Literatura infantojuvenil,

Ouvir a diferença

Obras voltadas para crianças se tornam uma alternativa para autores indígenas ajudarem seus povos em meio à pandemia de Covid-19

01out2020 - 01h00 | Edição #38 out.2020

A literatura indígena brasileira é a inequívoca expressão do pertencimento dos povos e sujeitos originários contemporaneamente. Tal sistema literário tem como cânone a oralidade ancestral e os códigos próprios às suas organizações sociais, por isso a sua fundação não pode ser considerada somente a partir da relação vertical da sociedade dominante, que tem como parâmetro a escrita alfabética e o livro impresso como elementos do universo literário ocidentalizado. Nesse sentido, é importante considerar que, quando os/as escritores/as indígenas passam a publicar, manifestam, nesse formato, uma das inúmeras vertentes da literatura indígena brasileira, tendo por objetivo dialogar com a sociedade nacional sobre suas culturas, tradições, línguas e reivindicações políticas. 

A autonomia adquirida na Constituição Federal (1988) possibilitou que os autores indígenas pudessem abordar os temas inerentes às suas realidades sem que suas identidades fossem assombradas pela política da integração e da tutela, que por muitos séculos tentou diluir a identidade indígena como uma das raízes constituintes do “povo brasileiro”, enquanto não reconhecia seus direitos e especificidades. Assim, quando os autores indígenas passam a demarcar o campo simbólico da cultura nacional, escolhem o livro como um multiplicador da palavra indígena pelos quatro pontos cardeais. 

Escrever para crianças e jovens é um ato político dos autores indígenas, pois desmistificam desde cedo imagens pejorativas desses povos

A literatura indígena voltada para o público infantojuvenil não é o resultado da menoridade atribuída pelo Estado aos sujeitos indígenas — aliás, diga-se de passagem, esse argumento traduz-se como uma matriz colonialista continuamente sustentada pelo racismo estrutural que põe em xeque a humanidade dos povos originários, ora negando suas identidades, ora associando-os ao estado anterior à civilização, reforçando a ideia jurídica de “categoria transitória” abolida tardiamente na Constituição de 1988.

Escrever para crianças e jovens, dessa maneira, é um ato consciente e político de atuação dos autores. Explica Kaká Werá, em entrevista publicada na coleção Tembetá (Azougue, 2017): “Escolhemos o modelo de conversar com a criança, de conversar com o jovem, porque eles são muito mais livres de preconceitos do que os mais velhos. As crianças são muito mais abertas ao aprendizado, a ouvir a diferença, muito mais curiosas do que os mais velhos. Então isso também foi uma estratégia. E também porque os nossos mitos de origem, as nossas cosmovisões, as nossas fábulas têm muito a ver com esse universo infantojuvenil”. 

Significa, em outras palavras, que os autores perceberam em suas narrativas um potencial para diminuir a distância construída pela história e literatura oficiais em relação aos povos indígenas. Ao desmistificar desde cedo pelo livro indígena as imagens pejorativas cimentadas ao longo dos séculos, as crianças e os educadores não indígenas poderiam (e podem) aprender a respeitar a diversidade pluriétnica. Por isso, a literatura indígena infantojuvenil dá-se a conhecer via narrativa: na descrição do cotidiano, dos modos de vida tradicionais, da história das organizações sociais, das crenças, das lutas políticas, indo por outro caminho que não a famigerada armadilha do exótico, que os lança ao passado e os proíbe de desfrutar o presente. 

Histórico

A primeira obra indígena publicada no país voltada para o público infantojuvenil se chama Histórias de índio, de autoria de Daniel Munduruku — escritor, teórico e intelectual do povo Munduruku —, lançada em 1996, pela Companhia das Letrinhas, que a reeditou no ano de 2016. Histórias de índio traz conto, crônicas, depoimentos e informações gerais sobre os povos indígenas do Brasil, em especial dos Munduruku. Essa obra foi a única do gênero publicada na década de 1990, porém o autor, um dos maiores expoentes do movimento literário indígena, continuou investindo na área. Assim, na década de 2000, coordenou a coleção Memórias Ancestrais, da editora Peirópolis, lançando quatro títulos: As serpentes que roubaram a noite e outros mitos (2001), de sua autoria; Puratig: o remo sagrado (2001), de Yaguarê Yamã, pertencente ao povo Saterê Mawé e Maraguá; Irakisu: o menino criador (2002), de Renê Kithãulu, indígena do povo Nambikwara que já fez a travessia; e Verá, o contador de histórias (2003), de Olívio Jekupé, do povo Guarani. 

