Meio ambiente,

O sumiço dos leões suecos

Chega ao fim o verão na Suécia, uma estação que perdura à revelia do termômetro

01nov2019 - 00h09 | Edição #28 nov.2019

“Cadê os leões, mamãe?” Minha filha interrompe a caminhada para a escola e o olhar que dirige a mim tem camadas: surpresa, convertida em decepção e por fim coroada com aquela mirada que toda mãe e todo pai já conheceram. Uma expressão que mistura reverência com expectativa e a mais profunda esperança. Vejo nos olhos de minha filha a certeza cristalina de que mamãe saberá explicar (e remediar) o que está acontecendo.

O leão sumiu, e isso talvez não precisasse ser um baque tão grande, penso. Afinal, ela sabe que as coisas estão mudando: as mãozinhas agora levam luvas e, por debaixo da saia que insiste em usar, ela veste calças. Já não colhe mirtilos na floresta, nem assa salsicha no espeto. Estamos de volta à cidade, e o sol agora se recolhe ao final do dia. 

Mas o sumiço do leão de cimento chega como golpe. Ele, que conhecemos ali reinando absoluto no meio do pavimento. Que bloqueou o trânsito de carros e fez da rua larga um mar de bicicletas e varandas de restaurante. Ele, que foi montado por tantos cavaleiros e princesas nos meses quentes. O nosso leão, imponente e firme com suas centenas de quilos, foi movido, e isso significa apenas uma coisa, sem rodeios: o verão acabou.

O verão, essa estação que pinta a Suécia com cores únicas. O verde vibrante e variado que se espalha por canteiros, florestas e montanhas. As flores amarelas azuis vermelhas roxas brancas rosa que brotam nos campos em ondas alternadas, com seus tamanhos e formas diversas colorindo novas paisagens a cada par de semanas. O sol, que ganha força às tardes e segue oscilante noite adentro, mantendo azul o céu que se reflete na água imóvel dos fins de dia. Uma luz lasciva que tinge tudo de um dourado que só se vê aqui. 

E a gente. Toda a gente que de outro modo não se vê no resto do ano. “Onde estavam escondidos?” é surpresa legítima quando invadem as ruas nos primeiros dias quentes. As margens do mar e dos lagos se enchem de corpos, com suas toalhas e lanches. Os olhos aqui não encontram a vista típica de um mar frio no Brasil: as águas nórdicas de verão estão sempre cheias, independentemente da temperatura. E os suecos com a pele sempre exposta, uma pele descuidadosamente dourada, denunciando displicência genuína com o protetor solar.

Dia curto

O verão na Suécia não é necessariamente quente. Ele prescinde do calor. O verão sueco é, antes de tudo, um estado de espírito. “Eu amo o verão sueco, é meu dia favorito do ano”, diz a piada. Um dia curto que se prolonga à revelia do termômetro, fiel tão somente ao calendário. Faça chuva ou faça sol, enquanto for verão, há que se aproveitar. Quem pode vive um mês livre e acampa de moletom pelo mato, grelha comida em pequenas fogueiras e toma banho no lago. Outros se mudam para casas de campo ou veleiros. 

Os encontros de verão são frequentes e tudo se faz na churrasqueira. A batata é fresca e os morangos, a sobremesa oficial. As refeições são feitas na varanda, mesmo na casa dos dez graus. Amigos e famílias se juntam para consertar, pintar, construir. Não se fica parado no verão sueco.

A grama cresce e há que se cortar lenha para o inverno. 

E no dia em que os cabelos estão quase brancos de tão louros… É hora de cobrir os móveis do terraço e tirar água dos canos. De fechar as casas de campo e ancorar os barcos. É tempo de os adolescentes deixarem seus empregos de verão como caixas de supermercado e de os restaurantes colocarem nos menus ingredientes da próxima estação.

As águas nórdicas de verão estão sempre cheias, independentemente da temperatura

É hora de ver na calçada uma, duas, três mulheres que, finalmente, esclarecem para que serve o trench coat de viscose que pareceu inútil nas vitrines, quente demais para o verão e fino demais para o inverno. É nessa época que vejo os pés das suecas calçando sapatos que são perfeitos para a meia-estação, os sapatos certos que eu não tenho. É quando fica claro que o armário de brasileira não basta. E o coração tampouco: meu espírito oscila entre o êxtase do verão e a melancolia do resto do tempo.

Os suecos, contudo, conhecem mais cores. Eles sabem que é no outono que o verde e o roxo se encontram nos abraços, e que só essa estação ensina aos olhos quantos tons existem entre o amarelo e o vermelho. Os suecos sabem que os amores de verão são incidentais e que é no outono que os relacionamentos sérios se constroem, com um jantar ou uma visita ao museu seguida de café. E que se as margens das águas se esvaziam, é para encher as plateias dos teatros e salas de concerto em suas novas temporadas. 

“Dê-me seu outono austero, eu posso congelar. Mas se houver um brilho fugaz de conforto, ele vai brilhar”, diz o poema da escritora Karin Boye.Olhando para a rua antes bloqueada pelo leão, vejo que belas peles de carneiro agora cobrem as cadeiras nas varandas e entendo que isso é obra do outono. Só que os leões sumiram e minha filha me olha com fé e eu quero dar a ela algum consolo para o fato inexorável de que as coisas mudam. E penso em frases como: “Os leões foram descansar, mas ano que vem eles voltam”, ou “Logo a neve vai chegar e você verá como é divertido”. 

Mas são desculpas capengas, estou usando o futuro para escapar do presente. Falta-me a resignação estoica dos suecos. Como é que eles se contentam com o sumiço de tudo, com essa noite eterna que se aproxima? Como aceitam ser completamente abandonados por um sol que até ontem passava todo o seu tempo aqui? Sinto crescer o desassossego e minha melancolia grita: “Os leões foram passear num país bem quente, pois lá são mais felizes!”. E neste instante, nos meus olhos, a minha filha de quatro anos poderia ver a mesma expectativa dos seus, um olhar que suplica que alguém explique por que é que os benditos leões precisam ir embora. 

“Os leões, Liv…” Procuro sua mão e me dou conta de que ela já vai longe. A minha filha sueca brinca com as folhas amarelas de outono que se amontoam no canteiro do parque. E os meus olhos, que ela está ocupada demais para ver, são agora pura reverência e esperança de que é ela quem vai, afinal, tudo desvendar: “O verão é só uma estação que pegamos emprestada, mamãe”.

Quem escreveu esse texto

Helen Beltrame-Linné

Graduada em direito pela USP e em cinema pela Sorbonne-Nouvelle, foi diretora da Fundação Bergmancenter. 

Matéria publicada na edição impressa #28 nov.2019 em outubro de 2019.