Infantojuvenil,
Páginas de afeto
Ao ler para as crianças, não oferecemos a elas apenas boas histórias e momentos de prazer, mas também ganhos emocionais, cognitivos e de saúde
13nov2018 | Edição #6 out.2017A aprendizagem é um processo contínuo, que acontece nos mais diversos ambientes e momentos. Na infância, essa multiplicidade de oportunidades de aprender é ainda mais acentuada, pois é impulsionada pela curiosidade, pelas constantes descobertas e pela intensa vontade de estabelecer conexões e relacionamentos. Se crianças e adolescentes se desenvolvem convivendo com diferentes pessoas e contextos, quanto maior a oferta de situações educativas, mais se aprende.
Nesse contexto, a leitura tem um lugar especial: por meio dela, a criança conquista um novo universo para explorar, com condições favoráveis para o seu desenvolvimento.
Desde muito cedo, a criança pode ser beneficiada pela leitura, especialmente aquela realizada pelos pais — ou avós, irmãos mais velhos ou outros cuidadores —, que têm o papel fundamental de apresentar os livros e as histórias. O adulto que dedica um tempo à leitura para uma criança leva para ela muito mais do que um momento de diversão, sobretudo na primeira infância: estreita laços afetivos e contribui para o desenvolvimento de inúmeras habilidades, como brincar com o pensamento, expandir a imaginação e a criatividade e ampliar o repertório de linguagem e de experiências.
Os dois primeiros anos são fundamentais, já que nessa idade a criança é mais impactada pelas atividades de leitura e tem mais disposição cognitiva para desenvolver a linguagem. Por isso a leitura parental passou a ser uma recomendação médica internacional, adotada no Brasil.
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Desde a gestação, a leitura é um dos principais estímulos que se pode oferecer à criança. A partir da 25ª semana de gestação, os bebês já reagem a diferentes sons, como a voz da mãe, e já se beneficiam da exposição a estímulos linguísticos. Mesmo que até certa idade bebês não consigam entender o significado das palavras, o ritmo da leitura e o tom da voz são perceptíveis aos seus ouvidos.
Efeitos positivos
Aos poucos, a criança passa a construir os significados. A leitura representa um momento de convivência que traz inúmeros efeitos positivos, apontados na literatura sobre o tema, conforme demonstra o estudo “Impacto da leitura feita pelo adulto para a criança, na primeira infância, para o desenvolvimento do indivíduo”, do Itaú Social. Esse levantamento conclui, por exemplo, que quando os pais leem para os filhos antes de dormir, nota-se melhora na qualidade do sono e diminuição da ansiedade, do isolamento e do comportamento agressivo — fatores que aumentam o bem-estar e melhoram a saúde de modo geral.
Além disso, ler histórias de ficção tende a estimular a empatia e as habilidades sociais. A narrativa literária ensina a lidar com sentimentos e fortalece a criança para que se torne um adulto emocionalmente saudável e preparado para ser ativo na aprendizagem da vida e do conhecimento. Um bom livro suscita identificações com vivências e sentimentos, sobretudo quando a criança participa ativamente da leitura da história.
Tais momentos criam condições favoráveis para vivenciar a musicalidade e as especificidades da língua e das palavras lidas pelo adulto e escritas pelo autor. Aprendem-se diferentes sentidos e descobre-se a história de acordo com sua idade e seu momento de vida.
A criança pode conversar e trocar ideias durante a leitura, apreciar e conhecer as ilustrações que acompanham a narrativa, observar as atitudes, o prazer e a reação dos adultos, e descobrir as múltiplas formas de representação simbólica que os livros contêm — desenhos, letras, números. E tem, ainda, a oportunidade de descobrir a temporalidade das narrativas, de exercitar a escuta e, se a deixarmos praticar, exercer a capacidade de escolha, manifestando suas preferências e curiosidades.
A narrativa literária ensina a lidar com sentimentos e fortalece a criança para que se torne um adulto emocionalmente saudável
A compreensão do mundo se amplia quando o adulto lê para a criança narrativas repletas de conhecimento e emoções. Mesmo que as histórias sejam assustadoras, a criança aprende a lidar com o sentimento do medo, comum no seu dia a dia e necessário à sua proteção. Vivenciar essa experiência sob os cuidados de um adulto querido prepara a criança para enfrentar o desconhecido, as dificuldades, as limitações, e para crescer de forma saudável.
As histórias de medo são um exemplo interessante do impacto positivo que as narrativas literárias podem ter no desenvolvimento integral. Como o medo está presente em todas as culturas e épocas, ao ler um conto de bicho-papão ou boi da cara preta, oferecemos à criança a oportunidade de nomear, brincar, pensar e talvez transformar seus medos. Acompanhada de um adulto atento e protetor, que traz segurança e pode reler a história se ela desejar, a leitura permite brincar e se identificar ou não com os personagens.
Para que a leitura tenha os resultados esperados, é importante que o adulto conheça a narrativa que vai apresentar e esteja confortável com ela. O ideal é que faça uma reflexão sobre como a história o afeta e escolha com clareza os livros que gostaria de ler com ela. As crianças “lerão” o livro à sua maneira, e podem não gostar deles, direito comum a qualquer leitor. Ainda que a experiência seja diferente para cada um, o essencial é que todos tenham a oportunidade de explorar escuta e imagens na companhia acolhedora de outros leitores, em momentos de ludicidade e prazer.
Mesmo os adultos que têm baixa escolaridade, pouco contato com livros ou alguma dificuldade para ler podem, sim, apresentar os livros para uma criança, aproveitando, por exemplo, as ilustrações para estabelecer diálogo ou criar histórias. O afeto e a disponibilidade para transmitir a linguagem e suas histórias às crianças é mais determinante na criação do hábito de leitura do que a condição socioeconômica.
Em suma, uma criança que tenha desenvolvido o seu potencial e o interesse na leitura tem mais chances de se tornar um cidadão com capacidade de interferir de forma positiva na comunidade em que vive.
Especial Infantojuvenil: oferecimento Itaú Social
Matéria publicada na edição impressa #6 out.2017 em junho de 2018.