Também em 2003, Daniel Munduruku recebeu da Unesco a menção honrosa do prêmio Literatura para Crianças e Jovens na Questão da Tolerância, na categoria de livros para crianças de até doze anos, pela obra Meu avô Apolinário: um mergulho no rio da (minha) memória, lançado pela Studio Nobel em 2001. Esse fato, segundo o autor, pôs a literatura indígena na mídia, fazendo com que novos escritores investissem na área. Ainda no mesmo ano, o autor ajudou a criar o Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual (Inbrapi), uma organização que protege os conhecimentos ancestrais indígenas, levando a pensar sobre os direitos autorais coletivos e o uso indevido das histórias tradicionais pela academia, em um movimento de reaver a autoridade sobre suas narrativas. 

Para fortalecer a literatura indígena no país, Munduruku firmou parceria com a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), organizando dois concursos, o Tamoios, de Escritores Indígenas, destinado somente a sujeitos e povos indígenas e que é realizado desde 2004; e o Curumim, voltado para educadores, buscando incentivar a difusão da literatura indígena nas salas de aula da educação básica. 

Na primeira década dos anos 2000, os esforços dos indígenas em consolidar a literatura indígena já movimentavam a cena literária infantojuvenil, que foi aquecida pela implementação da Lei 11.645/2008, que tornou obrigatório o ensino da história e das culturas afro-brasileira e indígena no currículo escolar. Isso fez com que o mercado editorial investisse em autores indígenas e em obras com as temáticas das culturas desses povos, uma vez que, afirma Munduruku, enxergava um potencial econômico favorável naquele momento. 

Desde então, despontam escritores que se voltam à literatura infantojuvenil através de editoras privadas ou  de produções independentes. Entre eles há Eliane Potiguara, Kaká Werá (Guarani), Olívio Jekupé (Guarani), Cristino Wapichana, Tiago Hakiy (Saterê Mawé), Roni Wasiry Guará (Maraguá), Yaguarê Yamã (Maraguá), Edson Krenak, Lia Minapóty (Maraguá), Jaime Diákara, Ely Macuxi, Edson Kayapó, Aline Kayapó, Werá Jeguaka Mirim (Guarani) — também conhecido por ser o rapper Kunumi mc —, Shirley Krenak, Maria Kerexu (Guarani), Ariabo Kezo (Balatiponé), Rosi Waikhon (Waíkana/Piratapuia), Graça Graúna, Aline Pachamama, Denízia Kawany Fulkaxó, Vãngri Kaingang, Kamuu Dan Wapichana, Chirley Pankará, entre outros. Muitas das obras infantojuvenis indígenas foram premiadas e merecem destaque. Além de Meu avô Apolinário, temos: Coisas de índio: versão infantil, de Daniel Munduruku (Callis Editora, 2003), que recebeu Menção Honrosa do Jabuti no ano de 2004; A boca da noite, de Cristino Wapichana (Zit, 2016), ganhador do prêmio FNLIJ, do Jabuti na categoria infantil, em 2017, e do Estrela de Prata no Peter Pan — IBBY Suécia 2018. 

Outros títulos premiados são Guaynê derrota a cobra grande: uma história indígena, de Tiago Hakiy (Autêntica, 2013); Wahtirã: a lagoa dos mortos, de Daniel Munduruku e Jaime Diakara (Autêntica, 2016); O sonho de Borum (Autêntica, 2015), criado pela FNLIJ em parceria com o Instituto UKA — Casa dos Saberes Ancestrais; Projetos e presepadas de um curumim na Amazônia, de Edson Kayapó (Positivo, 2016); O olho d’água: o caminho dos sonhos, de Roni Wasiry Guará (Autêntica, 2012); e Contos da floresta, de Yaguarê Yamã (Peirópolis, 2012).

