O escritor Luis Fernando Verissimo (1936-2025) (Bruno Veiga/Divulgação)

Literatura brasileira, Memória,

O cosmos numa piada

Escritores e amigos falam sobre o humor elegante, a concisão e a influência de Luis Fernando Verissimo, que morreu neste sábado (30), aos 88 anos

30ago2025

Passei a década de 80 caçando exemplares da revista Veja dos quais pudesse arrancar a página da crônica de Luis Fernando Verissimo. Com elas enchi uma gorda pasta de plástico que, volta e meia, eu consultava. Verissimo foi o primeiro autor adulto que li ainda na infância, quando aos dez anos ganhei de meus pais uma assinatura do Círculo do Livro. Inaugurei-a comprando um livro dele: Ed Mort e outras histórias. Menino, fui atraído pelo trocadilho infame do título e pela ilustração do personagem da capa, um detetive canastrão, acima do peso. No seu chapéu, no lugar da peninha, via-se uma barata. Foi uma escolha infantil, confesso, mas a partir dela transformei o desejo precoce de me tornar escritor numa espécie mais ou menos saudável de obsessão. Se ela me trouxe até aqui, parte da culpa é do Verissimo.

É claro que sou um entre muitos. O curioso é que, no caso do Luis Fernando, o apelo irresistível à vocação literária dos jovens parece vir de família. Seu pai também entortou a vida de muita gente. O escritor e jornalista Sérgio Rodrigues, por exemplo, conta que lia compulsivamente os livros de Erico, ainda na casa dos pais, aos treze anos de idade. Apaixonou-se. Não à toa sua filha mais velha se chama Clarissa, nome do primeiro romance de Erico, publicado em 1933. “Foi por causa dele que resolvi virar escritor. Eu queria fazer o que ele fazia, passar para o outro lado do espelho.” E, de fato, passou. Décadas mais tarde, já estabelecido tanto no jornalismo como na literatura, Rodrigues se tornou amigo de Luis Fernando, com quem viajou várias vezes a trabalho, atuando como mediador de suas conversas com o público.

Ser filho de Erico, no entanto, não intimidou Luis Fernando. Longe disso. “Ele tem envergadura própria, é o melhor texto surgido no Brasil nas últimas décadas”, defende Rodrigues. “A exemplo do pai, foi e é menosprezado pela crítica, que tende a ver como menores o humor e a crônica, gênero em que ele é mestre. Mas é um monstro da literatura brasileira, que vai projetar sua sombra por muito tempo sobre as novas gerações que souberem e quiserem ler com olhos livres.”

Dois capitães

Outra que virou escritora graças à influência de Erico é Leticia Wierzchowski. Ela cresceu lendo os livros infantis dele, até descobrir, na adolescência, O tempo e o vento. Foi quando percebeu que havia nascido para as sagas. Leticia lembra que, aos primeiros sinais de sucesso do seu maior best-seller, A casa das sete mulheres, recebeu um telefonema de Pedro Verissimo, um dos três filhos de Luis Fernando. Ele dizia que sua avó, Mafalda, a viúva de Erico, estava a convidando para tomar um uísque em sua casa, na rua Felipe de Oliveira, no bairro porto-alegrense de Petrópolis. 

Ela foi e, como era de se esperar, sua amizade com os Verissimo vingou. Nunca deixou de se impressionar, porém, com o fato de Luis Fernando ser tão genial quanto o pai. É algo com que não se acostuma. “Em O tempo e o vento, a gente espera que o filho do Capitão Rodrigo, Bolívar Terra, herde o protagonismo do pai”, diz ela, improvisando uma analogia. “Mas isso nunca acontece, Bolívar se sai fraco, rompendo com essa expectativa.” Para Leticia, no caso feliz e excepcional de Erico e Luis Fernando, é como se um Capitão Rodrigo gerasse outro Capitão Rodrigo.

‘Minha relação com a morte é esquecer que ela existe, e espero que ela faça o mesmo comigo’

Só que este Capitão Rodrigo veio com um tremendo senso de humor. Outro mestre da crônica, Humberto Werneck, não tem dúvidas quanto ao que há de mais poderoso na escrita de Verissimo: “Sua capacidade de ver humor e graça em toda parte e tratar isso com uma economia de recursos que torna esse humor e essa graça ainda mais contundentes”. O próprio Luis Fernando deixava isso bastante claro ao dizer que preferia tratar tudo, qualquer que seja o assunto da crônica, como piada. Inclusive, ou principalmente, a morte, um de seus temas recorrentes. 

