher. Cinco na citroneta. Mais um potente rádio para ouvir a BBC. E levávamos todo o dinheiro que tínhamos.

Saí para o quintal de pijama, com a intenção de “sentir o clima”. A vizinha simpática estava na janela e me disse: — ¿Has visto que los militares se revoltaron?

No caminho, tanques e milicos aos milhares ocupavam as ruas quase vazias. Notamos que cada batalhão usava um lenço de uma cor (azul, vermelho…). Passamos diante do La Moneda, totalmente cercado. Não nos interromperam, e chegamos à Escola de Economia já com tiros e bombas bastante perto. Nos mandaram para o Cesu (Centro de Estudos Socioeconômicos), que ficava em um sobrado, ao lado da Economia. Já lá estavam vários professores estrangeiros (André Gunder Frank e Ruy Mauro Marini entre eles). E chegavam mais. Eram nove da manhã. O tiroteio aumentava, rajadas de metralhadora, bombas, helicópteros rasantes. Passamos o dia rastejando para não sermos notados. Não havia energia elétrica. À noite continuou o bombardeio. Vimos de uma janela um helicóptero caindo em chamas. Comemoramos — havia resistência. No dia 12, a balaceira foi diminuindo progressivamente.

Na manhã do dia 13, a junta vitoriosa levantou o toque de recolher e voltamos para casa, sujos e famintos, com o super rádio e os dólares que tínhamos. Não fossem tiros esparsos, pareceria uma plácida manhã de domingo, ninguém na rua. Bandeiras do Chile nas casas fechadas indicando apoio ao golpe, e isso na parte pobre da cidade.

Fuzilamento simulado

Depois de alguns quarteirões, fomos cercados e presos por militares. De camburão, nos levaram para um hospital militar. No pátio do hospital, simularam um fuzilamento. Não tive medo naquela hora. Pensei: “Que merda! Vou morrer e não matei nenhum filho da puta desses”. Nos fizeram deitar de barriga pra baixo, braços estendidos, cercados pelos soldados. Ouvíamos, mais do que víamos, gritos, correrias, carros com feridos, muita gente.

Havia, afinal, feridos nas fileiras inimigas. Depois de um certo tempo, uma hora talvez, soldados com metralhadoras nos levaram em uma ambulância, não sabíamos para onde. Olhei para eles — eram tão jovens quanto nós, e estavam com tanto medo quanto. Havia um que tremia com sua metralleta dirigida a mim. Imaginei o que haviam dito sobre nós, comunistas que matam criancinhas, terroristas estrangeiros. Se uma abelha entrasse pela janela, de susto nos matariam.

Nos deixaram na delegacia de Nuñoa, perto da nossa casa. Havia muita gente entrando, saindo, algemados, alguns sangrando. Separaram homens e mulheres e levaram todas as nossas coisas. Os homens foram para o porão. Eu e Regina, a mulher do outro professor, ficamos num espaço com grade, onde guardavam as pessoas detidas durante a noite. Havia algumas prostitutas presas durante o toque de recolher. De repente, trazem um homem para nosso cubículo gradeado, o ministro José Tohá, da Unidad Popular. Velho digno com seu poncho rojo no braço.

Fiquei na grade observando. Não sei por que eu estava tão tranquila. Acho que me entreguei à realidade. Havia uma fila de pessoas dedurando vizinhos, parentes, conhecidos (“meu primo é comunista, o noivo da minha filha é socialista, meu vizinho trabalha no governo Allende”). Era cômico e trágico. Conversei com as putas e até com um milico que ficava andando de um lado para outro na nossa frente. Perguntei se sabia quanto tempo ficaríamos ali, o que aconteceria depois. Ele não sabia nada. Acho que gostou de eu ter falado com ele. Disse que recém havia entrado no Exército, era de Antofagasta e que todos haviam sido levados para Santiago durante a noite. Depois soubemos que o comando do golpe transferiu soldados de uma região para outra, para evitar ter que matar conhecidos, parentes, amigos.

