Carnaval, Flip,

Os sertões em 540 toques

Composta por mecânico que não leu Euclides da Cunha, obra-prima do samba sobre destino trágico de Canudos fez história em 1976

01jul2019 - 01h00 | Edição #24 jul.2019

Quando uma pequena escola de samba do bairro de Cavalcanti, na zona norte do Rio, decidiu levar Os sertões para a avenida, um mecânico que jamais havia composto um samba de enredo nem lera a obra de Euclides da Cunha se apresentou para transformá-la em versos. O resultado foi uma das canções mais marcantes da história do Carnaval, que aparece em quase todas as antologias do gênero.

“Síntese fabulosa” e “milagre de precisão e concisão” são algumas das descrições feitas por especialistas sobre o samba da Em Cima da Hora de 1976, quando os desfiles eram realizados na avenida Presidente Vargas, antes que o sambódromo fosse construído na Marquês de Sapucaí. Em 24 versos e 540 caracteres, Edeor de Paula conseguiu resumir com singular felicidade um conteúdo caudaloso, de mais de quinhentas páginas (a primeira edição, de 1902, tinha 632).

“O que distingue ‘Os sertões’ é ser, ao mesmo tempo, extremamente curto e fundamentalmente épico. Sintético e comovente”, diz Carlos Andreazza, editor da Record e colunista do jornal O Globo, autor de diversos textos relacionados ao mundo do samba. Para ele, o sucesso só foi possível justamente “por não haver o compositor jamais lido o livro”. O cronista Luiz Antônio Simas, especializado na história social do Rio e coautor de Samba de enredo: história e arte, faz coro: “Desconfio que, se tivesse lido, não teria sido tão bem-sucedido na síntese”. 

Edeor, depois de se consagrar, acabou conhecendo o texto de Euclides da Cunha. Mas, nos dezessete dias que teve para concluir seus versos, todo o material que lhe serviu de referência foi uma elogiada sinopse de 42 páginas preparada pelos autores do enredo, o carnavalesco Sebastião de Oliveira e o diretor de carnaval Dirceu Quintanilha. Em resumo, um bom resumo rendeu um excelente resumo.

A Em Cima da Hora acrescentou um quarto ato ao conhecido roteiro que Euclides escreveu em três partes — “A terra”, “O homem” e “A luta”. Com ironia, “A paz” mostrava a calmaria reinante após a destruição de Canudos.  

Na obra musical de 1976, o combate e o seu desfecho são apresentados no refrão principal — em tom maior, com notório contraste em relação aos demais trechos. É a conclusão grandiloquente de um relato épico, com um desenho melódico que faz jus à qualidade da poesia: 

Os jagunços lutaram
até o final
defendendo Canudos
naquela guerra fatal.

“O samba é cantado de forma mais melancólica quando descreve os dissabores da seca, da terra”, afirma o historiador André Diniz, autor de diversos livros sobre o universo do samba. “A tonalidade sobe sensivelmente quando entra o conflito na história.”

Antes mesmo do Carnaval, a canção já tinha sua qualidade reconhecida, ainda que tenha sofrido alguma resistência dentro da própria escola. Edeor de Paula, então com 43 anos, havia acabado de chegar à Em Cima da Hora e precisou superar compositores tradicionais da agremiação em um processo eliminatório que teve mais de vinte obras inscritas.

O jornalista Sérgio Cabral estava na quadra no dia da escolha. Na disputa entre os três sambas finalistas, um azarão desafiava Baianinho e Nilzinho. “Felizmente havia outro melhor que os dois, de autoria de Edeor de Paula, que ninguém estava percebendo, mas que o júri, sabiamente, apontou para o primeiro lugar”, escreveu em O Globo, em novembro de 1975, chamando o vencedor de “um dos melhores sambas-enredo para o Carnaval de 1976”. 

Foi mais do que isso. A safra daquele ano “não foi brincadeira”, como diz André Diniz, lembrando “Menininha do Gantois”, da Mocidade, “Invenção de Orfeu”, da Vila Isabel, e “Sonhar com rei dá leão”, que celebrou o jogo do bicho e deu o título à Beija-Flor. Mas o grande samba do ano, com direito ao respeitado prêmio Estandarte de Ouro e a um lugar cativo na história, foi “Os sertões”.

Durante a composição, Edeor esbarrou em um problema. Havia uma orientação expressa da diretoria da escola para que fosse incluída na letra a seguinte frase do livro: “O sertanejo é acima de tudo um forte”. Mas ela “não se encaixava na melodia”, como contou o mecânico, que se explicou à direção e deixou assim o refrão do meio: 

Sertanejo é forte
supera miséria sem fim
sertanejo, homem forte
dizia o poeta assim.

Ultracarnaval

Como se vê, não é uma história alegre. O trecho preferido do compositor, hoje com 86 anos, descreve a seca e uma morte que é anterior à guerra: “Morrem as plantas e foge o ar”. A sequência (“a vida é triste nesse lugar”), ainda em tom menor, resume o que pode parecer o anticarnaval, mas é o ultracarnaval. “Escola de samba não é sinônimo de alegria. É um auto dramático. Sendo o samba-enredo um gênero épico — ele não é lírico —, faz todo o sentido que Canudos tenha virado samba-enredo”, diz Simas. 