Seu grande amigo Zuenir Ventura uma vez perguntou o que Verissimo achava dela, e o cronista de pronto se posicionou: “Sou contra”. Seu medo em relação à existência de outra vida após a morte era a possibilidade de ela se resumir a um tipo de mesa-redonda ao redor da qual passaríamos a eternidade debatendo nossas atividades pregressas. “Minha relação com a morte é esquecer que ela existe”, escreveu. “E espero que ela faça o mesmo comigo.”

Mestre do silêncio

Como ensinava outro grande humorista, Millôr Fernandes, “para fazer uma frase de dez palavras são necessárias umas cem”. E o que Verissimo tinha de sobra era força de compressão, o precioso poder de concentrar e até organizar o caos do cosmo numa piada elegante. A escritora Cláudia Tajes, que já foi até acusada de copiar o estilo de Luis Fernando (“como se isso não fosse uma honra, caso possível”), também vê na síntese e no humor a expressão maior da inteligência do escritor, que não só a influenciou, como a acolheu em casa, entre amigos e familiares. 

“Os assuntos, as sacadas, a síntese, o conhecimento de tudo, da língua e da vida, acredito que não exista autor do nosso tempo que não tenha nele um parâmetro”, afirma Tajes, fazendo a ressalva: “Um parâmetro inatingível, por supuesto”. Para ela, “com o perdão do clichê”, Verissimo era “o mestre das palavras e também do silêncio”. “Enquanto o mundo conversa, ele transforma a vida em textos.”

Sim, Verissimo era notoriamente quieto. E nós nos habituamos a falar sobre o seu silêncio. Sérgio Rodrigues diz que, apesar da franca amizade que construíram, nunca trocaram confidências. “Conversas de abrir a alma, jamais.” E emenda: “Nos entendíamos nos silêncios”. 

O escritor e jornalista Arthur Dapieve, “fã, leitor e editor” de Verissimo (nessa ordem), também conhecia muito bem a introspecção de seu amigo. Com ele, aprendeu que a “famosa palavra justa” deve ser um objetivo não só de quem escreve um texto, mas também, e “talvez sobretudo”, de quem se dedica à difícil prática dos “diálogos possíveis”. “O silêncio de Verissimo é lendário”, diz Dapieve. “E a cada ano que passa, acho sua tirada ‘não sou eu que falo pouco, os outros é que falam demais’ ainda mais brilhante.” Para Dapieve, era fácil definir Luis Fernando: uma pessoa sinceramente interessada “em nos ouvir, em nossas banalidades, em nossos ridículos, em nossa humanidade”. 

O ônus da popularidade

Sobre seu silêncio e seu humor, também dou meu testemunho. Estive com ele pela primeira vez em 2002, quando o entrevistei para um jornal de Curitiba. Marcamos um encontro às dez da manhã, no saguão do hotel em que ele estava hospedado. Cheguei com alguma antecedência e esperei sentado num dos muitos sofás da recepção, em meio a um grupo de homens ansiosos que vestiam todos uma camiseta preta estampada com um cavalo alado, sobre o qual se liam as palavras “Equipe Pegasus”. Dez em ponto, o elevador se abre e dele sai Verissimo. As mãos embolsadas, caminha lentamente. Eu me levanto, ele para, me localiza. Não digo que trocamos olhares de inteligência porque o meu ficou devendo. Acenamos um para o outro com a cabeça e iniciamos um movimento acanhado de aproximação.

A turma do cavalo alado, porém, nos pega de surpresa. Precipita-se entre nós aos saltos e empurrões, e o líder do grupo, afoito, pergunta a Verissimo: “É você o gaúcho?”. Cercado, o cronista se torna uma estátua. Responde que sim, é um gaúcho. Perguntam, então, se é ele “o gaúcho escritor”. Sim, é um escritor gaúcho, há tantos. Insatisfeitos, seus raptores finalmente apelam à objetividade: “Luis Fernando Verissimo?”. Ao que o cronista se vê enfim forçado a admitir: “Sou eu”. 