No pátio do hospital, simularam um fuzilamento. Não tive medo naquela hora. Pensei: “Que merda! Vou morrer e não matei nenhum filho da puta desses”

Regina ficou brava porque eu falei com o inimigo. Não me importei. Regina não era militante, no entanto desapareceu em Buenos Aires dois anos depois.

No final do dia houve troca de comandantes na delegacia. Entrou um louro, cabelo escovinha, gritando com o mundo. Pensei: “Chegou o nazista”. O nazista chamou todos nós, brasileiros, numa espécie de tribunal. Perguntou se parte fazíamos do grupo que havia sido trocado pelo embaixador suíço. Não. Éramos apenas professores e estudantes.

Para nossa surpresa, devolveu nossos pertences, inclusive o dinheiro. E nos mandou cair fora. Faltavam minutos para o toque de recolher. Até tentei reclamar. Ele, que mais tarde soubemos, não era nada nazista, estava nos dando, aos berros, uma chance de sobreviver. Não devolveu o rádio para ouvir a BBC nem a citroneta. Aliás, não sei em que parte do caminho ficaram.

Saímos correndo porta afora, entrando em ruas secundárias até chegar à nossa casa, já de noite. Passamos a noite queimando papéis na lareira. No dia seguinte, o jardim estava cheio de fuligem e dava para ler páginas inteiras de documentos e jornais de esquerda. Limpamos ao máximo. E cada um foi para sua casa. Jorge e eu nos vestimos elegantemente e fomos ao centro da cidade tentar saber o que acontecia.

Aconteciam cadáveres descendo o rio Mapocho e um medo imenso. Não lembro como, soubemos que uma amiga brasileira, que não era exilada, mas mulher de um amigo bolsista da Fulbright, estava parindo em um hospital privado. Nasceu Joana. Fomos para lá. E lá ficamos vários dias, disfarçados de familiares. Nos contaram que a casa deles (com quem havíamos morado enquanto Jorge estava na prisão no Brasil) havia sido invadida, roubada, todos os livros queimados na rua. E a avó de Joana estava presente, aterrorizada…

Durante o dia, saíamos. Na Flacso (a faculdade de ciências sociais), havia um grupo que auxiliava exilados a encontrar asilo. Almino Affonso era um dos que orientavam os que procuravam. Lá, soube que a embaixada da Argentina ainda era possível, apesar do policiamento.

Na embaixada argentina

A embaixada da Argentina fica em um palacete na avenida Vicuña Mackenna, perto da praça Italia, na esquina de uma pequena rua. No dia 18 de setembro pela manhã, fui até lá com Jorge — que havia decidido não se asilar porque tinha chances de sair legalmente — verificar as condições. Era a minha única alternativa. Meu único documento legal era chileno, do governo Allende.

Estávamos na calçada oposta, observando a movimentação dos militares. Contra a opinião de Jorge, decidi atravessar e tentar. Não sabia se ia dar certo, e de repente surgiu uma oportunidade. Consegui passar correndo por trás dos carabineros que cercavam o palacete. Lembro de gritos, tiros e de mãos que me puxaram para dentro.

Centenas de pessoas circulavam pelos salões e escadarias. O clima era de apreensão e euforia. Cada pessoa que conseguia entrar era recebida com abraços e festejos. Havia um plantão permanente nas janelas para ajudar quem tentasse entrar. Soube que muitos haviam sido presos.

Encontrei brasileiros que me informaram que a única autoridade que permanecia na embaixada era um encargado de negocios, e que um avião com asilados oriundos de vários países havia partido para Ezeiza — não lembro se de manhã cedo ou no dia anterior —, e que não ficaríamos muito tempo por lá. Soube também que somente os chilenos recebiam asilo, e junto com os argentinos repatriados eram imediatamente despachados para Buenos Aires. Os demais dependiam de uma decisão política do governo argentino, que aguardava o retorno de Perón.

