Literatura brasileira,

A não poeta mais poeta que já li

Stella do Patrocínio, com o seu falatório, é um patrimônio poético brasileiro, sem ter escrito um só poema, fazendo sem parar poesia na língua

29out2021 - 04h01 | Edição #51

Poderíamos começar qualquer conversa com uma pergunta aparentemente simples: é possível narrar o outro? Ou até desdobrá-la numa demanda ética: é cabível narrar o outro? Se a resposta fosse positiva, teríamos de pensar: como narrar um outro? No entanto, nunca se trata de apenas um outro, abstratamente falando; afinal, todos somos outros de outros, numa reciprocidade interminável. Daí a pergunta que me faço aqui: e se for uma outra? Uma outra pobre e preta? E uma outra encarcerada quase toda a sua vida num manicômio? O que resta como rastro de Stella do Patrocínio (1941-92) será para sempre essa demanda ética, que por conter em si a violência das classes, dos gêneros, da normalidade, enfim, de todo o nosso mundo de linguagem, inclui ali todos nós, de um jeito ou de outro. Narrar um rastro feito por borrões da máquina do poder é narrar tortuosamente a si mesmo. Se narro Stella, narro-me por aquilo que projeto sobre Stella. Então me narro para narrá-la, primeiro.

Tomei conhecimento da existência de Stella do Patrocínio muito depois de sua existência viva no planeta ter se extinguido. Foi provavelmente em 2006 que comprei a edição de Reino dos bichos e dos animais é o meu nome, organizada por Viviane Mosé e publicada pela Azougue em 2001. Já tinha ouvido falar dela antes, como poeta negra presa num hospício, e foi assim que cheguei à obra, atrás de uma poeta, de um livro. Li primeiro os poemas, fascinado com aquela poética truncada de imagens inesperadas, repetições, travamentos rítmicos, deslocamentos rápidos, como se fosse uma fala para todos e para ninguém como aqui:

Meu nome verdadeiro é caixão enterro
Cemitério defunto cadáver
Esqueleto humano asilo de velhos
Hospital de tudo quanto é doença
Hospício
Mundo dos bichos e dos animais
Os animais: dinossauro camelo onça
Tigre leão dinossauro
Macacos girafas tartarugas
Reino dos bichos e dos animais é o meu nome
Jardim Zoológico Quinta da Boa Vista
Um verdadeiro jardim zoológico
Quinta da Boa Vista

Só depois li a apresentação. E ali compreendi, para encanto e desencanto, para um tipo obscuro de descoberta, que, em vez de luz, lança sombras sobre tudo em torno, que Stella do Patrocínio nunca foi precisamente poeta. Ou seja, a poeta daquele livro era e não era a mulher Stella encarcerada por anos.

Tudo é muito mais complicado.

Rastros

Pois bem. Contemos um pouco do que resta dos rastros da não poeta mais poeta que já li. Como bem nos conta Anna Carolina Vicentini Zacharias, em sua fundamental dissertação de mestrado intitulada Stella do Patrocínio: da internação involuntária à poesia brasileira, Stella foi internada no Hospício D. Pedro 2º quando tinha apenas 21 anos de idade, com diagnóstico de esquizofrenia hebefrênica, e seguiu uma vida de internação contínua por três décadas, até morrer, em 1992, com 51 anos, na Colônia Juliano Moreira.

O que ela própria designava como sua feitura nunca foi a poesia, e sim o falatório. E o que temos como matéria bruta de Stella do Patrocínio são gravações e transcrições feitas por estagiárias da Colônia entre os anos de 1986 e 1991. Essas gravações nunca são falas solitárias de Stella, nem poemas preconcebidos que ela declama; são, antes de tudo, conversas, numa interlocução que atravessa anos, mas a cada instante se liga a um contexto. Aquilo que chamamos poesia, no caso de Stella do Patrocínio, não tem absolutamente nada a ver com a instituição do poema como prática literária e bastante formatada da linguagem a partir de um sistema literário complexo e historicamente desenvolvido em etapas, contradições, confluências e influências, disputas e proposições.