O grupo, então, sorri e abre o jogo: são gincaneiros e uma de suas tarefas é tirar uma polaroide da equipe com ele. Verissimo se mantém imóvel por cerca de dez minutos, enquanto é abraçado e fotografado diversas vezes pelos integrantes da Pegasus. Não fala, não tira as mãos dos bolsos. O sorriso congelado. De vez em quando me procura com o canto do olho e arqueia as sobrancelhas. Ali percebi que ele poderia ter sido também um gênio da comédia física. 

Para minha sorte, a entrevista, logo depois, transcorreu da melhor forma possível. Falamos sobre sua popularidade. E sobre alguns de seus assuntos favoritos na época: na política, a possível vitória de Lula nas eleições presidenciais; no futebol, o pentacampeonato no Japão; na antropologia, Patricia Pillar — para ele, uma das duas provas cabais da existência de Deus. A outra seria o pudim de laranja.

Mistérios

Patricia Pillar não se tornou apenas uma personagem de Verissimo, citada com louvor em muitas de suas crônicas, mas também uma das melhores amigas de sua família. Igualmente tímida, a atriz conta ter descoberto em Luis Fernando um escritor de “charme quieto e astuto”, cujo “olhar amoroso sobre a vida” era capaz de desvendar os mistérios das coisas mais delicadas. “Na primeira vez que estive hospedada com os Verissimo, tive a sorte de encontrar um pequeno dente de alho assado em meio à salada do jantar”, lembra Patricia. “E, segundo a tradição, quem o encontrava devia entregá-lo ao Luis Fernando.” Perguntei a ela qual seria o significado desse ritual, e ela disse que na verdade nunca soube, que só sabia que aquele tinha sido um momento realmente alegre. E então concluímos que aquela simples alegria bastava para justificar o rito.

Personagem de muitas crônicas, Patricia Pillar diz ter descoberto um escritor de ‘charme quieto e astuto’

A alegria também era parte essencial da relação de Verissimo com sua amiga e agente literária Lucia Riff, com quem trabalhava há cerca de trinta anos. “Em cada momento, seja no relacionamento com as editoras, os jornais, as escolas, na interação com o público e com os amigos, sempre a marca da elegância, da ética, da inteligência”, diz Lucia. Outro de seus editores, na Objetiva e na Companhia das Letras, Marcelo Ferroni também destaca a facilidade de trabalhar com Luis Fernando: “Ao longo dos anos, ele foi se tornando um dos autores mais queridos da própria equipe editorial”, conta. “Sempre atencioso, respeitava e considerava as sugestões e ideias de revisores, promotores de vendas, designers, enfim, de todos os que trabalhavam diretamente em seus livros.” 

Para o editor do Portal da Crônica Brasileira, Guilherme Tauil, Verissimo se distinguia por ser um “artista de expressões múltiplas”: “Compôs músicas, desenhos, roteiros para televisão, poemas, prosas de maior e menor fôlego”, embora a produção cronística, também diversificada, seja mesmo o grande diferencial de sua obra. “A embalagem pode variar, mas o conteúdo traz sempre algumas das marcas desse imenso escritor, como a boa toada do humor, a velocidade do corte preciso, a leveza da inteligência aguda.”

Arthur Dapieve faz questão de ressaltar o caráter multifacetado de Verissimo: “O humor refinado, a capacidade de dizer coisas profundas de maneira despretensiosa, a modéstia verdadeira. Não é um conjunto qualquer num único homem”. E ele fala de cadeira: quinze anos atrás, numa fazenda do interior do Rio, Dapieve mediou um encontro entre o escritor e Zuenir Ventura, posteriormente transcrito no livro Conversa sobre o tempo (Agir), lançado pelo jornalista em 2010. “Numa das sessões da entrevista, o relógio do salão parou”, lembra Dapieve. “Fez-se então a metáfora perfeita. O tempo para quando um gênio desses se pronuncia.”

Quem escreveu esse texto

Luís Henrique Pellanda

Escritor e jornalista, publicou A crônica não mata: notas do isolamento (Arquipélago).