História,

Como era gostoso o meu francês

Com pseudônimo feminino e indígena, o historiador Luiz Felipe de Alencastro deu notícias do Brasil em jornal francês nos anos 70 e 80

01set2019 - 01h09 | Edição #26 set.2019

“Pomba, quem é a Julia Juruna do Le Monde Diplomatique?”, perguntava-se a comunidade de exilados e estrangeiros que se opunham à ditadura militar brasileira em Paris, no fim dos anos 1970. A maioria apostava em Violeta Arraes, socióloga e ativista política — conhecida como a “Rosa de Paris” —, exilada em 1965 junto com o irmão Miguel, governador de Pernambuco, deposto pelo regime. 

Outros diziam que seria Maria Lygia Quartim de Moraes, também socióloga, ex-militante da Ação Libertadora Nacional (aln), que, depois do assassinato do marido, Norberto Nehring, seguiu com a filha para o Chile e então, com o golpe de Augusto Pinochet contra Salvador Allende (1973), para Paris. Havia também quem achasse que era a nipo-brasileira Helena Hirata, que havia sido presa no Congresso da União Nacional dos Estudantes (une), em Ibiúna (sp), em 1968, e se exilara na capital francesa. Ninguém podia imaginar que por trás daquele pseudônimo feminino estava o jovem doutorando, historiador e cientista político Luiz Felipe de Alencastro.

Luiz Felipe de Alencastro é um dos convidados do podcast 451 MHz #4. Ouça aqui!

Ele era estudante de graduação da Universidade de Brasília (UnB) e membro do diretório estudantil quando, em 1966, ao ver o clima de perseguição se intensificar, obteve uma bolsa de graduação do governo francês com a ajuda de ministros do Supremo Tribunal Federal (stf) e partiu para a França. O endurecimento do regime, depois do Ato Institucional número 5 (ai-5), de 1968, lotou os porões da ditadura e exacerbou as práticas criminosas do Estado por meio da tortura e da eliminação das dissidências políticas e dos “indesejados sociais”. 

Nesse contexto, uma nova geração de exilados chegou a Paris, constituindo a maior comunidade de expatriados do Brasil, com cerca de 5 mil pessoas. Formado principalmente por jovens militantes da luta armada, esse grupo havia sido preso e torturado e tinha dificuldades para se inserir na nova realidade: sem documentos, por vezes com pouco conhecimento da língua e com o moral extremamente abalado. Alguns dos exilados mais inseridos na vida acadêmica francesa, a pedido dos editores do Le Monde — particularmente Marcel Niedergang, que era o responsável pela cobertura da América Latina —, passaram a colaborar com artigos e notícias sobre o país.

A casa de Violeta era um dos centros de acolhimento e ajuda aos exilados. Foi ela quem apresentou Alencastro a Claude Julien, jornalista que, a partir de 1973, se tornou diretor do suplemento mensal do jornal diário fundado em 1944: o Le Monde Diplomatique, conhecido como “Diplô”, hoje em circulação em 29 edições internacionais, inclusive no Brasil. 

Com a tensão crescente, o historiador viu-se forçado a queimar os navios e se fixar na França. Em 1969, ele veio ao Brasil para ver o pai, que estava doente. No voo de volta, em meio ao sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, o avião foi revistado e, por muito pouco, ele não foi proibido de embarcar. O pai morreu em 1970, e ele só recebeu a notícia um mês depois. 

Criando um nome

As denúncias de tortura chegavam ao Brasil, entre outras formas, por meio dos boletins da Frente Brasileira de Informação (fbi), que foi criada por Márcio Moreira Alves, Violeta e Miguel Arraes e da qual Alencastro participou. A postagem na capital francesa passou a levantar suspeitas sobre todo o grupo de Paris e, por isso, muita vezes, os boletins seguiam para outras capitais europeias antes de serem remetidos ao Brasil. 

Naqueles tempos, como relembra Alencastro, os “diplomatas brasileiros se rebaixaram e exerceram funções policiais, se recusando a renovar o passaporte das pessoas de quem eles desconfiavam, sob variados pretextos, e negando documentos até a recém-nascidos brasileiros, para os filhos de exilados”. Diante desses perigos e ameaças, Julien sugeriu que Alencastro adotasse um pseudônimo para escrever no suplemento, que tinha uma tiragem expressiva, em torno dos 50 mil exemplares em 1973. 

A escolha de Alencastro por um nom de plume feminino foi sugestão de uma amiga feminista francesa: “Os latino-americanos, em geral, são tão machistas, tanto à direita quanto à esquerda, que acham que você nunca vai abdicar dos atributos masculinos”. 

