História,

‘O pequeno livro do grande terremoto’: o dia que abalou Lisboa

Historiador português descreve os eventos do Terremoto de 1755, que deixou traumatizados Portugal e o mundo; leia trecho

28set2022 - 15h50

De que modo as catástrofes mudam a nossa percepção de mundo? Qual a relação entre o Terremoto de 1755, o 11 de Setembro de 2001, o tsunami de 2004 e os incêndios de Roma em 64 d.C.? Como seria se esse terremoto não tivesse acontecido? Quais foram as suas repercussões culturais? A partir destes questionamentos, o historiador e político português Rui Tavares explora os desdobramentos da reconstrução da capital portuguesa na cultura e na política após o sismo que atingiu Lisboa em 1755 e traça paralelos com eventos históricos recentes em O pequeno livro do grande terremoto, que ganhou versão brasileira pela Tinta-da-China Brasil.

Tavares é o convidado do próximo Encontro de Leituras, evento on-line e gratuito promovido pela Folha de S.Paulo e pelo jornal português Público. A sessão acontece no dia 11 de outubro, terça-feira, a partir das 18h de Brasília (22h de Lisboa), e discutirá O pequeno livro do grande terremoto. O debate com o autor acontece via Zoom na reunião 863 4569 9958. A senha de acesso é 553074.

Publicado pela primeira vez em 2005, nos 250 anos da catástrofe que moldou Lisboa — e quiçá o mundo —, O pequeno livro do grande terremoto foi considerado o Melhor Ensaio do ano em 2006 (Público/RTPN) e já foi traduzido para o russo, o inglês e o italiano.

Trecho do livro

Pouco depois das nove e meia da manhã o barómetro marca 27 polegadas e sete linhas; o termómetro de Réaumur assinala catorze graus acima do gelo. O vento chega fraco, de nordeste.

Ouviu­­‑se um ruído cavo e grave — “rugido taõ medonho como o de hum espantoso Trovaõ” — e em simultâneo 
a terra tremeu. De imediato sentiu­­‑se uma vibração apenas suficiente para fazer dançar as folhas de papel em cima de uma mesa, mas de contínuo aumentou “com taõ violento, e estranho moto [=movimento], que logo indicou naõ ser puramente tremor”. Objetos maiores caíram das prateleiras, molduras e crucifixos pregados às paredes balançavam como se fossem barbatanas de um peixe fora de água — “the frames flapped against the wall”, descreveu uma testemunha inglesa. Os próprios edifícios começavam já a balançar para trás e para diante. A terra vibrava como se fosse atravessada por uma onda, disseram depois várias testemunhas — e muito corretamente, uma vez que o sismo é de fato uma onda de energia.

De que tipo de onda se tratava exatamente? Escreveu­­‑se que foi “a terra abalada por diferentes figuras, ja se via concussa, elevando­­‑se, e deprimindo­­‑se, ja inclinada para huma, e outra parte, como costuma ver­­‑se hum navio nas ondas”. Houve quem discordasse, defendendo que o abalo tomou “sómente a figura de huma undulação, e tremor violento, e não de concussão, ou succussão, sem aquellas retumbantes, e horrissonas concussões, elevações, depressões e inclinações”. Parecia evidente, contudo, que a onda sísmica vinha de sul, porque os edifícios se inclinavam num eixo sul­­‑norte, e a descrição de que oscilavam como mastros de um navio numa tempestade parece fidedigna, pelo menos pela recorrência com que testemunhas oculares usam essa imagem para descrever o que se passou.

O comerciante inglês que se encontrava à escrivaninha sentiu imediatamente o choque. Os móveis tremiam e objetos diversos caíram logo nos primeiros segundos de sismo. Conseguiu chegar­­‑se à janela e espreitar o que acontecia na rua. Segundo o seu testemunho — publicado em Londres sob o formato de folheto e intitulado Uma descrição particular do recente e horrendo terramoto em Lisboa — foi então que viu cair parte do edifício em frente à sua casa. As paredes ruíram por cima de duas pessoas que passavam e que morreram logo ali. 

That was bad enough”, escreve o comerciante, mas o pior estava para vir. “Não passava um minuto”, garante, “e vi a minha Mulher e Filha (que tinham corrido porta fora ao primeiro choque) serem enterradas vivas pela derrocada da parte restante do mesmo prédio” do outro lado da rua.

Aparentemente os edifícios começaram a ruir a partir do segundo minuto de sismo. O vaivém das paredes tinha deixado os telhados sem sustentação. As telhas caíam, e depois delas os travejamentos e tudo o que neles estava suspenso, incluindo os candelabros acesos das igrejas. A queda dos telhados matou, feriu ou imobilizou imediatamente grande parte dos fiéis que se encontravam nas igrejas — além de por vezes lhes ter tapado as saídas — enquanto as chamas dos candelabros se propagavam rapidamente às madeiras. Nas ruas, as pessoas eram atingidas por pedaços de revestimento, telhas soltas, até varandas e paredes inteiras.
Diz­­‑se que trinta segundos de abalo sísmico parecem, à pessoa que os vive, intermináveis. Mas vieram trinta segundos e passaram trinta segundos, e mais trinta e mais trinta. 

