Laut, Liberdade e Autoritarismo,

A tentativa de golpe nos Estados Unidos

Não se trata mais de discutir se estamos ou não diante do fascismo, mas debater a extensão dos vínculos de Trump com a política fascista

08jan2021 - 07h44 | Edição #42

Mesmo com o fracasso da tentativa de golpe de Estado trumpista após o ataque ao Capitólio – uma consequência atroz e fugaz da mobilização dos crédulos através das mentiras propagadas por seu líder –, Jair Bolsonaro, o mini-Trump de nosso continente, segue propagando as mentiras. Assim como outros seguidores fanáticos de Trump, ele almeja ser o sucessor global do presidente norte-americano.

No entanto, ao contrário de outros devotos de Trump, Bolsonaro repete a mentira trumpista de uma fraude eleitoral, do alto do poder que lhe é conferido pelo cargo de presidente do Brasil, acarretando consequências geopolíticas negativas para seu país no âmbito externo e gerando ameaças à democracia no âmbito interno.

No exato instante em que a antidemocracia e as mentiras estão sendo derrotadas, Bolsonaro mergulha seu país no isolamento ideológico e na pandemia. O caudilho brasileiro será em breve o principal porta-bandeira a ocupar um cargo de poder de uma faceta do populismo que se aproxima cada vez mais do comportamento letal de líderes como Adolf Hitler e Benito Mussolini. Como no caso deles, para Bolsonaro não basta que se acredite em suas mentiras: também é preciso tentar mudar o mundo seguindo as diretrizes de seus engodos.

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Devemos pensar essa questão em termos históricos. A mescla fascista de ideologias políticas, doença, racismo e perseguição da alteridade não levou a revoluções científicas nem a grandes descobertas, mas à violência e, inclusive, ao genocídio. No Holocausto, as vítimas foram inicialmente acusadas de propagar doenças, e os nazistas criaram condições artificiais e insalubres, tanto nos guetos como nos campos de concentração e de extermínio, para que a ideologia lograsse se impor à realidade. As vítimas só adoeceram e passaram a propagar doenças dentro desse universo criado por eles. No entanto, embora tenha imaginado doenças a torto e a direito, o fascismo não obteve os mesmos avanços que as de fato existentes. No contexto da história do fascismo e das enfermidades, a fusão bolsonarista de luta nacional, teoria da conspiração e doença apresenta traços comuns com regimes como os de Hitler e Mussolini.

O mesmo pode ser dito a respeito de Trump, mas agora que o caudilho da Casa Branca deixará o poder Bolsonaro assumirá um posto tristemente patético e sombrio: o do líder em exercício que simboliza a nível global a mentira e o obscurantismo frente à pandemia. Em resumo, ele se tornará o sumo-sacerdote de uma forma política inspirada no fascismo. As consequências dessa política genocida que através da negligência, da inação e do incentivo ao contágio provocou a morte de centenas de milhares de brasileiros, sobretudo pobres e minorias, faz com que debates que antes soavam exagerados, como a potencialidade genocida do bolsonarismo, passem a ser questões centrais para entendermos o Brasil, a América Latina e o resto do mundo.

Hoje, passada a intentona golpista malograda de Trump, fica ainda mais claro que Bolsonaro representa o exemplo mais nefasto das políticas fascistas da enfermidade, conforme já argumentamos com Jason Stanley: “Ao contrário de Trump, Bolsonaro faz o que diz. Trump insinuou muitas vezes um desejo de poder absoluto, mas sempre acaba retrocedendo… Bolsonaro, por sua vez, é em essência o ‘id’ de Trump, colocando em prática coisas que, no caso de Trump, limitam-se à fantasia. E dado que o fascismo é, em sua raiz, uma fantasia de dominação total por parte de um líder, Bolsonaro agora foi mais longe que seu mestre no sentido de concretizá-la”.