Centenas de pessoas circulavam pelos salões e escadarias. O clima era de apreensão e euforia. Cada pessoa que conseguia entrar era recebida com abraços e festejos

Na primeira noite dividi um colchonete com um companheiro brasileiro que conhecia vagamente, em uma sala apinhada. Os asilados ocupavam todos os espaços (salas e salões, além dos corredores e das dependências do embaixador, uma espécie de apartamento no último andar). Durante o dia, os colchonetes ficavam empilhados.

No dia seguinte encontrei “minha turma”: colegas do Instituto Pedagógico e amigos. Descobri que quem tinha uma família (marido/mulher/filhos) ganhava dois colchonetes. Aderi à família de duas amigas que tinham filhos pequenos, e dormíamos na transversal, para caber mais gente nos colchões.

Na tarde desse dia o encargado de negocios da embaixada reuniu a todos no salão principal e comunicou que o governo argentino havia suspendido a ida de asilados de outras nacionalidades para Buenos Aires e que ele fora chamado de volta. A justificativa era o retorno de Perón à Argentina e ao governo. Se não me engano, a data do retorno (ou da posse) seria em 6 de outubro. Essa passou a ser a data em que partiríamos. Funcionários chilenos faziam a manutenção e alguma limpeza.

Nos dias que se seguiram, fui me adaptando à realidade: poucos banheiros (já sem nenhuma infra, mas ainda com água quente — o melhor horário para usar era de madrugada) e pouca comida (destinada prioritariamente para crianças, que eram mais de cem, e grávidas). E fui conhecendo e reconhecendo outras pessoas.

À espera de Perón

Havia cerca de setecentas pessoas na embaixada esperando Perón voltar para decidir a nossa sorte. Eram exilados de todas as ditaduras latino-americanas, uma maioria de brasileiros e uruguaios. E apenas uma família do Equador — um professor universitário, sua mulher e quatro endemoniados filhos. Como não havia ditadura naquele momento no Equador, alguém inventou que eram perseguidos pelo governo porque os filhos tinham destruído a catedral de Quito.

Havia um único chileno que habitava sozinho uma saleta onde funcionava uma espécie de ambulatório. Quase não saía de lá. Se chamava Allende (não era parente do presidente) e diziam que era alto funcionário da Fazenda, e por isso não tinha sido encaminhado a Buenos Aires como os demais chilenos. Tinha uma maleta preta da qual não desgrudava, e que, alguns diziam, estava recheada de dólares.


Manifestantes presos no Estádio Nacional, Santiago, Chile, setembro de 1973 [Evandro Teixeira/Acervo IMS]

O tempo foi passando. A rotina era ajudar os que entravam ou tentavam entrar na embaixada, cuidar das crianças e jogar conversa fora. Não havia nada para ler. Alguém arranjou um pedaço de jornal e fez um baralho. A Cruz Vermelha nos visitava de vez em quando. Trazia medicamentos, leite para as crianças e dizia que sua prioridade era retirar os milhares de presos do Estádio Nacional e dos acampamentos. Mal ou bem, nós estávamos protegidos.

Ocorreu uma minirrevolução na embaixada. Comandadas por um exilado brasileiro, as crianças fizeram um estrago total, entupiram as privadas, destruíram os jardins, um inferno

Algumas coisas chegavam vez por outra. Não sei como o Jorge, antes de sair do país, conseguiu me enviar um pacote com algumas roupas. Outras pessoas também receberam coisas de amigos.

Um belo dia, início de outubro, todos os funcionários chilenos (que subornávamos para que comprassem frutas, sabonetes, absorventes) desapareceram, não sem antes acabar com a água quente. Ainda fazia frio.

No dia seguinte ocorreu uma minirrevolução na embaixada. Comandadas por um exilado brasileiro, as crianças fizeram um estrago total, entupiram as privadas, destruíram os jardins, um inferno. Segundo Almir, o provocador dessa insurgência infantil, era para sensibilizar o governo argentino que havia nos deixado ao deus-dará.

Esse evento provocou uma organização interna. Como éramos muitos, nos dividimos por nacionalidades. Aí apareceram as diferenças: uruguaios e brasileiros representavam “las mayorías nacionales” com mais da metade dos exilados. As minorias se agruparam.