O sobrenome Juruna vinha associar o pseudônimo às lutas dos indígenas no Brasil daquele período. Diante da repercussão negativa do genocídio indígena na imprensa internacional e de um relatório produzido em 1967 pelo procurador Jader de Figueiredo Correia, foi criada a Fundação Nacional do Índio (Funai), sob o comando do Ministério do Interior. Nesse contexto, um grupo de índios Juruna (Yudjá) foi a Brasília exigir medidas da Funai. O desprezo com que o grupo foi tratado pelos funcionários que o receberam na capital enfureceu os estudantes da UnB, incluindo Alencastro. Assim, ele se tornou Julia Juruna.

Claude Julien, resistente antinazista durante a Segunda Guerra Mundial, estudou nos Estados Unidos, foi correspondente do Le Monde em Cuba, durante a revolução, e na Guerra do Vietnã, tendo escrito La Révolution cubaine [A revolução cubana] (1961) e O império americano (1969). Quando assumiu o suplemento, que tinha uma abordagem tradicional da diplomacia, conduziu a publicação a uma linha de esquerda, de crítica do imperialismo, além de abrir espaço para a problemática latino-americana.  

Com isso, Julia Juruna estreou na capa do Le Monde Diplomatique com o texto “Brésil, le despotisme tropical” [Brasil, o despotismo tropical] e uma resenha sobre a reedição francesa do livro Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, inseridos num dossiê dedicado ao país, sob o título “Le Brésil, prototype du développement périphérique” [Brasil, protótipo do desenvolvimento periférico]. 

Alencastro passou, então, a cobrir o Brasil nas páginas do Diplô e a escrever por vezes no Le Monde, entre 1976 e 1986, quando retornou ao país. No mesmo período, ele fazia seu doutorado em história, sob a orientação de Frédéric Mauro, discípulo de Fernand Braudel — cujo trabalho sobre o Mediterrâneo seria decisivo para a pesquisa do brasileiro sobre o Atlântico Sul. Quando acabou a bolsa francesa de doutorado, lecionou nas universidades Paris 8 (Vincennes) e de Rouen. Na época, escreveu sobre Brasil, Angola, mestiçagem e tráfico negreiro na Encyclopaedia Universalis e em publicações acadêmicas.

A última leva de exilados latino-americanos partiu do Chile, depois do golpe que derrubou Allende. Esse acontecimento tocou profundamente a esquerda francesa, porque, assim como François Mitterrand, Allende uniu comunistas, socialistas e até a esquerda maçônica. Essa identificação criou uma rede de apoio aos chilenos, incluindo-se aí um grupo de brasileiros integrados, como Ruy Fausto, Emir Sader, Marco Aurélio Garcia e José Aníbal. Esse novo grupo teve melhores possibilidades legais e de trabalho para se inserir em Paris, uma vez que a vitória eleitoral da esquerda na França em 1981 já estava no horizonte.

Estados Unidos

Em 1976, o Diplô apoiou uma viagem de Alencastro aos Estados Unidos, durante o governo de Jimmy Carter, quando a Casa Branca voltava a se abrir para a América Latina. O historiador entrevistou Robert Pastor, do National Security Council — que atuava em questões relativas à América Latina e ao Caribe — e, a pedido de Miguel Arraes, reuniu-se com Leonel Brizola, que saiu do exílio no Uruguai para ir a Nova York. 

Julia Juruna tratou amplamente das relações entre Brasil e Estados Unidos no período, desde o vazamento de documentos que comprovavam o envolvimento norte-americano com o golpe e com o regime instaurado às tensões da ditadura com o governo do democrata Jimmy Carter, passando pelo impacto da eleição de Ronald Reagan no continente. Julia denunciou o mito do “milagre econômico” que, a partir de 1974, afundou o Brasil na maior crise econômica de sua história e o levou à dependência absoluta ao Fundo Monetário Internacional (fmi). 

Analisou igualmente nas páginas do Diplô a “democracia de fachada” construída pelo sistema eleitoral durante a ditadura; as vitórias do Movimento Democrático Brasileiro (mdb) nas eleições legislativas de 1974, que levaram ao Pacote de Abril de 1977; o pluripartidarismo restaurado no governo do general João Figueiredo e a eleição indireta que conduziu José Sarney, da extinta Aliança Renovadora Nacional (Arena) e então liderança do Partido Democrático Social (pds), à Presidência.