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Poucos duvidam hoje dos vínculos entre os populistas extremistas e o fascismo, mas é preciso lembrar que ao longo dos últimos anos, quando jornalistas e acadêmicos (dentre os quais me incluo), como as historiadoras Ruth Ben-Ghiat e Sarah Churchwell, ou Jason Stanley, dizíamos que Bolsonaro ou Trump apresentavam muitas semelhanças com a história e a política do fascismo, alguns acadêmicos e jornalistas rechaçavam a possibilidade sem apresentarem maiores evidências do contrário. Para eles, não se podia classificar o novo populismo como um extremismo antidemocrático, pois isso implicaria reavaliar a estabilidade e a continuidade nacionais em que acreditavam fervorosamente. Ou seja, avaliar a periculosidade dos novos líderes implicaria aceitar a fragilidade de uma democracia que deve ser amparada por maiores níveis de igualdade e representação. A falência das políticas tradicionais liberais, sejam elas de esquerda ou conservadoras, possibilitou o surgimento desses extremistas pós-fascistas e antissistema. E como podemos ver no caso dos Estados Unidos, esses extremismos só podem ser derrotados através da criação de alianças antifascistas que se proponham justamente a tornar o sistema mais justo em termos sociais, econômicos e culturais.

Genocídio

Após o golpe de Estado fracassado de Trump, já não se diz isso. Hoje mais do que nunca, é difícil usar eufemismos para descrever os sediciosos trumpistas, os fanáticos racistas e violentos que atacaram o Capitólio. Assim, não se trata mais de discutir se estamos ou não diante do fascismo, mas sim de debater a extensão dos vínculos de Trump – ou Bolsonaro – com os fascistas ou a política fascista.

Quando se diz que as políticas de Bolsonaro têm efeitos genocidas, contudo, as mesmas vozes que objetavam contra a relação entre fascismo e populismo se erguem para dizer: “Não, isso não é um genocídio”, ou “Não existe essa ou aquela dimensão genocida”. Estaria ocorrendo com a palavra genocídio o mesmo que aconteceu com a discussão em torno do fascismo pouco tempo atrás?

Por sua recusa a admitir a ameaça real da Covid-19, Bolsonaro é hoje o mais radical dos líderes da extrema direita

O próprio Bolsonaro, por sinal, integra o grupo de objetores dos termos fascismo e genocídio. E assim como os líderes fascistas, Bolsonaro nega sua responsabilidade pelas mortes, distorce a realidade e se apresenta como redentor do povo, como aquele cuja missão é “salvar vidas”. Bolsonaro questionou: “Querem me tachar de genocida. Quem que eu matei?”. Devemos concordar com Bolsonaro acerca do uso do conceito de genocídio quando se trata de refletir sobre suas políticas em relação à pandemia?

Para além da intencionalidade, é bastante evidente que os efeitos da política bolsonarista – ou suas dimensões e consequências – são genocidas no sentido de que através de mentiras, propaganda e teorias conspiratórias, ela promove o avanço letal da doença e provoca a morte de estratos da população. Mais do que discutir se esses crimes podem ou não ser enquadrados dentro do marco legal atribuído ao termo genocídio desde 1945 – a saber, o extermínio de um grupo étnico, diferenciando-o, a pedido da União Soviética, de crimes de extermínio por razões políticas ou econômicas –, deve-se reconhecer que as políticas de desinformação e falta de prevenção são evidentemente criminosas, assim como foi, por exemplo, a grande onda de fome provocada na Ucrânia pelas políticas do stalinismo em 1932 e 1933, causadoras da morte de milhões de pessoas. É possível debater se esse episódio, também chamado de “fome do terror” ou Holodomor, foi ou não um caso de genocídio, mas ninguém questiona o sentido desse debate. O mesmo vale, por exemplo, para os crimes da ditadura argentina ou o genocídio de Pol Pot no Camboja – muito embora nesses últimos episódios houvesse uma política planejada de crimes de lesa-humanidade.

Embora o caso de Bolsonaro seja diferente, no sentido de que não é possível provar fidedignamente sua intencionalidade, pode-se afirmar que sua maquinação de obstáculos à prevenção da doença, seus embates com os governos regionais motivados por esse tema e seu obscurantismo antivacinação têm efeitos ou potencialidades genocidas. Neste contexto, o debate sobre o caráter genocida do bolsonarismo – assim como as discussões nos casos de Stalin, de Pol Pot ou da Junta Argentina – não pode ser descartado de antemão. (Tradução de Bruno Mattos)

Editoria especial em parceria com o Laut

LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.

Quem escreveu esse texto

Federico Finchelstein

Historiador, escreveu Do fascismo ao populismo na história (Edições 70)

Matéria publicada na edição impressa #42 em janeiro de 2021.