Especial Pantanal, Meio ambiente,

Cem anos de destruição

A partir de relatos, botânico remonta a fauna e a flora pantaneiras do século passado e traça o curso de sua devastação

01ago2022 - 04h51 | Edição #60

A mudança no território natural brasileiro é impressionante se compararmos a última década do século 19 e o momento atual. Em pouco mais de um século, nossa sociedade foi capaz de invadir agressivamente todos os biomas brasileiros, em uma fulminante sucessão de fronteiras de ocupação e consumo das riquezas naturais com desperdícios sem precedentes. Esse “saque ao meio ambiente” deixou poucas marcas na memória nacional, embora possa ser considerado um dos principais componentes do Brasil atual, em suas mazelas e glórias.

O padrão se iniciou na virada do século com a Mata Atlântica, derrubada vorazmente no curto intervalo de décadas para a liberação do solo ao cultivo do café, inaugurando uma transformação que desprezou e converteu sumariamente em cinzas a intricada cobertura biológica formada ao longo de milênios. No Pantanal, a riqueza natural procurada foi principalmente a animal, tanto a fauna silvestre como a ocupação pela pecuária bovina. 

Cândido Mariano da Silva Rondon, que desbravou o bioma entre 1900 e 1906 para implantar uma rede de comunicação de telégrafos, descreveu a natureza: “Revoadas de patos-bravos, garças, marrecas, tuiuiús e cabeças-secas dão vida, cor, movimento, àquelas paragens pantanosas que recebem frequentes visitas das onças, em busca das capivaras que aí abundam”, e já pontuava: “A riqueza maior está nos esplêndidos campos, muito apropriados à criação de gado. Dotados de forragens variadas, tais como capim-lanceta, capim-branco, capim-cheiroso”.

Essa paisagem de campos naturais que se renovavam a cada ciclo de cheias tornou o território uma criação extensiva, a ponto de existirem fazendas com até 1 milhão de cabeças vivendo asselvajadas, abatidas a tiro de espingarda para a fabricação de extrato de carne. A pecuária no Pantanal gerou uma das suas principais características culturais, o “boiadeiro”. Por outro lado, a diversidade e a abundância da fauna nativa constituíam um fato marcante e lendário do bioma e chamava a atenção do Brasil litorâneo e “civilizado” de então, principalmente dos caçadores, pela abundância do seu troféu maior, a onça-pintada. Os Terenos, habitantes originários, já chamavam a região de Nocó-Sêni: o ninho das onças.

Bichos na mira 

Essa fama chegava longe e cativou figuras como Theodore Roosevelt e seu filho Kermit, que em 1914 vieram caçar no Pantanal. No livro Viagens e caçadas em Matto-Grosso (1919), o militar Pereira da Cunha conta as peripécias da dupla, como a primeira onça caçada pelo ex-presidente americano: “Logo após a solta dos cães no rastro, a onça, correndo muito pouco, trepou em um pau à beira de um capão, e com facilidade e sem sensação, Roosevelt, mesmo do campo, atravessou-lhe o coração com uma bala dum-dum da sua Springfield”. Já Kermit: “Matou do mesmo modo que seu pai, uma onça macho de grandes dimensões, que foi atravessada lado a lado por uma bala dum-dum da sua ‘Winchester’, bala que partiu os dois braços do animal”.

O trato da fauna e da flora pelo humano foi assustador, e a insensibilidade de mais de um século é sentida

Os episódios revelam uma característica comum nos relatos de caça, amadora ou profissional: a absoluta insensibilidade pela fauna nativa, que resultava em uma verdadeira guerra contra ela. Outro hábito relatado pelo militar era o tiro ao alvo nos jacarés: “Os jacarés pululavam por toda a parte […] o navio transformou-se em corpo de atiradores contra esses animais; apareciam armas de todos os sistemas e calibres, e era uma fuzilaria contínua, ininterrupta, entrecortada de risadas, aplausos, troças e vaias”.

Mais de trinta anos depois, depoimentos do escritor Francisco de Barros Júnior, em Caçando e pescando por todo o Brasil, reforçam essa prática: “Vejam como são enormes e parecem dormir [os jacarés], na sua imobilidade preguiçosa. […] Agora, acertou. Um estremecimento e seu corpo, esvaindo-se como um pneu furado, ficou chato e imóvel, como se a vida o tivesse abandonado”; “Descarregou-lhe na cabeça as cinco balas de seu ‘Smith’ e eu dei mais um tiro dentro de cada olho”; “Esses animais são repugnantes e não sentimos arrependimento pelos milhares que já temos destruído. Parecem insensíveis à dor”.

Para piorar a situação da fauna, a alta valorização de algumas partes de seus corpos criaram a figura dos caçadores profissionais, interessados em um lucrativo mercado internacional. Especialmente valorizadas eram as peles dos felinos pintados e dos jacarés — cujos caçadores profissionais eram chamados de “coureiros” —, embora não escapassem nem as penas das garças, que alcançavam alto valor por quilo. O livro O paraíso das espécies vivas: Pantanal de Mato Grosso (1984) apresenta um elucidativo relato de Antônio de Pádua Bertelli sobre a metodologia desses caçadores: “A onça era apanhada em armadilhas semelhantes às de caça ao urso, presas a correntes no sopé das árvores. Ali, o animal apresado era morto e esfolado. A jaguatirica era anzolada. A armadilha era um anzol iscado com peixe, cerca de 1,50m do chão”.

Industrialização

Por fim, também houve tentativas de industrialização da fauna silvestre, como uma fábrica de óleo de capivara, de nome comercial Capivarol e uma de “óleo de jacaré” das Indústrias Matarazzo. Isso sem mencionar a pesca predatória nos piscosos rios pantaneiros, ricos outrora em peixes de dezenas de quilos de peso, como dourados, pintados e jaús.

Com os objetivos de “integração nacional”, nos anos 70 surgem as rodovias, que vão contribuir efetivamente para a atual ocupação do bioma, como descrito no Álbum especial do governo Pedro Pedrossian (1971): “Entre as estradas de maior significado para a integração territorial, situam-se a do Pantanal […] penetrando numa região tida antigamente como intransponível [… e] percorrendo uma extensão de 316 quilômetros até Aquidauana, de onde vai a Campo Grande fundir-se no sistema rodoviário nacional”.

A partir daí, está traçado o caminho para os resultados atuais. Reforçam-se novas ameaças aos ricos ecossistemas pantaneiros, como agricultura de larga escala com seus agrotóxicos e desmatamentos, grandes projetos agropecuários, pastos artificiais com capins africanos invasores, assoreamento dos rios, projetos de hidrovias, usinas de álcool e muitas outras. 

Seja por motivações de lazer, de proteção ao gado, do comércio de couro, do “desenvolvimento”, o trato da fauna e da flora pelo humano foi assustador, e a insensibilidade de mais de um século é hoje sentida na pele. Em 2021, ocorreram queimadas históricas no bioma. Neste ano, um estudo da rede colaborativa Mapbiomas aponta que 2022 está sendo o ano mais seco dos últimos 36 anos, com redução de 74% da superfície de água desde 1985.

O especial Pantanal tem o apoio de Documenta Pantanal

Quem escreveu esse texto

Ricardo Cardim

Botânico e paisagista, escreveu Remanescentes da Mata Atlântica (Olhares).

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.