Foi esse material bruto em que uma poesia aparece como acontecimento da linguagem desvinculado das instituições literárias que a poeta e filósofa Viviane Mosé tratou como poesia para produzir um livro com esse título espantoso e que se desdobra em muitas das falas-poemas, que  o poeta, crítico literário e professor Rafael Zacca percebeu, certeiramente, como uma verdadeira zoopolítica bem diversa dessa que impera no nosso tempo. Assim, o gesto de organização, corte, versificação e distribuição de Mosé, endossado por uma editora como a Azougue, mais que mero trabalho editorial, foi a criação de Stella do Patrocínio como poeta brasileira, o que só pode ser verdade na medida mesma em que é uma fabricação, ou um momento em que Stella se vê diante de vozes que representam algum poder. Uma citação de Michel Foucault, no texto “A vida dos homens infames”, sobre internos e presos, bem cabe aqui para pensar tal acontecimento:

Todas essas vidas destinadas a passar por baixo de qualquer discurso e a desaparecer sem nunca terem sido faladas só puderam deixar rastros breves, incisivos, com frequência enigmáticos a partir do momento de seu contato instantâneo com o poder. De modo que é, sem dúvida, para sempre impossível recuperá-las nelas próprias, tais como podiam ser “em estado livre”; só podemos balizá-las tomadas nas declamações, nas parcialidades táticas, nas mentiras imperativas supostas nos jogos de poder e nas relações com ele.

Essa é a Stella que procurei e encontrei, como fantasmagoria, que depois pude escutar em áudios e pouquíssimos vídeos, numa voz rouca, aguda, frágil e ao mesmo tempo potente, contínua, em variações de ritmo e forma. Dali vi surgir trabalhos igualmente impactantes: a peça musical Entrevista com Stela do Patrocínio, de 2004, de Georgette Fadel, Lincoln Antonio e Juliana Amaral, e o álbum homônimo, de 2007; o documentário Stela do patrocínio, a mulher que falava coisas, dirigido por Marcio de Andrade, em 2006; a performance Muito bem patrocinada — falatórios de Stela do Patrocínio, realizada pelas poetas Bianca Chioma e Natasha Felix, em 2020; as colagens de Ney Ferraz Paiva, do mesmo ano; ou a recentíssima canção de Linn da Quebrada, “Medrosa Ode à Stella do Patrocínio”; isso para ficarmos em poucos exemplos.

Remix

Do Patrocínio está, então, mais viva na corrente dos sistemas artísticos do que muitos artistas que viveram uma vida inteira dedicada à vida literária. Sem ter feito um único poema. Sem parar de fazer poesia na língua. Isso se dá por um complexo telefone sem fio com os rastros da tecnologia. Pouco se ouviu o que Stella disse em vida; como toda internada, reconhecida como louca, sua fala não tinha valor, não teve valor até as gravações históricas dos anos 80 que a estagiária de artes Carla Guagliardi guardou do Projeto de Livre Criação Artística como modo de escuta, passando pela exposição O ar do subterrâneo no Museu do Paço Imperial (em 1988-89, de que hoje só resta o cartaz); até as transcrições feitas pela também estagiária de psicologia Mônica Ribeiro de Souza em 1991; até a edição de Viviane Mosé em 2001.

Mesmo assim, até seu nome foi amputado com a perda de um L, e costuma reaparecer como Stela, em vez de Stella. Hoje se ouve essa série de intervenções num rastro, num borrão de silenciamentos, porém não podemos simplificar o caso. Para se ter uma ideia, vejamos o mesmo poema citado acima na disposição dada por Zacca, à guisa de exercício, em seu ensaio “Stella do Patrocínio e Aristóteles”:

meu nome verdadeiro é caixão enterro cemitério defunto cadáver esqueleto humano asilo de velhos hospital de tudo quanto é doença hospício mundo dos bichos e dos animais os animais: dinossauro camelo onça tigre leão dinossauro macacos girafas tartarugas reino dos bichos e dos animais

Curiosamente, Zacca dá-se a liberdade de também encerrar o poema em outro lugar, cortando a famosa frase-título pelo meio, como que a nos lembrar que não só toda narrativa sobre Stella do Patrocínio é narrativa do outro, mas que também qualquer organização textual a partir de Stella do Patrocínio é também um outrar da pessoa que a remixa. Stella não parece ser plenamente narrável, nem propriamente editável, apenas remixável. Eu mesmo, ouvindo o áudio preservado, editaria o texto de outro modo, segundo as respirações da fala e incluindo partículas que ficaram de fora da transcrição anterior:

meu nome verdadeiro é caixão
enterro
            cemitério
                            defunto
                                            cadáver
esqueleto humano
                                            asilo de
                                                        velho

hospital de tudo quanto é doença
hospício
e mundo dos bichos e dos animais
                                                               os animais
o dinossauro
           camelo
                           onça
                                         tigre
                                                       leão
é           dinossauro
                           macacos e
                                          girafas
                                           tartarugas
reino dos bichos e dos animais é o 
meu nome

Pouco depois de fazer essa proposta, conheci a bela dissertação de mestrado de Bruna Beber, de 2021, que também propõe desdobramentos visuais na transcrição do falatório de Stella. Pergunto: qual seria a edição correta de Stella? Todas. E nenhuma. Ao mesmo tempo. Porque ainda não cheguei à pessoa, nem chegamos, nem chegaremos.

