Literatura brasileira,

Subversão pelas letras

Como o subúrbio carioca ajudou Lima Barreto a pensar a negritude e a desigualdade estrutural brasileira

23jun2021 - 05h00 | Edição #46

Em Os nagô e a morte (1976), a professora Juana Elbein dos Santos assim se refere à questão da territorialidade: “Todos os lugares de adoração encontram-se em iká, no quintal onde Óbàrìsà não pode penetrar”. “Iká”, em yorubá, é um odu (“destino”, em iorubá) do oráculo de Ifá, segundo o qual as pessoas, apesar de todos os problemas infringidos a elas, vão ter sempre um sorriso nos lábios e alegria de viver. São pessoas consideradas boas, mas que têm horror à morte. Em nossas palavras, é uma subversão que se faz pela resistência, pelo riso e por não desistir facilmente da vida.

A territorialidade, nessa dimensão do sagrado, é um lugar nobre na obra de Lima Barreto (1881-1922). Adentrar o seu universo narrativo — seja através do seu trabalho jornalístico, das crônicas, da ficção, dos contos ou dos romances — é residir no quintal territorializado das classes pobres, suburbanas e, particularmente, negras. Este é um desafio de compreensão da subversão pelas letras, da luta de que partilha a vida do escritor.

Como o príncipe Obá 2º da Pequena África (Cândido da Fonseca Galvão 1845-90, que escreveu centenas de artigos na imprensa em defesa da causa negra), Lima africanizou-se no subúrbio — de onde tirou os tipos, a linguagem e o colorido que amalgamam seus personagens (ele mesmo um grande personagem) e que dão o som e o cheiro de suas narrativas e escritas.

O Lima Barreto que conhecemos teve sua vida marcada por circunstâncias particulares e emblemáticas: nasceu exatamente no dia 13 de maio, sete anos antes da abolição (1888), e morreu meses depois da Semana de Arte Moderna. Sendo assim, ele viveu o Brasil de muitos ensaios, do ensaio da democracia ao ensaio da República, rico em contradições e, em especial, em desigualdades. É este o país das simbologias e estruturas materiais que marca a trajetória e a criação literária do escritor carioca no contexto de toda a sua obra, sobretudo nas crônicas e nos romances.

Constante é a discussão de sua identidade de escritor, inclusive a relação conturbada com o meio literário em que viveu. Em crônica de 28 de junho de 1911, afirmou: “Eu quero ser escritor porque quero e estou disposto a tomar na vida o lugar que colimei. Queimei meus navios, deixei tudo, por essas coisas de letras”. Em outro tópico, de forma rebelde, registra: “Não quero fazer minha biografia; basta, penso eu, que lhes diga que abandonei todos os caminhos por esses das letras; e o fiz conscientemente, superiormente, sem nada de mais forte que me desviasse de qualquer outra ambição”.

Costurando a cidade

Atemporal e libertário das suas próprias amarras conceituais, Lima Barreto sonhou acordado nos bancos dos trens de terceira classe que saíam do subúrbio da Central em direção ao centro da cidade, costurando a cidade pelos trilhos e sendo, também, um andarilho sobre eles. Ninguém conhecia tão bem a cidade como Barreto e sua boêmia literária marcada pela inquietação do século da “belle-époque”.

Havia um projeto de cidade burguesa que convivia lado a lado, interpenetrando-se com a herança africana, o que gerou no Rio de Janeiro a experiência mais radical com a modernidade; a do descompasso, das contradições e da pluralidade. Do legado imperial, temos a cidade que abrigou a Corte, o aburguesamento, os cafés, a coquetterie, o ideal francês de civilização e progresso, mas que culminou nos Códigos de Postura, nas medidas dos médicos sanitaristas que queriam higienizar as ruas do comedimento moral de uma limpeza étnica, mecanismos de controle social e punição que recaíam sobre a população negra. Por outro lado, havia a cidade das experimentações, da cultura popular, do samba, dos bares, dos usos e costumes, das festas carnavalizadas, das memórias das Áfricas distantes (e próximas), da cultura como forma de existir e resistir.

