Fichamento,

Tati Bernardi

Em novo romance, escritora relata a difícil transformação de uma filha em mãe

01jun2020 - 01h00 | Edição #34 jun.2020

Senha preferencial! É assim que começa Você nunca mais vai ficar sozinha, de Tati Bernardi, lançado pela Companhia das Letras, sobre a saga da grávida Karine em aceitar a maternidade, enquanto rememora a relação com a própria mãe.

Como foi o processo de gestação desse livro? 

No começo, eu tinha montado na minha cabeça a história de uma mulher com medo de crescer, que quer ficar colada à mãe, mas ao mesmo tempo está desesperada para romper com ela, que é muito carente e um tanto abusiva psicologicamente falando. Queria falar sobre esses “jovens adultos” infantilizados e mães que acabam não vivendo experiências profissionais e amorosas por medo, preguiça ou travas infinitas, e que dão a desculpa de que foi porque “estavam ocupadas com a maternidade”. Mas, daí, eu engravidei e resolvi engravidar e envelhecer a protagonista. A Karine não sou eu, e a mãe dela, Carmine, não é a minha mãe.

Escrever esse livro foi um parto?

Esse livro foi mais difícil do que o parto da minha filha. E olha que eu fiquei dois dias com contrações e não tive nenhuma dilatação. Tive que fazer um grupo de WhatsApp comigo mesma para gravar áudios com as histórias do livro. Escrevia o que ouvia e ainda não era isso. Deletava tudo e começava de novo. Rabisquei cadernos, lousas, voltava para o papel. Tinha medo de que minha mãe e minha filha lessem, fiz centenas de sessões de terapia. É sobre mim? É uma personagem? Eu sou uma personagem? Li entrevistas de vários autores falando sobre “o preço a se pagar” pela autoficção. Decidi que o livro seria uma ficção. 

Leu muitos livros sobre maternidade? 

Li livros que pretendiam falar “a verdade” sobre relacionamentos familiares. Maternidade, de Sheila Heti. Contra os filhos, de Lina Meruane. E, já que eu queria dar esse tom bem sincero, li Afetos ferozes, de Vivian Gornick; reli O filho eterno, de Cristovao Tezza; e Meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout. Também li dois psicanalistas: Winnicott e Françoise Dolto.

Tati Bernardi escreve sobre ‘Cat Person’, livro de autora americana que contem o conto que viralizou nas redes sociais

Há momentos bastante engraçados no livro, que são ao mesmo tempo angustiantes. Como achar o equilíbrio entre tons tão diferentes?

Como diz o escritor David Sedaris, que eu adoro, “o que um não escritor faz com as coisas ruins que lhe acontecem? Tenho pena desse cara”.

A relação entre Karine e Carmine é bastante intensa e contraditória, uma se confunde com a outra. Você recomendaria algum tipo de terapia para as duas?

Desde que eu comecei a estudar psicanálise, há uns quatro ou cinco anos, todo trabalho de conclusão de curso que eu preciso entregar faço sobre maternidade, relação mãe e filha. Eu adoraria que minha mãe tivesse aceitado meu conselho e feito análise, mas até hoje ela acha isso uma besteira. Já eu posso dizer com certeza que Freud, Lacan, Winnicott e Klein fizeram mais por mim do que 99% dos meus parentes e amigos.

Que tipo de mãe você acha que a Karine seria?

A Karine estava muito preocupada em não ser uma mãe cheia de manias, esquisitices e medos — e acho que essas são as melhores mães. Pessoas mais complexas e angustiadas. Sou uma grande defensora da neurose (acho que o oposto dela é a sociopatia, e não a normalidade).

Seus livros são como filhos seus?

Esse meu livro, especificamente, me fez acordar muitas madrugadas, sugou muito do meu peito, me envelheceu um tanto, pesou, chutou, gritou na minha orelha. Mas, mesmo que ele venda bastante e receba boas críticas, ainda assim não chega nem perto de um abracinho da minha filha Rita.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #34 jun.2020 em maio de 2020.