Gal Costa contra a escassez

Cada grupo elegeu seu representante. Gabeira era o nosso. Primeira medida: consertar a rebelião infantil (desentupir os banheiros, limpar a sujeira — o jardim que se foda). Nossos representantes avaliaram o óbvio: estamos sozinhos nessa embaixada em meio a uma ditadura feroz e precisamos sobreviver. Instituímos grupos de limpeza e cozinha. A maioria se engajou. Tenho a maior vontade de dedar alguns, mas não vou fazer isso.

Nós, do colchonete coletivo, entramos no grupo 4 de cozinha, responsável pelo café da manhã. Seis brasileiros mais outro tanto de uruguaios. O café dependia do que recebíamos eventualmente de organizações humanitárias. Às vezes tínhamos dez ovos e vinte pães para seiscentas pessoas. Fazíamos ovo mexido com um pingo de ovo em cada fatia de pão. Mas éramos imbatíveis na sedução: os uruguaios tinham um toca-fitas e nós tínhamos uma fita da Gal Costa (“índia, tua pele morena…”). Fazíamos o maior sucesso com o café da manhã com música. Morríamos de fome, mas nos divertíamos (tive que conseguir um barbante para amarrar minha calça).

Conhecer os uruguaios foi a melhor coisa que aconteceu para esse pequeno grupo de brasileiros do qual fiz parte. Eles moravam espremidos no porão, sem qualquer reclamação. Nós, que dormíamos no salão gigante, nem desconfiávamos do que ocorria no subsolo dos discretos uruguaios.

Fazíamos ovo mexido com um pingo de ovo em cada fatia de pão. Mas éramos imbatíveis na sedução: os uruguaios tinham um toca-fitas e nós tínhamos uma fita da Gal Costa

Do pátio interno da embaixada, ao rés do chão, víamos uma adega cheia de salames, linguiças, bebidas, tão perto e tão distantes. A porta da adega era de ferro, cheia de cravos, intransponível. Naquela fome, olhar por aquela pequena grade era almejar os céus. Depois de algum tempo no grupo 4 de cozinha, os uruguaios (todos tupamaros) nos convidaram uma noite para o porão. Lá havia uma lata de pêssegos em calda, um salame, um vidro de azeitonas, uma garrafa de algum álcool que compartilhamos comedidamente. Pasmos, perguntamos de onde vinha — da adega. E como transpuseram aquela porta de castelo da idade média? Desparafusando toda a porta e colocando de novo no lugar. Embora não houvesse mais funcionários na embaixada, havia uns discretos mantenedores do patrimônio. Os tupas eram geniais. Mil vezes melhor do que nós. Eram aqueles que fugiram do presídio mais policiado por um túnel. Me sentia uma iniciante perto deles.

Nós, brasileiros, que agora dominávamos a cozinha, fazíamos coisas como torrar cascas de banana de madrugada para fazer cigarros. Alguém disse que dava barato. Não dava certo, mas ríamos muito.

Uma noite o palacete começou a tremer. Como tanques nos cercavam, demoramos um pouco para perceber o que ocorria. Um terremoto. Corremos todos para o pátio. Melhor um terremoto do que tanques invadindo a embaixada abandonada.

Sexo correndo solto

Enquanto os tupamaros eram discretíssimos, nós, brasileiros do grupo 4 de cozinha, fazíamos fofocas mil. Depois de mais de um mês na embaixada, o sexo corria solto. Havia uma uruguaia que dormia no nosso salão. Toda noite ela vestia uma camisola de voil rosa-choque, e seu colchonete era visitado por vários companheiros. Passamos a chamá-la de OEA. Outra que dormia num sofá no corredor era Alalc — só dava para bolivianos e peruanos, já que argentinos e chilenos não havia.

Alguns dias depois do terremoto, despertamos no imenso salão com uma balbúrdia — vários brasileiros estavam caídos no pátio interno, totalmente bêbados. De alguma maneira souberam que os tupas surrupiavam comidas e bebidas do porão. Sem habilidade nem sutileza arrombaram a porta e beberam tudo o que havia. Parece que um ficou em coma alcoólico.