Pessoa

Stella do Patrocínio, filha de Manoel do Patrocínio e Zilda Francisca Xavier, nasceu no Rio de Janeiro em 9 de janeiro de 1941. Pouco sabemos dos seus primeiros 21 anos de vida: Zacharias conta que fez contato com um sobrinho, que quis permanecer anônimo, mas que até seus sete anos conviveu com Stella, quando foi internada; nessa conversa, surge a imagem de uma tia atenciosa, mulher que escrevia e trabalhava como doméstica, até que em agosto de 1962, quando ia pegar um ônibus de Botafogo, onde morava, até a Central do Brasil, foi levada (e por que não dizer sequestrada?) pela polícia. Mônica Ribeiro de Souza transcreve o relato da própria Stella sobre o dia:

Eu vim pra Colônia porque eu estava andando na Rua Voluntários da Pátria ao lado do Luiz […] aí veio uma dona, me botou pra dentro do Posto do Pronto Socorro perto da Praia de Botafogo e lá, eu dentro do Pronto Socorro, ela me aplicou uma injeção, me deu um remédio, me fez um eletrochoque, me mandou tomar um banho de chuveiro, mandou procurar mesa, cadeira, cadeira, mesa, me deu uma bandeja com arroz, chuchu, carne, feijão, e aí chamou uma ambulância, uma ambulância assistência e disse: “carreguem ela”, mas não disse pra onde, “carreguem ela”, … ela achou que tinha o direito de me governar na hora, né?, me viu sozinha, e Luiz não tava mais na hora que o óculos caiu, eu não sei pra onde ele foi porque eu fiquei de repente […] aí me trouxeram pra cá, mandou: “carreguem ela” deu ordem, “carreguem ela”, na ambulância, “carreguem ela”, carregaram, me trouxeram pra cá como indigente, sem família, vim pra cá, estou aqui como indigente, sem ter família nenhuma, morando no hospital, estou aqui como indigente, sem ter ninguém por mim, sem ter família e morando no hospital.

Souza infelizmente perdeu os arquivos de áudio, embora tenha guardado transcrições organizadas em verso; assim, foi a primeira a entender Stella como criadora de poesia cabível na página. O livro de 1991, até hoje inédito, foi intitulado versos, reversos, pensamentos e algo mais… Esse material também foi utilizado por Mosé na sua edição, junto com as gravações de Guagliardi. Sobre o trabalho de Souza, é fundamental lembrar o que ela diz em entrevista a Zacharias, porque à época houve esforço de buscar parentes de algumas internadas:

[…] a questão da busca pelos parentes de Stella foi uma iniciativa minha, de comum acordo com minha supervisora, Denise Correa, porque nós tínhamos a pretensão de tentar dar um passado para quem não tem passado. […] Então é assim. Stella é uma pessoa sem passado, e a nossa intenção é poder dar um passado pra ela, mas infelizmente isso eu fiquei devendo.

Mas voltemos ao relato sobre o último dia em liberdade. Carreguem ela. Como parar de ouvir esse eco, como um eletrochoque que, em retorno inusitado, também nos encerra? Como esquecer que a mulher Stella do Patrocínio foi enterrada como indigente? O que resta, afinal, são fichas, laudos, questionários, documentos institucionais que se desdobram por cima da mulher borrada, como transparência manipulada. Como percebe Foucault, acerca de arquivos do Hospital Geral e da Bastilha, “esses discursos realmente atravessaram vidas; essas existências foram efetivamente riscadas e perdidas nessas palavras”.

Analogamente Stella, fora dos áudios, é quase só de fora. E claro que ela não é a única afinal, do Núcleo Ulisses Vianna, da mesmíssima Colônia, veio a figura também incontornável de Arthur Bispo do Rosário. Mas o Bispo é outra história, e não menos complexa: estava vivo quando se tornou parte dos objetos e do mercado da arte, teve suas reações, que nos afetam tanto quanto a obra. Antes de tudo, fica claro que não podemos comparar, sem muito cuidado, Stella do Patrocínio com outros símbolos do internamento psiquiátrico, tais como Lima Barreto, Maura Lopes Cançado, ou mesmo com o austríaco Ernst Herbeck, que publicaram livros por escolha própria, que participaram do jogo literário, cada um a seu modo.