A determinada altura o abalo deteve­­‑se por um pouco, permitindo uma certa respiração aos lisboetas. Mas essa interrupção, e mesmo uma segunda, duraram apenas alguns segundos. O regresso dos abalos era mais forte ainda e a reação das pessoas, que no primeiro embate parece ter sido mais de espanto, deve ter passado rapidamente ao pânico. O que se passava afinal? Os sismos fortes em Lisboa não eram tão comuns que permitissem a uma geração ter disso memória recente. Havia, evidentemente, uma reminiscência coletiva do terremoto de 1531 — o outro grande terremoto de Lisboa —, mas 1531 estava a uma distância quase tão grande como a que nos separa de 1755. O terremoto de 1531 tinha sido coisa do tempo dos avós dos avós dos avós dos lisboetas de 1755.

O terremoto durou mais de sete minutos, com duas curtas paragens. Esta é uma estimativa de compromisso: existem testemunhos que dão como duração do terremoto dez ou quinze minutos; a maioria aponta para abaixo de dez minutos. Há quem garanta apenas uma interrupção ou até quem não se refira a nenhuma; seja como for, as paragens devem ter sido muito breves, porque todos se referem a esse sismo como tendo sido apenas um (ocorreram, contudo, réplicas durante o resto do dia e os abalos sísmicos passaram a fazer parte do quotidiano nos meses e até anos seguintes).

Já não há acordo, contudo, sobre o tempo por que se prolongou o ruído de trovão durante o sismo, mas testemunhos aparentemente fiáveis dizem que ele se fez sentir apenas durante o primeiro minuto, sendo depois substituído pelos estrondos das quedas de mobiliário, telhados, paredes e edifícios inteiros — sempre acompanhados pelos gritos da população. A derrocada dos edifícios levantava ondas de poeira em seu redor. Essas nuvens tapavam o sol, tornavam o ar irrespirável, e cobriam já uma grande parte do centro da cidade, “uma cerração tão forte que parecia querer sufocar todos os viventes”.

O primeiro choque — de entre dois a três minutos? — teria sido suficiente por si só para provocar danos excepcionais. Através da poeira, os sobreviventes puderam observar durante a breve interrupção que ruas inteiras tinham deixado de existir: todos os edifícios de determinadas áreas estavam por terra. A pausa não deu para mais do que tentar encontrar os sobreviventes mais à mão. Não houve tempo para começar a procurar haveres ou verificar o estado em que tinham ficado as habitações das vítimas. O segundo e o terceiro choques provocaram um tal pânico que muitas pessoas deixaram sequer de prestar atenção aos efeitos físicos do terremoto. Muitos acreditavam, certamente, que era chegado o fim do mundo — e há disso testemunhos incontáveis.

Todos desejavam apenas ver o fim daquele tormento e pouco depois já declaravam desejar somente esquecê­­‑lo:

nós os peccadores somos como os navegantes, que chegaõ destroçados a hum porto com huma tormenta, e tanto que serenaõ os ares, e passa o perigo logo se esquecem dos naufrágios.

Não conseguem apagar, por mais que tentem, a lembrança dos pais e das mães que abandonaram filhos durante a catástrofe, e de maridos que abdicaram de salvar as “mais fieis esposas”. Esse é outro tema dos testemunhos presenciais, mais marcante por vezes do que o choque em si: a verdade que tinham presenciado e “que ainda hoje magoa”, “esquecerem­­‑se os Pais, e as Mãis de seus amados filhos”. “Tanto póde o amor próprio”, exclama um mesmo autor, extraindo as consequências morais daquilo a que assistira: “aqui se vio com experiencia quam falso he o encarecimento dos que affirmão quererem mais ao objecto amado, que a si próprios”.

Havia algo pior do que o terremoto ter destruído casas e haveres, na verdade pior até do que a morte. Uma morte repentina, sem possibilidade de extrema­­‑unção, é naturalmente um dos grandes medos desse tempo. Mas apesar de tudo a morte é um destino esperado e aceite da vida. Mais terrível do que a morte é ser a humanidade posta a nu nas suas aspirações a uma vida virtuosa e caritativa. Num lance semelhante, os indivíduos abandonam­­‑se uns aos outros e pensam apenas na sua própria salvação:

E assim ha de ser, porque os Pais querem bem aos filhos por serem pedaços da alma, ou (para melhor dizer) partes do seu corpo, e os consortes amaõ a suas esposas pela uniaõ á sua carne, e necessariamente, segundo o axioma Filosófico, como todos por amor de si amaõ a outrem, mais se hão de amar a si proprios.

O fato de as consequências do terremoto terem confirmado uma visão pessimista da natureza humana é, pois, o que mais impressiona alguns autores, entre eles um certo António dos Remédios, numa Resposta à Carta de Jozé de Oliveira Trovam e Souza:

Quando ha peste ainda naõ falta quem assista aos enfermos com o risco de ficar contagiado, quando ha fome tambem ha quem se prive do alimento para acudir ao faminto; quando ha guerra naõ falta quem arrisque a vida propria por salvar a do amigo, Pay, ou parente; mas na occasião do terremoto se verificou aquelle adagio atéqui pouco verdadeiro, de que naõ ha Pay por filho, nem filho por Pay.