Também houve um surto de piolho e de sarna que afetou, sobretudo, as crianças. Naquelas condições de higiene, até que foi pouco.

Havia uma uruguaia que dormia no nosso salão. Toda noite ela vestia uma camisola de vool rosa-choque, e seu colchonete era visitado por vários companheiros. Passamos a chamá-la de OEA

O tempo foi passando com menos notícias do mundo lá fora. Até o início de outubro recebíamos algumas, depois a rotina só era quebrada quando chegava alguém de alguma embaixada para entrevistar candidatos que se encaixavam nos seus critérios de asilo (buscavam principalmente operários e casais). Na “maioria nacional brasileira”, o único operário de que lembro era o “sapateiro do Lamarca”. Um velho sapateiro da localidade do Paraná onde o Lamarca fez um treinamento de guerrilha descoberto pelos militares. O velho acabou preso e torturado. Foi trocado pelo embaixador suíço e embarcou para o Chile.

Nosso “comitê dirigente”, que reunia as diferentes nacionalidades quando havia alguma notícia, tinha pouco pra contar.

Um dia, alguém nos fez chegar uma caixa de cigarros. Para a distribuição organizamos uma mesa no pátio e todos fizeram fila para receber um cigarro. O estresse já era imenso, e de repente um brasileiro (desconhecido para nós militantes) armou um barraco — queria fósforos. Ficou indignado porque não havia. As pessoas começavam a enlouquecer. Havia discussões de vez em quando, sempre ao cair da tarde. O calor já era excepcional para o clima chileno.

O pai de um exilado carioca (Carlos Minc, que também morava no colchão coletivo) apareceu um dia com comidas, havaianas e outros apetrechos. Não sei como ele conseguiu essa façanha. Foi uma festa.

Filme em papel higiênico

Entramos no mês de novembro. Chilenos já não tentavam entrar escalando o muro dos fundos da embaixada. À noite continuava o toque de recolher. O rádio toca-fitas dos uruguaios só transmitia notícias da junta militar — os “bandos militares”. Algumas vezes no fim da tarde levavam para o pátio e ouvíamos. Não havia música, só a nossa fita da Gal Costa, que todos já estavam cansados de ouvir, inclusive nós.

Para não se desesperar completamente, havia pessoas que faziam palestras para os adultos e contavam histórias para as crianças. Lembro do Arrudão, dirigente do PCdoB que havia passado um tempo na China e contava essa experiência. Um dia fui assistir — ele falava sobre comidas com riqueza de detalhes. Com aquela fome, as pessoas babavam.

Os uruguaios, sempre mais criativos, montaram um “filme” em um rolo de papel higiênico. A escadaria interna ficou lotada de crianças e adultos para assistir ao grande evento. Noutra ocasião levaram o rádio para a escadaria no fim da tarde, momento sempre depressivo.

Para não se desesperar completamente, havia pessoas que faziam palestras para os adultos e contavam histórias para as crianças

Um dia, entre um “bando” e outro ouvimos uma chamada sobre as centenas de refugiados na embaixada da Argentina. Dizia que a Junta Militar negociara a ida dos refugiados para a Argentina no dia seguinte. A correria e o alvoroço foram tão grandes que foi preciso desmentir imediatamente. Alguém tinha montado uma fita exatamente igual às dos “bandos militares”.

Era novembro e nada acontecia. Um dia apareceu um representante da embaixada suíça para entrevistar candidatos a asilo — operários e jogadores de futebol. Era um homem loiro, baixinho, com cabelo escovinha. Como não tínhamos nada pra fazer, resolvi ir falar com ele. Minhas amigas riam. Fui, contei minha historinha (militante do movimento estudantil no Brasil, fui perseguida e fui estudar no Chile) e disse que queria continuar estudando quando o sujeito me perguntou se aceitaria trabalhar em uma fábrica. Fui embora e não pensei mais no assunto.

