Laut, Liberdade e Autoritarismo,

Jair Bolsonaro na contramão do mundo

Nos Estados Unidos, Trump enfrentou uma resistência antifascista. Deterão os brasileiros o avanço bolsonarista em direção ao precipício?

05fev2021 - 11h00 | Edição #42

Vista desde o exterior, a deriva autoritária bolsonarista causa perplexidade e preocupação. Como um país tão avançado como o Brasil, um exemplo para o restante da América Latina, até pouco tempo atrás um líder em diversidade, justiça social, cultura e saúde, pôde produzir um engendro que é a antítese de todas essas virtudes democráticas? Como pode seguir com uma gestão da pandemia com dimensões tão claramente genocidas? A resposta remete à história do fascismo e do populismo.

Se, historicamente, após as derrotas de Adolf Hitler e seus parceiros ao redor do mundo, o populismo se afastou do fascismo para dar lugar à fundação de democracias autoritárias, em tempos mais recentes, populistas como Bolsonaro, Donald Trump (nos Estados Unidos), Narendra Modi (na Índia) e Viktor Orbán (na Hungria) tentaram reverter essa trajetória histórica e transformar democracias autoritárias populistas em ditaduras francamente fascistas. A tentativa mais incisiva foi a de Trump, que fracassou.

No entanto, após a derrota eleitoral de Trump e o fracasso de sua patética tentativa de golpe de estado no início de janeiro de 2021, nem Modi, nem Orbán, nem Bolsonaro parecem ter aprendido a lição de seu tão admirado Trump. Pelo contrário, parecem ter o desejo de aprofundar suas tendências mais antidemocráticas.

Ritmo redobrado

Dentre todos eles, Bolsonaro é quem mais demonstra o desejo de trilhar rumo ao fascismo em um ritmo redobrado. Seus atos espalhafatosos não devem nos distrair de suas verdadeiras intenções, que seguem sendo minimizadas no Brasil e na América Latina. Bolsonaro não é um político normal: seus atos de nepotismo e suspeitas de corrupção não o distinguem de outros políticos, mas ele se destaca por seu projeto de reformular a sociedade brasileira em uma toada totalitária.

Seu discurso e — cada vez mais — sua prática se enquadram na história do fascismo. Hitler e Mussolini também tentaram moldar seus cidadãos à sua imagem e semelhança

Para dizermos de forma clara, Bolsonaro deixa ainda mais às claras suas intenções fascistas. Em um contexto mais que preocupante, onde Bolsonaro conseguiu eleger seus candidatos a presidente da câmara de deputados e do senado, ele decidiu apostar todas as fichas e prosseguir com o que chama de “pauta de costumes”: armar a população, permitir o homeschooling, tipificar novos crimes sexuais, investigar as práticas indígenas e outras medidas profundamente racistas e reacionárias – inspiradas, portanto, em uma recusa profunda da modernidade secular, pluralista e democrática.

Seu discurso e — cada vez mais — sua prática se enquadram na história do fascismo. Hitler e Mussolini também tentaram moldar seus cidadãos à sua imagem e semelhança. Abdicar de costumes tolerantes e apresentar a violência, a discriminação e a ideologia antidemocrática de seus regimes como única forma válida de “costumes” é parte essencial de qualquer definição de fascismo.
Aos que não compactuavam com essa concepção racista e excludente de espírito nacional, os líderes fascistas ofereceram perseguição e morte. O resultado foi a destruição de seus países, mas, antes disso, a morte e o sofrimento de muitos.

Destino

No caso do Brasil, ainda há tempo para evitar um destino tão grave. Todavia, se pensarmos que à deriva autoritária bolsonarista se somam as crises econômica e sanitária da qual Bolsonaro tenta escapar com uma mescla de negação da ciência, propagação da doença, pseudofascismo e neoliberalismo, as perspectivas são sombrias.

Inspirados em uma mescla de Hitler e Augusto Pinochet, Trump e Bolsonaro fizeram de seus países líderes em número de mortos e contaminados. Trump, um wannabe fascista, fracassou em razão não apenas de inépcia, negação da realidade e liderança fraca, mas também da resistência antifascista da maioria dos estadunidenses. Bolsonaro, que reproduz justamente todos os elementos do fracasso trumpista, parece achar que, no Brasil, será possível executar seu projeto.

Lamentavelmente, ao contrário do que se viu nos Estados Unidos, no Brasil Bolsonaro continua gerando uma “legitimidade” que se afasta cada vez mais do universo democrático e isola seu país do resto do mundo. Mas podemos manter a esperança de que a consciência e a resistência democrática dos brasileiros deterão o avanço bolsonarista em direção ao precipício. (Tradução de Bruno Mattos)

Editoria especial em parceria com o Laut

LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.

Quem escreveu esse texto

Federico Finchelstein

Historiador, escreveu Do fascismo ao populismo na história (Edições 70)

Matéria publicada na edição impressa #42 em janeiro de 2021.