“O carnaval das escolas de samba inverte a lógica ocidental de Momo, que concerne à alegria desbragada, à subversão. E o desfile é feito, sobretudo, para emocionar. Nunca para alienar. O desfile de escola de samba é, essencialmente, uma narrativa épica”, reitera Alberto Mussa, o outro autor de Samba de enredo: história e arte

Nessa lógica, defende Simas, se “Canudos é a nossa Troia” e “Os sertões é a nossa Ilíada”, “o samba, batuque ancestral, é o nosso recitativo da aventura, para que a coletividade se lembre sempre da trajetória de seu povo”. 

Foi com o couro dos batuques encharcado que a nossa Ilíada foi apresentada na Presidente Vargas, uma demonstração de que a falta de água pode ser tão destrutiva quanto seu excesso. Um temporal pouco antes do desfile arrasou os planos da escola, que já tinha orçamento diminuto e se esforçava para permanecer na primeira divisão. Carros enguiçaram, fantasias se desmancharam e a escola fez um desfile “marcado pela própria natureza”, como anuncia o primeiro verso. Acabou em 13º lugar, rebaixada. 

“‘Os sertões’ foi o único sobrevivente de um carnaval trágico”, resume Marcelo de Mello, que dedicou à joia de Edeor de Paula um capítulo de O enredo do meu samba: A história de quinze sambas-enredo imortais. Ele afirma que a canção “virou lenda” e que “as circunstâncias em que o desfile aconteceu em 1976 ajudaram a alimentar a ideia de que aquela melodia sobre a tragédia de Canudos tinha uma sina trágica”.

A escola fez um desfile ‘marcado pela própria natureza’, como anunciava seu primeiro verso

Nem todos veem relação direta entre a canção imortal e o desfile para o qual foi composta. Na desastrosa apresentação, a escola conseguiu apenas treze de quinze pontos possíveis na categoria samba. Ainda assim, superou os limites do gênero e foi gravado por Emílio Santiago, Elymar Santos, Raimundo Fagner e Fernanda Abreu, entre outros astros da música popular. 

Edeor, um mecânico que não chegou ao Ensino Médio, teve de ouvir um jornalista lhe perguntar se alguém mais letrado o teria auxiliado, tal era a qualidade da letra. Na resposta, listou os seguintes responsáveis pela composição: “Meu pai maior, meu irmão maior, minha amiga maior e eu, que sou menor do que eles três”. Referia-se a Deus, Jesus e Nossa Senhora.

A ajuda de alguém mais letrado viria, mas já no dia do desfile. O médico da família passou na casa do compositor e lhe deixou uma garrafa de uísque para segurar a emoção.

Os problemas e as más notas levantaram a questão: seria a bela música apropriada para um desfile de escola de samba? Funciona na avenida? O questionamento ressurgiu em 2014, quando a escola reeditou o enredo de 1976, em andamento bem mais rápido, e novamente recebeu notas ruins. 

“Sou um opositor ferrenho e radical a esse conceito do ‘funcionamento’ aplicado ao samba de enredo. O que funciona é motor: samba de enredo é arte. E, na arte, só a beleza importa. Os últimos desfiles têm mostrado isso de maneira veemente, provando, na prática, que as teses do ‘funcionamento’ estão erradas. A Mangueira [campeã] de 2019 é um exemplo: o samba [‘História pra ninar gente grande’] suscitou dúvidas entre certos críticos ‘funcionamentistas’, mas o desfile foi deslumbrante, fez gente chorar”, diz Alberto Mussa.

“Os sertões” também emocionou em seu segundo desfile, porém as circunstâncias foram bem diferentes das do primeiro. Embora tenha chovido na concentração, os carros alegóricos resistiram e a escola conseguiu fazer um desfile alegre, colorido. Na releitura do carnavalesco Marco Antônio, fez-se a opção por uma narrativa menos sombria, que valorizava elementos da cultura nordestina e terminava com um carro que representava o próprio Carnaval, uma escultura que reproduzia a Praça da Apoteose. 

O desfile rendeu à agremiação de Cavalcanti mais um 13º lugar, desta vez na segunda divisão, mas suficiente para a permanência no grupo de acesso. Temperado com uma batida de forró, o samba novamente perdeu pontos, e uma jurada chegou a punir o anacronismo — o verso “Foi no século passado” teve de ser trocado por “Foi num século passado”.

A adaptação na letra e a aceleração no ritmo não incomodaram Edeor de Paula, que já não precisou de anestesia para ouvir sua obra-prima na avenida. Àquela altura, na seca ou na tempestade, com ou sem nota dez, “Os sertões” já tinha marcado, pela própria natureza, seu lugar na cultura popular brasileira. 

Os sertões

Composição de Edeor de Paula para o Carnaval de 1976

Marcado pela própria natureza
O Nordeste do meu Brasil
Oh! solitário sertão
De sofrimento e solidão
A terra é seca
Mal se pode cultivar
Morrem as plantas e foge o ar
A vida é triste nesse lugar

Sertanejo é forte
Supera miséria sem fim
Sertanejo, homem forte
Dizia o poeta assim

Foi no século passado
No interior da Bahia
O homem revoltado com a sorte
do mundo em que vivia
Ocultou-se no sertão
espalhando a rebeldia
Se revoltando contra a lei
Que a sociedade oferecia

Os jagunços lutaram
Até o final
Defendendo Canudos
Naquela guerra fatal

Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Marcos Guedes

É jornalista.

Matéria publicada na edição impressa #24 jul.2019 em junho de 2019.