A fuga para a Argentina

Um belo dia, grande tumulto: alguém havia chegado de Buenos Aires para falar conosco. Nos reunimos no grande salão e a pessoa nos informou que a partir do dia seguinte embarcaríamos para Argentina, um grupo por dia. Uma lista por ordem alfabética foi preparada. Pensei que seria uma das últimas, mas fui salva pelo “de” que antecede meu sobrenome.

Bem cedo na manhã seguinte fomos levados como gado para o aeroporto de Pudahuel. Eu tinha um RG falso com o meu nome verdadeiro. Entrei no Chile com documento falso, por isso tive que falsificar um verdadeiro para “existir”. Tinha também um documento chileno para estrangeiros. Coloquei este no salto da bota, junto com alguns dólares, e no corredor polonês dos milicos chilenos entreguei o falso. Entramos no avião militar sem nenhum civil, e quando decolou ficamos eufóricos, mas as horas foram passando e nada de chegar a Buenos Aires — pelo contrário, pela janela víamos florestas. Desesperados, pensamos que nos levavam para o Brasil.

Finalmente chegamos a um lugar descampado, na pista víamos algumas vacas pastando, ao redor do avião muitos milicos argentinos (e não brasileiros. Ufa!). Nos encaminharam para o aeroporto ou similar, e lá fomos “entrevistados”, fotografados e colheram nossas digitais. Durou horas, mas mesmo assim estávamos felicíssimos. Estávamos na Argentina, onde não havia uma ditadura. Mal sabíamos que ela já havia começado desde a volta do senil Perón com sua Isabelita e seu Bruxo.

As horas foram passando e nada de chegar a Buenos Aires — pelo contrário, pela janela víamos florestas. Desesperados, pensamos que nos levavam para o Brasil

Dali fomos levados para um lugar chamado Paso de La Patria, à beira do rio Paraná. Na outra margem ficava o Paraguai e, pertinho, o Brasil. Era um pequeno pueblito com uma pousada, com cabanas para pescadores de dourado durante a temporada. Já era fim de tarde. Com minhas amigas do colchão coletivo (e três crianças) ocupamos uma cabana e finalmente pudemos tomar banho e jantar no restaurante. Na outra metade da cabana ficaram os homens do colchão. Homens fardados do exército argentino nos fiscalizavam. Não dávamos a mínima atenção a eles.

Descobrimos que estávamos perto de Corrientes. No dia seguinte chegou outro avião lotado. Gabeira estava nele e me contou que logo após sairmos um representante da embaixada suíça apareceu para me buscar.

Fomos para Corrientes. Lotamos um carro tipo táxi, não havia ônibus. Lá conseguimos falar por telefone com parentes e amigos em Buenos Aires e no Brasil e pudemos comprar escova de dente, pasta, sabonete, toalha e alguma roupa. Liguei para Jorge, que estava em Buenos Aires.

Empedrado

Mais ou menos uma semana depois, nos transladaram de ônibus para outro lugar: Empedrado, uma cidadezinha com agência de correios, telefone, restaurantes. Lá, à beira do rio, havia um antigo hotel-cassino, imenso e lindo, com móveis dos anos 50, inclusive com um bar que vendia cigarros, bebidas e lanches. Mas ficava mais longe de Corrientes. Com acesso a telefones, pudemos falar com nossas famílias, que começaram a chegar de todas as partes. E sem o exército nos cercando, pelo menos não ostensivamente. Aos poucos, muitos exilados, sobretudo os uruguaios, foram sumindo sem deixar rastro. E sem pedir autorização para a polícia em Corrientes.

Minha mãe e meu irmão de quatro anos apareceram, acompanhados por Jorge. Era preciso ir de avião da Austral até Corrientes e de lá tomar um ônibus para Empedrado. No hotel, minha mãe até conheceu um paulista parente dela, também exilado no Chile. Jorge trazia notícias da embaixada suíça em Buenos Aires: haviam negado o asilo que haviam me concedido no Chile, mas, diante da pressão, aceitaram.