A remodelação da cidade, conhecida por “bota abaixo”, nos idos de 1903-06, fez com que a população dos morros triplicasse de tamanho. Foi o momento em que a Zona Sul da cidade se tornou a coqueluche habitacional dos endinheirados, ápice da especulação imobiliária e supervalorização do espaço, empurrando famílias da classe média, funcionários públicos e outros decadentes para as grandes chácaras dos subúrbios, lugares ainda calmos, cercado da natureza.

Lima, que nasceu na área nobre das Laranjeiras, outrora endereço de dois ilustres moradores — a Princesa Isabel e o Conde d’Eu —, acabou fazendo do subúrbio de Todos os Santos o seu recanto, seu espaço de criação, o lugar a partir do qual fala. E em sua literatura, a cultura do subúrbio aparece protagonizando o espaço da cidade, engendrando discursos contra-hegemônicos em todas as camadas sociais, rompendo com a noção abstrata do cânone ocidental.

Fez assim “a literatura dos temas não sacralizados, a dramaturgia dos atores secundários”, como nos lembra Beatriz Rezende em seu clássico Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos. Mulheres negras, gatunos, homens falidos, medíocres funcionários públicos, os que pegam trem, ontem e hoje. Vozes dos subúrbios, dos que sentem na pele a exclusão, miséria e fome da cidade que se modernizava com o advento da República. Estes são alguns tipos que fazem parte da análise do pensamento social brasileiro presente na sua obra.

As marcas da escravidão confinaram o negro, o fenômeno das políticas de embranquecimento de teor eugenista e o mimetismo das teorias raciais na conformação dos lugares de poder e privilégio de parte da sociedade nacional. Lima também fazia uma reflexão crítica do sistema capitalista e do constrangimento que os Estados Unidos representavam para o mundo, com “sua grosseria mercantil, a sua desonestidade administrativa e o seu amor ao apressado”, nas palavras do cronista-autor. Essas discussões feitas por Lima de maneira visceral provocaram um rasgo em um espaço-tempo que não estava preparado para a recepção merecida de suas ideias.

Subversivo, rebelde, Lima Barreto era a imagem — e sua obra, a lembrança — de uma sociedade que se queria enterrar nos subterrâneos da memória, junto aos estigmas da escravidão, do racismo, da herança colonial. Lima revivia tudo em suas letras, em tom grave, falando alto, mas o espaço-tempo exigia uma certa polidez nos costumes e contenção nas palavras. A reclamação, a denúncia era muito bem feita na literatura a partir das metáforas, nas entrelinhas, mas Lima rasgava o verbo, era um incômodo latente, uma pedrinha no sapato de couro dos outros homens das letras.

A este homem era necessário desarmá-lo a partir do que ele tinha de mais precioso: suas ideias. Daí a rejeição de uma Academia Brasileira de Letras ou a aversão dos “modernos” por ele. Tentar encarcerá-lo, frear seus instintos, atribuir-lhe os estigmas que logo o matariam: a exclusão, a pobreza e a violência do racismo que primeiro o encerrou no alcoolismo, depois, no manicômio e, a posteriori, no túmulo do anonimato.

Entretanto, Lima Barreto está sendo revisto desde sua primeira biografia de 1952, de Francisco de Assis Barbosa, e a partir do esforço literário de escritores e intelectuais que, tendo em vista o questionamento da formação de um cânone ocidental eurocêntrico, buscam um respiro para a literatura justamente nas frestas, nos escombros, nos trabalhos e nas memórias subversivas que tentaram soterrá-lo na história. No ano do seu centenário de morte, há um esforço, no entanto, de estar com Lima a fim de reencontrar nos seus escritos aquelas ideias “para adiar o fim do mundo”, parafraseando o pensador indígena Ailton Krenak. Esforço que compartilhamos na busca pelo quintal de sua adoração: a literatura, onde a morte, Óbàrìsà, não pode penetrar.

Este texto foi feito com apoio do Itaú Cultural.

Quem escreveu esse texto

Tom Farias

Jornalista e crítico literário, lança em novembro Escritos negros: crítica e jornalismo literário (Editora Malê).

Angélica Ferrarez

É doutoranda em história na Uerj.

Matéria publicada na edição impressa #46 em abril de 2021.