Há algo nesse parágrafo que merece uma paragem para um comentário breve, porque aquilo que ele tenta de forma muito resumida é avançar com uma hipótese de explicação para essas atitudes egoístas — no sentido mais próprio de “preservação do eu”. E, mais notável ainda, essa explicação radica na própria natureza do terremoto enquanto catástrofe diferente de todas as outras, catástrofe pura porque catástrofe descontextualizada.

Em todas as outras ocasiões das misérias humanas há quem mostre o pior, mas também o melhor, da nossa natureza. Na peste, na guerra, na fome, há quem se coloque em risco para ajudar o próximo; no terremoto não. Mas o que todas as outras calamidades têm de comum entre si, e de distinto do terremoto, é serem prolongadas no tempo, ou melhor: é terem um contexto. Num contexto é possível fazer escolhas. Mas o sismo chega de repente; não se sabe que vai começar nem quando acabará — e os mesmos crentes com o coração cheio de amor caridoso que se encontravam na missa momentos atrás tiveram então de fazer as suas escolhas munidos apenas do mais básico dos seus corpos e consciências — e não de sistemas morais desenvolvidos durante milénios ou descritos com filosofia rebuscada. É essa a diferença, e por isso o terremoto é tão verdadeiro: revela os humanos despidos de cultura, que é o seu contexto.

 

A resposta humana ao sismo foi um dos grandes motivos de admiração entre sobreviventes, descendo ao detalhe de uma impressionante descrição fisiológica das reações de pânico durante aqueles minutos.

Os homens mais palidos, que os mesmos cadaveres fiando sua vida aos seus pés, vagavaõ loucamente sem acertar caminho no seu descanço. Palpitavaõ­­‑lhe as arterias, e parecia poderem­­‑se­­‑lhes numerar os alentos da boca na velocidade dos passos. Alguns cobrindo com hum pedaço de lençol a desnudez, saltavaõ do leito, buscando lugar de refugio, para naõ achallo ja mais. Qual desesperado dos auxilios do proximo, outro alivio naõ achava, mais que entregar­­‑se nas maõs do precipicio, abrindo a boca para beber a morte.

Já para António dos Remédios, que antes vimos tão chocado pelos efeitos morais e psicológicos do terremoto, também as mudanças de comportamento e fisionomia ocorridas no auge da catástrofe (de que parece ter sido testemunha ocular) impressionaram. Segundo ele, o que ocorreu não foi menos do que uma metamorfose:

O que também foy certo, e muito para admirar era a transformaçaõ dos semblantes, pois me succedeo a mim a poucos passos desconhecer as pessoas com que tinha estado pouco antes: os que eraõ mais especiosos, corados, e robustos se fizeraõ enormes, esqualidos, e timidos, de maneira que a côr dos rostos naõ era só cadaverica, mas tambem à palidez accrescentava hum tal espanto nos olhos, que pareciaõ todos humas almas em pena com os cabellos erriçados, as vozes tremulas, e os passos sim velozes para a fuga, mas pouco firmes para a segurança.

Depois de tudo ser dito, depois de serem tentadas todas as descrições, explicações e metáforas, o mais notório é que os autores se repetem sobre a insuficiência das palavras para descrever a catástrofe: “que expressoens seráõ bastantes para explicar a confusa desordem, o triste labyrinto, e o espantozo susto do mais infeliz, e inopinado acontecimento?”, diz Trovão e Sousa, acrescentando:

Como pódem vivamente descrever­­‑se as ancias, e affliçoens, que lastimosamente, cada individuo sentia em si proprio? Como pódem pintar­­‑se os suspiros, e agonias de tantos, que entre as ruinas esperavaõ dar por instantes os ultimos alentos? Como pódem? Eu confesso que he quasi impossivel. Espectaculo taõ lastimoso, objecto taõ infausto, horror taõ formidavel naõ se explica, nem descreve, nem se pinta, só se sente.

Quando o abalo se suspendeu, os lisboetas ficaram atarantados pela cidade, perdidos uns dos outros. Alguns procuravam os seus parentes ou haveres, outros ainda não tinham compreendido completamente o que havia sucedido. As nuvens de poeira continuavam a dificultar a visibilidade. De uma parte da cidade não se via a outra, do próprio alto do Castelo não se conseguia distinguir os detalhes da destruição na Baixa. É possível, também, que alguns incêndios estivessem já ateados, embora não houvesse ainda informação sobre eles. O grande pânico dos incêndios ocorreria umas horas depois. Para já, os lisboetas parecem ter pensado que o pior tinha passado — se é que conseguiam pensar em alguma coisa. Muitos desceram até à ribeira, ao Tejo e às suas praias. O nível do mar estava abaixo do normal na maré baixa. Houve até quem escrevesse, mais tarde, que se tinha visto o fundo do rio.

Nota 
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Quem escreveu esse texto

Rui Tavares