A anistia, em 1979, foi recebida com entusiasmo, e os expatriados passaram a lotar os voos para o Brasil. Alencastro não quis perder aquele momento e recorda que havia festa todos os dias no Rio de Janeiro. Na saída de uma delas, um exilado recém-chegado bateu o carro. Quando a polícia chegou, ele fez a tentativa: “Mas eu estou anistiado!”. 

Nas páginas do Diplô, Julia Juruna produziu um dos panoramas mais ricos daqueles anos: descrevendo a mobilização dos trabalhadores nas greves do abc e uma visita de Lula à Europa e aos Estados Unidos , a crise econômica pela qual passava o país, o autoritarismo e a repressão, a mobilização dos negros contra o racismo, que levou à criação do Movimento Negro Unificado (mnu). Refletiu também sobre a criação do Partido dos Trabalhadores, com análises sobre as eleições de 1982 e críticas às estratégias do partido. 

‘Os latino-americanos, em geral, são tão machistas, tanto à direita quanto à esquerda, que acham que você nunca vai abdicar dos atributos masculinos’

Conheci Julia Juruna enquanto organizava um livro de entrevistas concedidas por Alencastro entre 1992 e 2016. Além de suas reflexões historiográficas, que têm como principal marco o livro O trato dos viventes: a formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos 16 e 17 (Companhia das Letras, 2000), as entrevistas sintetizam sua análise sobre a Nova República, do impeachment do presidente Fernando Collor ao de Dilma Rousseff. Nas entrevistas, identifica esse último impedimento a um momento-chave de crise da nova democracia brasileira. Os textos de Julia Juruna, por sua vez, remetem essa crise ao processo de “abertura” conduzido pelos militares entre 1976 e 1986. 

O livro de entrevistas, publicado em agosto pela editora Azougue na coleção Encontros, e os textos de Julia Juruna, inéditos em português e que virão à luz pela editora da Universidade Federal Latino-Americana (Unila) no próximo ano, oferecem-nos a oportunidade de uma reflexão importantíssima sobre os desafios atuais da democracia brasileira — uma reflexão conduzida por um dos maiores intelectuais brasileiros em atividade, que pode nos ajudar a superar os aspectos mais sinistros de nossa história recente e, infelizmente, cada vez mais atuais.

A borduna de Julia Juruna

Leia trechos da coluna que Alencastro publicou como Julia Juruna no Diplô nos anos 70 e 80

Fronteiras ideológicas (1976)

“Nas escolas militares brasileiras os oficiais estão cada vez mais impregnados pelo conceito de ‘fronteiras ideológicas’, elaborado pelo general Golbery do Couto e Silva. […] A teoria retoma o velho esquema da aliança incondicional com a potência ocidental dominante, que já foi o fundamento da aliança de Portugal com a Inglaterra contra as ameaças espanholas e que também esteve na base da política pró-inglesa do Brasil no século 19 em relação aos demais países latino-americanos.”

Ditadura civil-militar (1976)

“O aparato de repressão, num curto-circuito da autoridade do Estado, funcionava como polícia particular, a serviço de grupos econômicos. Desde o fim dos anos 60 organizou-se todo um circuito de contribuições de patrões e grandes capitalistas para financiar a repressão. Entre os doadores figuram tanto empresários de certos setores especulativos como o da construção civil, grandes industriais e banqueiros.”

Lula e Walesa (1981)

“O Walesa brasileiro! Assim a imprensa saudou a passagem pela Europa e Estados Unidos de Luiz Inácio Lula da Silva — o Lula —, dirigente dos metalúrgicos de São Paulo. Condenado, com 12 sindicalistas, por participar nas greves da primavera de 1980, ele esteve com líderes operários e políticos, do próprio Lech Walesa a Willy Brandt. […] A Polônia pesa mais que o Brasil no contexto das relações Oriente-Ocidente, mas certas analogias podem ser assinaladas entre a ação de Walesa e a de Lula.” 

Jânio vence em SP (1986)

“A vitória de Jânio Quadros em São Paulo deixou consternadas as correntes democráticas populares brasileiras. Apoiado por uma direita que ficou nas sombras mas que é pródiga em recursos, associado a um antigo chefe de polícia apologista da tortura, empregando as fórmulas anticomunistas mais grotescas, o sr. Quadros representa o ressurgimento momentâneo dos fantasmas do Brasil de ontem.” (Tradução de Paulo Werneck)

Quem escreveu esse texto

Rodrigo Bonciani

Historiador, é um dos coautores do livro Contracondutas: ação político-pedagógica (Editora da Cidade).
 

Matéria publicada na edição impressa #26 set.2019 em agosto de 2019.