No combate à pandemia, escritores indígenas usam a publicação de obras como forma de angariar recursos e apoiar financeiramente comunidades vulneráveis

Esses são alguns exemplos da atuação diversa dos escritores no universo literário infantojuvenil a partir da literatura de autoria indígena. Com prêmios nacionais e internacionais, os escritores estão na linha de frente da trincheira étnico-racial lutando contra o racismo, seja pelas denúncias metalinguísticas em suas obras, seja manifestando-se abertamente contra as práticas etnogenocidas em suas palestras e comunicações públicas, ao mesmo tempo em que fortalecem o pertencimento e o orgulho de ser indígena.

Segundo a Bibliografia das Publicações Indígenas do Brasil, disponível online, há atualmente 57 escritores indígenas publicando em caráter individual; desse total, contabilizei que existem mais de trinta escritores indígenas que se voltam à literatura infantojuvenil.  

Para citar a potência estética dessa produção, comento brevemente Foi vovó que disse, de Daniel Munduruku (Edelbra, 2014). A obra busca lembrar às crianças sua origem através da figura da vó, que, pela contação de histórias, faz com que elas não se esqueçam de onde vieram, para onde vão e qual seu papel neste universo. Nas culturas indígenas, os avós são os sábios da comunidade que conhecem a tradição, a memória. Cumprindo seu dever, os velhos transmitem o conhecimento pela palavra, narrando histórias, alimentando o espírito da criança e educando-a sobre os tempos imemoriais em que eram, diz Munduruku, “os animais, as plantas, os peixes, as árvores, as aves que mandavam no mundo e até mesmo no homem”. Foi vovó que disse traz a magia da floresta nos seres encantados, critica a modernidade e o capitalismo e reitera o incontestável desejo de estabelecer um novo relacionamento com a sociedade dominante baseado no respeito. 

Na pandemia 

No ano de 2020, a pandemia da Covid-19 agravou a situação social dos povos indígenas, que, desamparados pelo governo, criam estratégias próprias para fugir a mais um ataque viral. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), no resumo de casos, informa que já são 158 povos atingidos, com mais de 30 mil casos confirmados e mais de oitocentos mortos. Para enfrentarem a pandemia, os escritores indígenas têm usado a publicação de obras de literatura infantil e infantojuvenil como forma de angariar recursos e apoiar financeiramente comunidades e sujeitos que ficaram em situação de vulnerabilidade: na forma de livro impresso, o escritor guarani Tiago Nhandewa publicou independentemente Quando eu caçava tatu e outros bichos (Edição do autor), destinando todo o recurso à sua comunidade Araribá. 

No formato PDF, disponibilizado online, temos Djatchy Djaterê, da escritora guarani Geni Núñez ([email protected]), que idealizou o projeto; e os editados por mim, vendidos online, cuja renda integral vai para o/a escritor/a e/ou para as respectivas comunidades dos autores: A indiazinha chapeuzinho verde, da escritora guarani Maria Lucia Takua Peres ([email protected]); A lenda de Jurecê, da escritora Auritha Tabajara ([email protected]); Cantos da Mãe Terra, de Reginaldo Kanindé ([email protected]); e O macaco e a onça, da escritora macuxi Felicia Julia Dorrico ([email protected]). As obras são vendidas a dez reais cada uma e podem ser adquiridas entrando em contato por e-mail com os respectivos autores. Aqui deixo um convite aberto à sociedade brasileira para ler e conhecer a literatura indígena infantojuvenil, para que ela, como dizem os parentes, seja também para a infância que existe em cada um de nós.

 Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Julie Dorrico

É descendente do povo Macuxi, doutoranda em teoria da literatura na PUC-RS. É autora do livro Eu sou macuxi e outras histórias (Editora Caos e Letras, 2019).

Matéria publicada na edição impressa #38 out.2020 em setembro de 2020.