A maioria dos que restavam no hotel era brasileira. Os que tinham contatos no exterior tratavam de sair do país. Eu comecei a fazer tratativas para ir para Buenos Aires. Não era fácil — era preciso estar às nove da manhã em um posto da Polícia Federal em Corrientes para obter um visto, de lá correr até uma agência da Austral, pedir a passagem e chegar ao aeroporto até as dez. Gabeira, que era exilado na Suécia e podia voltar para lá, me contou que já havia tentado duas ou três vezes e não chegava a tempo no aeroporto. Continuava tentando.

Terremoto. Saímos todos correndo pelas escadas. Voltei para Empedrado. Os felizardos que podiam sair mas não conseguiam eram motivo de piada na volta ao hotel

O ônibus de Empedrado para Corrientes saía às sete e o tal lugar da polícia ficava no sexto andar de um prédio na periferia da cidade, e sempre havia uma fila enorme. Fui um dia com minha pequena bagagem. Cheguei meia hora antes e havia uma fila pequena. Antes da porta do sexto abrir, o prédio começou a tremer. Terremoto. Saímos todos correndo pelas escadas. Voltei para Empedrado. Os felizardos que podiam sair mas não conseguiam eram motivo de piada na volta ao hotel.

Tentei outra vez. Deu certo. Cheguei a Buenos Aires e fui com Jorge para o hotel onde ele estava hospedado. Era obrigatório apresentar-se à polícia de Buenos Aires todos os dias, mas fomos antes à embaixada suíça. Lá me disseram que o voo da Swissair para Genebra fazia escala em Porto Alegre e em São Paulo. Era a única opção. Não aceitei, me tirariam do avião em alguma dessas duas cidades. Saímos desolados.

Jorge me levou a um café onde ficavam jornalistas e outros exilados, alguns brasileiros, inclusive Gabeira, esperando para sair da Argentina. Contei o que a embaixada suíça havia feito. Depois Jorge me acompanhou à polícia. Encontramos outros brasileiros que haviam conseguido sair, como Jorge, e chegar a Buenos Aires. E alguns argentinos solidários, simpáticos velhinhos militantes do Partido Comunista Argentino (que eu nem sabia que existia).

Na capa do Clarín

No dia seguinte, cedo, alguém da embaixada suíça ligou no hotel me chamando. Descobrimos que o Clarín havia estampado na primeira página “Embaixada suíça persegue exilada brasileira”. Na embaixada me ofereceram um voo no dia seguinte pela Lufthansa. Escala em Dacar e Zurique. De lá iria para Genebra onde me esperaria alguém da ACNUR (órgão da ONU para os refugiados).

Em Zurique havia conexão para Genebra e Paris. Chegamos às sete da manhã e nevava muito. No guichê, soube que o aeroporto de Genebra estava fechado. As meninas embarcaram para Paris e lá avisaram aos que as esperavam que eu estava sozinha em Zurique.

Era meia-noite quando cheguei a Genebra. No café da manhã encontrei brasileiros e gaúchos. Estava salva. O resto é outra história

Não sabendo o que fazer, procurei a polícia suíça. Uma faxineira espanhola serviu de intérprete. Ficaram desconcertados, não sabiam o que fazer comigo, eu não me enquadrava em nenhuma das categorias que eles conheciam (imigrantes pobres em busca de emprego e turistas sem papéis). Eu não tinha documentos, só um papelzinho da embaixada suíça com meu nome, mas tinha dinheiro (uns quatrocentos dólares que minha mãe me deu) e dizia que era exilada política.

Um deles sugeriu que eu pegasse um trem para Genebra. Não aceitei. Ninguém estaria me esperando na gare. Fiquei esperando abrir o aeroporto. Às dez da noite, finalmente embarquei para Genebra. Um funcionário da ACNUR me esperava desde a manhã. Me disse que sabia o que havia acontecido porque receberam vários telefonemas de Paris. Me levou para um hotel em Lausanne onde estavam outros exilados do Chile. Era meia-noite quando cheguei. No café da manhã encontrei brasileiros e gaúchos (Anete e Maraschin). Estava salva. O resto é outra história.

Matéria publicada na edição impressa #73 em agosto de 2023.