Por isso, nessa série de metamorfoses, chego à transcrição crítica de Zacharias para a mesma cena. Para compreender, entenda-se que o itálico é fala de Stella, a fonte normal é fala da estagiária, e o material entre parênteses descreve o entorno; sinais de <> indicam o que foi enxertado nas edições posteriores, e de [] o que foi expurgado.

[É… não tinha uma noção, uma ideia.
Do que era isso tudo
Não tinha
E como é que essa ideia chegou? Como é que foi isso?
Quando… vocês vieram me visitar]

(pessoas próximas chamando por Maria e dizendo mais coisas inteligíveis no áudio)
Meu nome verdadeiro é caixão enterro cemitério defunto cadáver esqueleto humano asilo de velho<s> hospital de tudo quanto é doença hospício [e] mundo dos bichos e dos animais. Os animais dinossauro, camelo, onça, tigre, leão [, é…] dinossauro, macacos [e…] girafas tartarugas, reino dos bichos e dos animais é o meu nome
[É?]
Jardim zoológico Quinta da Boa Vista. O verdadeiro jardim zoológico Quinta da Boa Vista
[Eu não enten…]

Algo parece escapar sem parar. Zacharias percebe que Mosé reuniu os materiais diversos de Guagliardi e de Souza para confeccionar o poema em questão. Zacca partiu de Mosé. Eu parti do áudio que encontrei no documentário de Marcio de Andrade. Zacharias então nos oferece uma espécie de edição crítica e dialógica, que recria o contexto da enunciação, coisa que mal temos quando falamos de poetas canônicos. Resisto em assumir, sob o risco de simplificação; mas Stella do Patrocínio é um patrimônio poético brasileiro, sem ter escrito um só poema, fazendo sem parar poesia na língua.

E o que narro aqui, afinal? Uma relação, talvez, mediadíssima por nomes que conheço em maior ou menor grau. Se alguém lê meu texto como abertura de suas próprias relações com Stella do Patrocínio, estou eu mesmo envolvido numa trama, dei meu testemunho de como a traduziria em verso, ao risco de falsear seu falatório. Porém há algo que precisa escapar à nossa dicotomia de verdade e falsidade da relação. Quero dizer com isso que toda relação é metamórfica ou, melhor dizendo, fundada numa má compreensão do outro, numa narrativa precária do outro que só poderia ser desdobrada com a assunção de que a narrativa de nós mesmos é precária, como propõe Judith Butler em Relatar a si mesmo.

Se assim for, não estamos encalacrados numa situação de incomunicabilidade ou de inenarrabilidade do outro, mas na necessidade intrínseca de assumir essas relações como um lugar do acontecimento e da experiência. Na verdade, nem poderia ignorar o impacto dos movimentos negros, da luta antimanicomial e mesmo das poéticas de vanguarda para nos abrirmos estética e existencialmente ao falatório de Stella do Patrocínio para além da sintomatologia pura e simples.

Se Stella do Patrocínio nunca foi poeta em vida, se pouco foi escutada para além dos diagnósticos e das intervenções violentas, os gestos de partilha e escuta que vêm se multiplicando em torno dela nas últimas décadas, longe de ser simples distorções, apresentam-se como desdobramentos de algo que se torna obra durante o gesto. É uma vida singular e irredutível tornada poema. Nada nunca poderá compensar, nada poderá redimir seus trinta anos de trancamento, sua morte de indigente, seu apagamento do mundo aberto. Repita-se: nada, nunca. No entanto, em meio aos ruídos, borrões e desvios, talvez seja possível escutar: essa voz frágil e forte, rouca, aguda, em foto e vídeo e texto, que nos inquieta, que nos propõe linguagens e políticas, que nos desvela de modos ainda imprevisíveis. Stella violentamente vive. E cabe a nós, na nossa precariedade, tentar olhar, tentar ouvir, e dali desdobrar o impensável.

Este texto foi feito com o apoio do Itaú Cultural.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Gontijo Flores

Poeta, tradutor e ensaísta, escreveu Brasa enganosa (Patuá), l’azur blasé (Kotter/Ateliê) e carvão : : capim (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #51 em setembro de 2021.